Christian aproximou-se do irmão. Eu mantive a cabeça baixa, sem a menor intenção de erguê-la, mas ele não permitiria isso.
"Olhe para mim."
Como eu me lembrava, sua voz era firme e dominante. Mesmo que quisesse, não conseguiria desobedecê-lo; ele dava ordens como se o mundo todo lhe devesse obediência. Levantei o rosto e fiquei surpresa ao ver que sua expressão habitual havia suavizado. Como eu devia estar m*l para que até ele perdesse a frieza?
"E ela vem de Uber também. É tarde da noite, e nem todo mundo é legal como eu, Esquilo. Você precisa mesmo se cuidar, certo, Christian?" Enzo me repreendeu, olhando para o irmão em busca de apoio. Eu não sabia que podia me sentir mais envergonhada, mas lá estava eu.
Fiz contato visual com Christian, que ignorou o irmão, mas continuou a me observar até que eu desviei o olhar, incapaz de sustentá-lo.
"Vá se trocar. Eu te levo para casa", Christian ordenou, como se fosse a coisa mais natural do mundo. Era a última coisa que eu queria, e ele era a última pessoa com quem desejava estar. Vê-lo só me lembrava do fato de que provavelmente estava grávida – e sem esperança.
"Tá tudo bem, posso ir sozinha", tentei.
Os olhos de Christian me fitaram com uma reprovação evidente. "Enzo está certo. É perigoso, está tarde, você está doente e tem uma aparência horrível."
'Aparência horrível'. Por algum motivo, quando saiu da boca dele, aquelas palavras doeram.
"Não quero ser um incômodo, e eu realmente sei o caminho de volta, então..."
"Eu vou te levar. É uma ordem", Christian cortou, a paciência claramente se esgotando. Ele era a última pessoa com quem eu queria discutir. Então, apenas acenei com a cabeça, em silêncio.
"Vá se trocar. Estarei nos fundos." Ele se virou e foi embora antes que eu pudesse dizer mais nada. Enzo, talvez achando que havia feito uma grande gentileza, deu de ombros com um olhar satisfeito. "Pronto, problema resolvido. Agora eu posso ir." Ele piscou e saiu, me deixando sozinha no corredor.
Para não fazê-lo esperar muito, troquei-me rapidamente, peguei minha bolsa e dirigi-me à saída dos fundos. Ele estava encostado na parede, fumando um cigarro, com o telefone no ouvido. Em vez de interrompê-lo, fiquei a uma distância, esperando. A curiosidade, no entanto, aguçou meus ouvidos para a conversa intensa.
"Ou você me encontra, ou eu juro que vou atrás de você. E você vai pagar, de um jeito ou de outro. Ou te mato com as minhas próprias mãos!" Ele gritou no telefone.
Um frio súbito percorreu minha espinha. Lembre-se de que família ele pertence, pensei, a ideia de fugir o mais longe possível parecendo cada vez mais sensata.
"Quer saber por quê? Porque você não pode roubar comida da minha geladeira!" Ele riu em seguida.
E eu me senti instantaneamente i****a. Era apenas uma conversa normal, provavelmente com um irmão ou amigo, e eu ali, imaginando ameaças de morte reais. Não pude evitar um leve sorriso ao perceber que ele era capaz de interagir – que havia outra faceta além da frieza constante.
"Certo, Vince. Vejo você amanhã." Foram suas últimas palavras antes de desligar. Ele esmagou o cigarro no chão. "Você vem?" perguntou casualmente, virando-se. Meu estômago se contorceu: ele sabia que eu tinha ouvido.
Acenei e segui-o até seu carro luxuoso – um veículo que provavelmente valia mais do que eu ganharia em uma vida. Ele abriu a porta do passageiro, mas, antes que eu pudesse entrar, sua mão firmou-se em meu ombro descoberto, virando-me de frente para ele e me pressionando suavemente contra a lateral do carro. Mesmo que tentasse me mover, não conseguiria; suas pernas bloqueavam minha saída.
"Por que vocês, meninas, sempre se vestem como se fosse verão no meio da noite?" Ele soltou uma risada baixa e, em um movimento fluido, tirou sua jaqueta de couro. Envolveu-me com ela, o calor residual de seu corpo envolvendo o meu. Então, apontou com a cabeça para dentro do carro. "Entra."
"O-obrigada", balbuciei, ainda atordoada pelo gesto, e enfiei-me no banco de couro.
Uma pergunta martelava em minha mente: como fui parar no carro justamente da pessoa que mais tentava evitar?
"Seu endereço", Christian disse, indicando a tela do sistema de navegação. Obedeci novamente, digitando-o com dedos trêmulos enquanto ele arrancava do estacionamento. O silêncio dentro do carro era tão denso que ele acabou ligando o rádio para preenchê-lo.
Por um momento, considerei contar-lhe sobre a possibilidade. Mas, ao ver seu perfil fechado, a maneira como evitava até mesmo um diálogo mínimo, e considerando que eu mesma não tinha certeza, a ideia morreu antes de nascer.
Mesmo três meses atrás, ele não fora conversador. Aquela noite foi a primeira vez que o vi por mais de alguns minutos, e eu não conseguia deixar de observá-lo. Havia algo misterioso e profundamente sedutor nele, uma atitude dominante que, contra minha vontade, me atraía. Depois que me pegou olhando, não perdeu tempo: puxou-me pelo braço e levou-me direto para seu escritório. Lembro-me de pensar que estava encrencada por tê-lo encarado tanto. Como estava enganada.
Eu sabia que era como qualquer outra garota dali – nada especial. Mas o fato de nenhuma das outras ter estado com ele, até onde eu sabia, alimentou meu ego na época. Foi um choque quando ele passou a me ignorar completamente, embora eu mesma não soubesse explicar o que esperava. Ele poderia ter qualquer uma; por que se importaria com uma dançarina?
"Quero que você cuide de si mesma." Sua voz quebrou o ruído baixo do rádio, que ele havia diminuído. "Sou responsável por você. Se algo acontecer, meu pai vai me derrubar junto com você."
Que maneira peculiar de dizer que se importa, pensei.
"Eu estou bem", tentei tranquilizá-lo, olhando para minhas próprias pernas, que tremiam visivelmente. Respirei fundo, tentando parecer a imagem da saúde, mas até um cego veria através da minha atuação naquele ponto.
"Não gosto que mintam para mim."
As palavras me atingiram como um choque. "Desculpe", saquei automaticamente, sem nem pensar.
Mesmo se estivesse grávida, eu nunca seria capaz de ser mãe de forma tranquila. Não era minha posição julgar, mas alguém como ele parecia ter o direito de decidir se eu era apta ou não. Esses pensamentos só pioravam tudo, aumentando a ansiedade. Eu sabia que não teria paz até fazer um teste.
"Você é a preferida do meu pai. Ele não me perdoaria se algo acontecesse com você", ele tentou explicar novamente, mas só conseguiu me fazer sentir uma culpa ainda mais profunda. Lucio sempre foi bom comigo. E o que eu poderia dar em troca? Possivelmente um neto não planejado. Calma, Serena. Você não está grávida.
Quando entramos no meu bairro, a vergonha cresceu. Christian, sob circunstâncias normais, jamais colocaria os pés ali. E ainda assim, ali estava ele. Olhei de relance para seu rosto, tentando decifrar alguma emoção, mas encontrei apenas a mesma máscara impenetrável.
"Você trabalha duro. Mas se não se sentir melhor amanhã, fique em casa e vá a um médico." Soou menos como uma preocupação e mais como um aviso para que eu saísse do carro o mais rápido possível, para que ele pudesse deixar aquele lugar.
"Obrigada. E eu… eu estou me sentindo bem", menti mais uma vez, saí do carro e caminhei em direção ao meu prédio. Em vez de ir embora imediatamente, ele esperou. Só ouvi o motor rugir suavemente quando minha porta do apartamento se fechou.
Dentro das quatro paredes, finalmente permiti que as lágrimas, reprimidas durante toda a viagem, caíssem livremente.
Amanhã, prometi a mim mesma, o rosto molhado e as mãos tremendo. Amanhã eu faço o teste e descubro de uma vez por todas.