Nos dividimos em cinco carros. Falei apenas o crucial para eles; não gosto de conversas desnecessárias, só deixei claro que não quero erros, e se por acaso acontecer, quem errar vai pagar com a própria vida. Fomos em comboio em direção ao morro do Jorge Turco. Não é um trajeto rápido, a rota é sentido contrário, o que demora mais para chegar, mas não tenho pressa alguma; sei que de hoje não passa. GB foi no carro comigo, junto com o Fael e o Dogão. Deixei o morro todo em alerta e sob a visão do Tevez; não sei o que pode acontecer durante a operação, então tenho que me precaver de todos os lados.
Depois de quase uma hora, chegamos. Não quis correr muito para não chamar atenção na pista, evitando confrontos desnecessários ou olhares indesejados da polícia para nenhum dos dois morros. Tem coisas que a gente tem que fazer com cautela e precisão, senão dá merda. Nossos vapores já estavam posicionados e tinham o controle da visão do terreno, faltando apenas uma coisa que eu precisava abrir a boca para comandar.
Encostamos na rua de trás do mercado, que dá entrada para o morro pela parte da mata. Aqui é muito fácil de invadir; eles são literalmente cercados pela pista, por isso a vida aqui é perigosa, morre gente à toa. Se não tiver disposição e coragem, já entra na bala firme.
Nos posicionamos estrategicamente e fomos entrando. Não demorou muito para eles perceberem a nossa presença e o confronto começou. Os fogos tomaram conta do céu e o barulho de diversos calibres cantou forte no ar. Fomos avançando e subindo o morro com firmeza; quem brotava na minha reta, eu mirava direto no coco, sem dó nem piedade.
— Vamos nos dividir, c*****o! Não quero que ele escape daqui de jeito nenhum — gritei, mirando na cabeça de um doidão que apareceu no meio da rua atirando.
— Vão se separando que eu vou dar cobertura! — avisou o GB, andando na frente da nossa linha de ataque.
Fomos avançando sem parar e já estávamos quase na metade do caminho. Eles são literalmente fracos, se eu vi dez fuzis espalhados por aqui, foi muito. O cara não investe no principal, que é armamento para proteger o seu próprio território e a sua gente. Quando penso que já vi de tudo nessa vida, esse cuzão vem e me mostra que eu não vi foi nada.
Não curto a ideia de fazer acordos de "quem se render não morre". Até porque, quando tu tá de cara com a morte, aceita qualquer coisa para sobreviver, mas depois a traição fica latente. Então comigo não tem essa de piedade; vão enfrentar a consequência e f**a-se. A vida do crime é essa: se não aguenta a pressão, não entra, ou faz uma escolha contundente. Quem fecha com vacilão, vacilão acaba sendo.
Chegamos perto da boca principal e a bala voava para todos os lados. De repente, passou um carro vermelho varado, descendo sentido contrário ao nosso. Eu tive quase certeza absoluta que era esse filho da p**a tentando fugir. Larguei o aço para cima do carro, que cantou pneu desesperado e bateu de frente numa árvore. Corri até o veículo; o desgraçado conseguiu sair, atirando para cima de mim enquanto corria desesperado. Continuei crivando ele de balas, mas ele pulou um muro que dá para o matagal e sumiu da minha vista. Filho da p**a, conseguiu escapar dessa vez.
Eu já sabia que ele iria tentar fugir, esse desgraçado. Rato é assim mesmo, não sustenta a bronca, é um covarde do c*****o. Nem para defender o próprio morro ele serve, esse miserável. Digno de pena, mas o que é dele está guardado. Na hora certa, ele vai sentar no colo do capeta, e eu mesmo vou garantir que o garfo esteja bem enfiado no cu dele.
Tinham mais alguns dos seus vapores resistindo, mas nós terminamos de limpar a área; uns fugiram desesperados e o morro passou a ser nosso. Vencemos a invasão, mas não conseguimos o prêmio final: a cabeça dele. Mas isso é certo, eu vou arrancá-la ainda, é só questão de tempo.
— O morro é nosso, p***a! — Gritei, dando tiros para o alto em sinal de vitória.
Fomos andando pelo território, e apareceram alguns fogueteiros e moradores pedindo misericórdia, implorando para não morrer. Fiquei pensando bem: já que ele não está aqui, vou fazer de forma que ele venha até mim, atraído pela raiva.
— Me levem até a casa desse arrombado se não quiserem morrer aqui mesmo! — Ordenei, com a voz autoritária.
— Eu levo, chefe! — Disse um homem, quase chorando de medo.
Eu sempre disse que são tudo cuzões. Na hora que estavam mandando tiro para cima de nós, se achavam os brabos, agora ficam aí implorando para não morrer. Não fode, não sustenta a posição.
Fomos avançando com cuidado, armados até os dentes, até porque eles podem sim ter armado uma armadilha para nós, e eu não sou de bobeira; já estou calejado nessa vida do crime para cair em qualquer golpe.
Chegamos até a porta da casa desse cuzão, que parecia mais uma espelunca do que residência. Nunca vou entender esses bandidos "Zé Ruela" que ostentam riqueza na rua, enquanto a sua própria casa cai aos pedaços. Para mim, primeiro vem o meu conforto e a minha casa, depois vêm as piranhas, o luxo e a ostentação.
Dei um tiro certeiro no cadeado do portão, que abriu na hora, e fui entrando junto com os meus. Dei uma olhada em tudo, filmei quebrando a p***a toda para registrar a destruição; agora vou mandar para esse cuzão ver o que o espera. Baguncei tudo mesmo, quebrei cada móvel e já ia colocar fogo quando mandei uns vapores irem atrás de gasolina. Já estava me dirigindo para o lado de fora quando ouvi um barulho abafado vindo lá de cima.
Corri imediatamente para o andar superior, acompanhado de perto pelo GB, Fael e Dogão. Subi com o fuzil em punho, pronto para tudo, quem tentar algo vai ficar fudido.
Tinham duas portas no corredor. Arrombei a primeira com um pontapé, mas não havia nada nem ninguém. Saímos rapidamente e fui para a porta ao lado. Quando arrombei, uma menina começou a gritar desesperadamente, totalmente desestabilizada, se encolhendo no canto e tampando o rosto com os braços, apavorada.
— Não me machuque, Ferrugem! Por favor! — Repetia ela, inúmeras vezes, tremendo da cabeça aos pés.
— Ei, mina, calma. Não é o Ferrugem que está aqui. Fica suave, olha para mim — Falei, me abaixando para ficar na mesma altura que ela, procurando acalmar. Na mesma hora, ela me olhou, os olhos cheios de terror.
— ME TIRA DAQUI, PELO AMOR DE DEUS, EU TE IMPLORO! — Gritou, agarrando-se na minha camisa com força.
— Calma, me explica o que está pegando? Eu não estou entendendo nada — pedi, tentando manter a calma.
— Ele me tem aqui em cárcere privado, contra a minha própria vontade! Só me tira daqui, por favor. Eu juro que depois pago o valor que quiser, só me ajude. Se não, vou viver o resto da minha vida trancafiada aqui — Disse ela, chorando entre soluços. E na mesma hora, o ódio tomou conta de mim.
Sem dizer uma palavra, peguei ela pelas mãos com carinho e fui descendo as escadas. Esse cara foi longe demais. Tudo bem que ele é um cara totalmente s*******o e vacilão, mas manter alguém na própria casa em cárcere privado, contra a vontade, é o cúmulo para mim. Isso ultrapassa qualquer barreira da sanidade, esse cara é um verdadeiro psicopata. Não quero nem pensar no que essa mina já passou na mão desse desgraçado.