circo se fechando

819 Words
Na manhã seguinte, o apartamento ainda estava silencioso quando a campainha tocou. Helena respirou fundo antes de ir até a porta. Quando abriu, deu de cara com o irmão. Damon não disse nada no primeiro segundo — só a puxou pra um abraço forte, daqueles que seguram quando tudo parece prestes a desabar. — Calma… eu tô aqui — ele murmurou no ouvido dela. Helena fechou os olhos por um instante, sentindo o nó na garganta apertar. Quando Damon entrou, a cena era a mesma de sempre. Luís estava jogado no sofá, controle na mão, videogame ligado, completamente alheio ao caos que ajudou a criar. Damon parou no meio da sala, encarando. — Jogando videogame essa hora, Luís? — a voz saiu seca. — Trabalhar que é bom, nada, né? Luís nem se levantou. — Bom dia, cunhado — respondeu, forçando um sorriso. — Tô jogando só um pouquinho. Já já eu saio pra procurar emprego. — Que bom — Damon respondeu, irônico. Ele olhou ao redor, depois estendeu a mão. — Vem cá… essa chave aqui é a sua? Luís levantou o olhar, desconfiado. — É. — Ótimo. Damon pegou a chave e fechou a mão em volta dela. Luís se levantou de um pulo. — Ei, espera aí! — falou alto. — Não vai embora não, eu ainda vou jogar videogame! O que você tá fazendo com a chave do meu carro? Damon virou devagar. — Vou levar o carro embora. Vou vender pra minha irmã. — O quê?! — Luís quase gritou. — Você tá maluco? Ele olhou pra Helena, indignado. — Helena! Eu disse que você não podia fazer isso! Ela respirou fundo, mas não recuou. — Eu disse ontem que ia vender o teu carro, Luís. E eu vou. Luís passou a mão no cabelo, nervoso. — Você tá de s*******m, né? — ele falou, agora pra Damon. — Quer dizer que eu fico sem carro e ela fica com tudo? Damon deu um passo à frente, o olhar duro. — s*******m é você estar vivendo às custas dela. — a voz saiu firme. — Sugando cada centavo. Querendo que ela venda o carro dela pra continuar te bancando. Luís tentou responder, mas Damon não deixou. — Ela precisa do carro pra trabalhar. — apontou pra Helena. — Pra pagar conta. Pra sustentar a própria vida. E você? Fica no sofá jogando videogame e chamando isso de fase difícil. O silêncio caiu pesado na sala. Helena sentiu algo mudar dentro dela. Pela primeira vez, alguém dizia em voz alta tudo o que ela tentou negar por tanto tempo. Damon colocou a chave no bolso. — O carro vai embora hoje. — afirmou. — E se você tiver um pingo de vergonha na cara, começa a procurar emprego de verdade. Luís ficou parado, sem reação. Helena, com o coração acelerado, percebeu naquele instante: não era só o carro que estava indo embora. Era o controle que ele tinha sobre a vida dela. Damon saiu primeiro, firme, sem olhar pra trás. Helena veio logo em seguida. Pegou a própria chave do carro, respirou fundo mais uma vez e acompanhou o irmão. A porta se fechou atrás deles com um som seco. Luís ficou. Sozinho no sofá. O videogame ainda ligado. O controle largado de qualquer jeito. Pela primeira vez, a casa pareceu grande demais até pra ele. Minutos depois, a porta se abriu de novo. — Luís? — a voz veio apressada. Bruna entrou, jogando a bolsa no sofá. — Cadê o dinheiro? Ele levantou devagar, o rosto tenso. — Bruna… acabaram de tirar meu carro. Ela arregalou os olhos. — O quê? Como assim tiraram teu carro? — A Helena… — ele passou a mão no rosto. — Ela precisa pagar as contas dela. Veio aqui com o irmão e levou o carro pra vender. Bruna riu, nervosa. — Não é possível, Luís! — a voz subiu. — E agora? Como você vai me levar pra sair? Me levar pra passear? Sem carro? Ele começou a andar de um lado pro outro. — Eu não sei… eu tô perdendo o controle, Bruna. Eu tenho que dar um jeito. Ela cruzou os braços, impaciente. — E o dinheiro? Cadê os dois mil? Ele parou ela não quer me dar. Disse que não tem como. Tá cheia de conta pra pagar. Bruna deu um passo à frente, irritada. — Mas eu preciso do dinheiro, Luís! — Dá seu jeito! — ele respondeu, quase gritando. — Eu não consigo sozinha — ela rebateu. — p***a! Os dois ficaram se encarando, a tensão pesada no ar. Ali, sem carro. Sem dinheiro. Sem Helena. Luís percebeu tarde demais que tudo o que ele tinha vinha dela. E quando a fonte secou… não sobrou nada. Nem amor. Nem conforto. Nem controle. Só o vazio de quem viveu explorando… e agora não sabia como sobreviver sem alguém pra sustentar a própria mentira.
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