Na manhã seguinte, o apartamento ainda estava silencioso quando a campainha tocou.
Helena respirou fundo antes de ir até a porta. Quando abriu, deu de cara com o irmão. Damon não disse nada no primeiro segundo — só a puxou pra um abraço forte, daqueles que seguram quando tudo parece prestes a desabar.
— Calma… eu tô aqui — ele murmurou no ouvido dela.
Helena fechou os olhos por um instante, sentindo o nó na garganta apertar.
Quando Damon entrou, a cena era a mesma de sempre.
Luís estava jogado no sofá, controle na mão, videogame ligado, completamente alheio ao caos que ajudou a criar.
Damon parou no meio da sala, encarando.
— Jogando videogame essa hora, Luís? — a voz saiu seca. — Trabalhar que é bom, nada, né?
Luís nem se levantou.
— Bom dia, cunhado — respondeu, forçando um sorriso. — Tô jogando só um pouquinho. Já já eu saio pra procurar emprego.
— Que bom — Damon respondeu, irônico.
Ele olhou ao redor, depois estendeu a mão.
— Vem cá… essa chave aqui é a sua?
Luís levantou o olhar, desconfiado.
— É.
— Ótimo.
Damon pegou a chave e fechou a mão em volta dela.
Luís se levantou de um pulo.
— Ei, espera aí! — falou alto. — Não vai embora não, eu ainda vou jogar videogame! O que você tá fazendo com a chave do meu carro?
Damon virou devagar.
— Vou levar o carro embora. Vou vender pra minha irmã.
— O quê?! — Luís quase gritou. — Você tá maluco?
Ele olhou pra Helena, indignado.
— Helena! Eu disse que você não podia fazer isso!
Ela respirou fundo, mas não recuou.
— Eu disse ontem que ia vender o teu carro, Luís. E eu vou.
Luís passou a mão no cabelo, nervoso.
— Você tá de s*******m, né? — ele falou, agora pra Damon. — Quer dizer que eu fico sem carro e ela fica com tudo?
Damon deu um passo à frente, o olhar duro.
— s*******m é você estar vivendo às custas dela. — a voz saiu firme. — Sugando cada centavo. Querendo que ela venda o carro dela pra continuar te bancando.
Luís tentou responder, mas Damon não deixou.
— Ela precisa do carro pra trabalhar. — apontou pra Helena. — Pra pagar conta. Pra sustentar a própria vida. E você? Fica no sofá jogando videogame e chamando isso de fase difícil.
O silêncio caiu pesado na sala.
Helena sentiu algo mudar dentro dela. Pela primeira vez, alguém dizia em voz alta tudo o que ela tentou negar por tanto tempo.
Damon colocou a chave no bolso.
— O carro vai embora hoje. — afirmou. — E se você tiver um pingo de vergonha na cara, começa a procurar emprego de verdade.
Luís ficou parado, sem reação.
Helena, com o coração acelerado, percebeu naquele instante:
não era só o carro que estava indo embora.
Era o controle que ele tinha sobre a vida dela.
Damon saiu primeiro, firme, sem olhar pra trás. Helena veio logo em seguida. Pegou a própria chave do carro, respirou fundo mais uma vez e acompanhou o irmão. A porta se fechou atrás deles com um som seco.
Luís ficou.
Sozinho no sofá.
O videogame ainda ligado.
O controle largado de qualquer jeito.
Pela primeira vez, a casa pareceu grande demais até pra ele.
Minutos depois, a porta se abriu de novo.
— Luís? — a voz veio apressada.
Bruna entrou, jogando a bolsa no sofá.
— Cadê o dinheiro?
Ele levantou devagar, o rosto tenso.
— Bruna… acabaram de tirar meu carro.
Ela arregalou os olhos.
— O quê? Como assim tiraram teu carro?
— A Helena… — ele passou a mão no rosto. — Ela precisa pagar as contas dela. Veio aqui com o irmão e levou o carro pra vender.
Bruna riu, nervosa.
— Não é possível, Luís! — a voz subiu. — E agora? Como você vai me levar pra sair? Me levar pra passear? Sem carro?
Ele começou a andar de um lado pro outro.
— Eu não sei… eu tô perdendo o controle, Bruna. Eu tenho que dar um jeito.
Ela cruzou os braços, impaciente.
— E o dinheiro? Cadê os dois mil?
Ele parou ela não quer me dar. Disse que não tem como. Tá cheia de conta pra pagar.
Bruna deu um passo à frente, irritada.
— Mas eu preciso do dinheiro, Luís!
— Dá seu jeito! — ele respondeu, quase gritando.
— Eu não consigo sozinha — ela rebateu. — p***a!
Os dois ficaram se encarando, a tensão pesada no ar.
Ali, sem carro.
Sem dinheiro.
Sem Helena.
Luís percebeu tarde demais que tudo o que ele tinha vinha dela.
E quando a fonte secou…
não sobrou nada.
Nem amor.
Nem conforto.
Nem controle.
Só o vazio de quem viveu explorando…
e agora não sabia como sobreviver sem alguém pra sustentar a própria mentira.