Capítulo 4 - Gritos no silêncio

886 Words
Isadora não dormiu. A noite inteira ouviu o tique-taque lento do relógio e os passos pesados de Dante pelo corredor. Ele andava de um lado para o outro como um animal enjaulado — ou como alguém que não sabia lidar com o silêncio. O travesseiro ainda guardava o cheiro dele. Um detalhe c***l, já que ele nunca havia dormido ali. O céu começou a clarear devagar. E, com ele, a angústia no peito dela também se acentuou. Precisava sair dali. Precisava respirar sem sentir o nome dele dentro do pulmão. Vestiu uma calça leve, uma camisa branca e desceu as escadas sem fazer barulho. A mansão estava silenciosa. Somente o som suave da água na fonte do jardim quebrava a paz falsa daquela prisão dourada. Foi para a estufa, um dos poucos lugares que ainda pareciam “seus”. As plantas ali não julgavam. Nem olhavam. E o cheiro de terra úmida era a única coisa que ainda a conectava ao mundo real. Ela estava de joelhos, cuidando de uma orquídea prestes a florescer, quando a voz veio atrás dela: — Não sabia que sabia mexer com vida. Isadora se virou, os olhos estreitos. Dante estava parado na porta da estufa, sem paletó, com a camisa social branca dobrada até os cotovelos. As veias nos antebraços saltavam. Ele estava bonito. Estava sempre bonito. O problema era tudo o que vinha junto com aquele rosto. — Ao contrário de você, eu gosto de ver coisas florescerem — disse ela, voltando a atenção à planta — e não de destruir tudo que toca. — E mesmo assim casou comigo. Ela se levantou devagar, tirando a luva suja de terra. — Não seja i****a. Meu pai te vendeu. Eu só assinei o recibo. Ele a observava como se esperasse algo mais. Como se provocá-la fosse um hábito impossível de abandonar. — E o recibo veio com espinhos. — Você não sabia? Rosas machucam. Eles se encararam. Um segundo. Dois. E, por algum motivo e******o, aquele silêncio entre eles parecia dizer muito mais do que todas as brigas anteriores. — Clara vai voltar — ele disse. Isadora cruzou os braços. — Que bom. Ela combina com você: falsa, venenosa e com dentes afiados. — Não minta, Isadora. Você se incomoda com ela. — Me incomoda o que você representa — ela retrucou. — Não importa se é ela ou outra. Você sempre foi e sempre vai ser... repugnante pra mim. Ele deu um passo à frente. — Jura? — Com cada gota do meu sangue. Dante parou na frente dela. Perto demais. — Então por que está tremendo? Ela engoliu em seco. Estava, sim. Mas era de raiva. De tensão. De algo que não queria nomear. O peito subia e descia rápido demais. — Sai daqui — sussurrou. Mas ele não saiu. Ao invés disso, ergueu a mão e tocou o rosto dela — de leve. Tão leve que doeu mais do que se tivesse esbofeteado. — Você me odeia tanto que até o toque te queima. — Não — ela disse. — Eu odeio você porque, no fundo, parte de mim ainda responde ao que sente. E isso me enfurece. Dante se afastou de súbito, como se aquelas palavras tivessem feito mais estrago do que ele queria admitir. — Guarde isso — ele disse. — Você vai precisar dessa raiva quando eu te der motivos reais pra me odiar. E então ele foi embora, deixando-a com o peito em chamas. --- No fim da tarde, Isadora foi até o escritório buscar um livro. Queria distrair a mente. Mas o que encontrou foi Dante, de pé diante da lareira apagada, com um copo de uísque na mão e o rosto inclinado para baixo. Ela hesitou. — Não sabia que bebia quando está sóbrio. — Hoje é um daqueles dias — ele respondeu, sem encará-la. Ela cruzou os braços. — Dias em que pensa em tudo o que arruinou? — Dias em que penso no que ainda não destruí. E você está no topo da lista. Ela sorriu de lado. — Que honra. Dante levantou os olhos. E por um segundo — apenas um — ela viu ali um cansaço. Um traço de algo humano. Algo real. — Sabe qual o problema de você, Isadora? — Que sou livre mesmo quando estou presa? — Que você me deixa fora de controle. O coração dela deu um salto. Mas não pela frase. E sim porque ela sentia exatamente o mesmo. E odiava. — Ótimo — respondeu em voz baixa. — Eu quero que perca o controle. Porque, quando isso acontecer, vai descobrir que quem comanda essa guerra sou eu. Dante se aproximou, lento. Os olhos fixos nos dela. — Está jogando alto. — Estou jogando pra ganhar. A mão dele alcançou a cintura dela. Segurou com força. Ela não recuou. Não dessa vez. — Me odeia, não é? — ele murmurou. — Com tudo o que tenho. E então ele a soltou. — Ainda bem. Ela não entendeu. — Por quê? Ele bebeu o último gole do uísque e virou de costas. — Porque, quando você me amar, Isadora… Vai doer muito mais. --- E ela ficou ali. Parada. O coração martelando nas costelas. Sem saber o que odiava mais naquele momento: ele… Ou o fato de estar começando a entender.
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