"O senhor chegou cedo hoje", comentou Emmanuella quando Christian entrou na mansão. Ele olhou para a mulher com um misto de afeto e desconforto. Sabia que ser governanta era seu ofício – ela estava com a família desde antes de ele nascer –, mas não conseguia imaginar-se no lugar dela, limpando a casa de outros.
"Sim. Tinha coisas para resolver", respondeu Christian, um quase-sorriso tocando seus lábios ao pensar em Serena. A garota que ele achava intrigante. Como seu pai lhe pedira para cuidar dela, ele obedecia. Lembrou-se da reprimenda de Lucio no dia em que o pegou com ela saindo do escritório.
Lucio ficara furioso. Disse a Christian que esperava que ele a protegesse à distância, não que se envolvesse. A verdade era que Christian não sabia ao certo por que o fizera. Mas não podia negar que algo nela o atraía. Era uma combinação de sua personalidade ambígua e o fato de ela não ser tão inocente quanto parecia – isso a tornava diferente das outras.
"Fiz seu favorito: espaguete à carbonara!" Anunciou Emmanuella, puxando-o pelo braço em direção à cozinha. Christian permitiu-se um sorriso genuíno. Saber que alguém realmente se importava com ele era um alívio raro.
Aos sessenta anos, Emmanuella nunca tivera filhos, mas cuidar dos Lamberti era sua vida. Ela os vira crescer. Desde que Christian se mudara da mansão familiar, anos atrás, ela fizera de sua missão cuidar dele sempre que possível. Sabia que, como herdeiro – ainda que o caçula –, ele carregava fardos pesados. Ele erguera um muro em torno de si, projetando frieza, mas Emmanuella conhecia o que havia por trás.
"Vai me fazer companhia, não vai?" Christian perguntou enquanto ela o empurrava gentilmente para a cadeira da sala de jantar. Viver sozinho naquelas salas enormes era, às vezes, profundamente solitário. Nem a companhia ocasional de mulheres, nem a de "amigos" que o bajulavam por interesse preenchiam aquele vazio. Emmanuella, mesmo sendo a governanta, sabia manter a distância certa – e geralmente jantava antes de ele chegar.
"Claro que vou fazer companhia!" Ela respondeu, cantarolando baixinho enquanto arrumava a mesa. Era difícil para Christian mostrar-se verdadeiramente feliz, mas Emmanuella sempre conseguia. "Ótimo."
"Imagino que Johnny, Marc e o resto do seu pessoal estejam trabalhando… Mas e seu amigo, não vem hoje?", ela perguntou, trazendo os pratos. "O Vincenzo?"
"Sim, o Vincenzo." Emmanuella, que o conhecia como a palma da própria mão, confirmou, pegando uma garrafa de Pinot Grigio e duas taças. Christian pensou no melhor amigo, que sempre arranjava desculpas para não aparecer, mas encontrava tempo para incontáveis encontros. Mesmo crescidos juntos, agora só se viam para tratar de negócios. "Acho que o pai dele não gosta muito de mim. De nenhum de nós, pra ser sincero."
Fábio Garcia era um homem ciumento, que via os Lamberti como uma família poderosa demais para se aproximar. Negócios eram negócios, e ele mantinha a distância. Já Vincenzo, o filho mais velho, era como um irmão para Christian. Até hoje, nenhum Lamberti entendia como Vincenzo e seu irmão mais novo haviam saído tão diferentes do próprio pai.
"Hmm… E a Isobel?", Emmanuella continuou. Isobel, da família Sala, também crescera com Christian. Os dois eram melhores amigos, embora ela sempre nutrira algo a mais por ele.
Para Christian, ela não era como uma irmã, nem uma amante. Era sua melhor amiga, com quem às vezes compartilhava a cama. Isobel sabia que era usada, mas não se importava. Mesmo sem exclusividade, ela estava com o homem que sempre quisera.
Christian mergulhou no macarrão enquanto Emmanuella o observava com um sorriso orgulhoso. Vê-lo apreciar sua comida era sua maior recompensa. "Está bom?", perguntou, inclinando-se para limpar um cantinho de seu lábio com o guardanapo. Christian fez uma careta envergonhada e acenou como uma criança, antes de voltar a comer. Jantaram trocando histórias até os pratos estarem vazios.
"Muito obrigado pela companhia, Emmanuella. De verdade", agradeceu Christian, com uma sinceridade que raramente mostrava.
"Sempre. Mas…", ela hesitou, pegando os pratos para lavar, "você não acha que está na hora de se firmar? Encontrar alguém que esteja ao seu lado não só por uma noite. Uma alma gêmea."
Christian bebeu um gole de vinho. Depois de praticamente tê-lo criado por vinte e três anos – mais do que sua própria mãe –, ela sabia que só podia esperar e torcer.
"Não acredito em almas gêmeas", ele disse, a voz baixa. Seus pais estavam casados há décadas. Sabia que seu pai tomaria uma bala por sua mãe, mas não tinha tanta certeza do contrário. A única razão pela qual Francesca Lamberti tolerava a "profissão" de Lucio era o luxo e o status que ele proporcionava. Se não o tivesse conhecido, teria encontrado outro homem poderoso. O status era o que ela mais amava.
"E filhos? Você não quer ter nenhum?", Emmanuella insistiu, ouvindo apenas um resmungo como resposta. "Não estou pronto para ser pai. E me recuso a forçar uma criança a viver esta vida."
Ela decidiu deixar o assunto para lá. Sentiu uma pontada de pena. Vira muitos Lamberti crescerem com pais ausentes. Para Christian, isso era a única linha que ele se recusava a cruzar. Sempre dissera ao pai que assumiria os negócios, pois tinha vocação para liderar, mas nunca lhe daria um herdeiro.
Lucio ria quando o filho falava isso, dizendo que fora igual na juventude. Mas Christian não se via mudando de ideia tão cedo.
"Acho que vou para a cama. Cheguei cedo, vou aproveitar para descansar", disse Christian, bocejando.
Emmanuella ficou contente só de saber que ele dormiria bem. "Vá descansar. Eu cuido de tudo aqui."
Christian levantou-se e, antes de subir as escadas, parou. "Obrigado, Emmanuella. Fora a família, você é a única mulher de quem realmente preciso na minha vida."
As palavras soaram como uma confissão e um adeus. Ele subiu, deixando-a na cozinha com os pratos e um coração cheio de preocupação e amor silencioso.