Presentes promessas e ausência

1234 Words
Luís nunca chegava de mãos vazias. Sempre havia alguma coisa: um chocolate barato, uma flor comprada na esquina, um chaveiro, um “lembrei de você”. Pequenos gestos que ele usava como cortina de fumaça. Helena sorria, agradecia, guardava… achando que aquilo significava cuidado. — Viu? Pensei em você o dia todo — ele dizia. Mas pensar nunca significou agir. As promessas vinham junto com os presentes. — Quando eu arrumar um emprego melhor, tudo muda. — Quando a gente casar, eu vou cuidar de você. — Confia em mim, Helena, eu só tô numa fase r**m. Ela confiava. Enquanto isso, a ausência crescia em silêncio. Luís estava ali fisicamente, mas nunca inteiro. Sempre no celular. Sempre cansado demais para conversar, para ouvir, para perceber o quanto Helena chegava exausta do consultório. Ela pagava as contas. Organizava a casa. Planejava o futuro sozinha. E ele prometia. Quando Helena precisava, ele sumia. Quando o dinheiro acabava, ele aparecia. Era sempre assim. Um dia, ela chegou mais cedo em casa, esperando encontrar acolhimento. Encontrou Luís jogado no sofá, rindo de algo no celular. — Amor… — ela chamou, a voz pedindo atenção. — Hã? — ele respondeu, sem tirar os olhos da tela. Ela engoliu a frustração. Os presentes continuavam chegando. As promessas também. Mas a presença… essa nunca vinha. Helena começou a perceber que não era amada. Era conveniente. Não era companheira. Era solução. E amar alguém que só aparece quando precisa é aprender, aos poucos, a se sentir sozinha mesmo estando acompanhada. Naquela noite, deitada ao lado dele, Helena encarou o teto e sentiu algo quebrar dentro de si. Porque ausência não é só ir embora. Às vezes, é ficar… sem nunca realmente estar. Os dias passaram, um empilhado em cima do outro, todos pesados demais. Helena chegou em casa cansada, largou a bolsa na cadeira e ficou alguns segundos parada, respirando fundo, como se estivesse juntando coragem. — Luís… — chamou, olhando pra ele estirado no sofá, controle do videogame na mão. — Eu preciso de ajuda. Ele nem pausou o jogo. — Ajuda com o quê, amor? Ela se aproximou, a voz já carregada. — As contas. O aluguel vence daqui dois dias. Você sabe o quanto esse apartamento é caro. Tem a parcela do carro… do seu carro. O mercado do mês. Eu não dou conta sozinha. Ele finalmente olhou pra ela, impaciente. — Amor, eu não tenho como te ajudar. Aquilo doeu mais do que ela esperava. — Claro que não tem — ela respondeu, sem conseguir segurar. — Você só fica deitado nesse sofá, jogando videogame. Ele sentou de vez, irritado. — Ei, não fala assim comigo, tá? Helena riu sem humor. — E como você quer que eu fale, Luís? — a voz dela tremia. — Você só abre a boca pra me pedir dinheiro. Ele cruzou os braços, ofendido. — Já que você tocou no assunto… meu celular tá dando defeito. Eu queria um celular novo. Ela fechou os olhos por um segundo. Quando abriu, algo tinha mudado. — Tá vendo só? — disse, cansada. — Eu não sou seus pais, Luís. Eu sou sua namorada. Ele tentou interromper, mas ela continuou. — Você não me respeita como tal. Você não me ajuda em nada. — a respiração ficou curta. — Eu tô sufocada. Tem um monte de coisa pra pagar. Eu trabalho o dia inteiro, eu me mato naquele consultório… e eu não consigo mais. A voz falhou. — Eu não consigo, Luís… eu não consigo. Ele se levantou, tentando parecer calmo, como quem fala com alguém exagerado demais. — Ei, ei… calma. Respira. Aquilo foi o estopim. Respirar não pagava contas. Respirar não dividia responsabilidades. Respirar não resolvia a ausência dele. Helena percebeu, ali, que estava cansada de ser forte sozinha. Cansada de pedir o mínimo. Cansada de ser tratada como banco, não como mulher. E pela primeira vez em dois anos, ela não sentiu vontade de chorar. Sentiu algo mais perigoso. Lucidez. Helena respirou fundo, o peito subindo e descendo rápido, como se estivesse segurando algo há tempo demais. — Olha só, Luís… — a voz dela saiu firme, diferente. — Eu vou vender o seu carro. Ele levantou do sofá num pulo. — O quê?! Você não pode fazer isso! Helena, eu preciso do meu carro! Ela cruzou os braços, encarando ele pela primeira vez sem medo. — Precisa do carro pra quê? — perguntou, seca. — Pra passear? Pra ficar rodando sem rumo enquanto eu trabalho? — Pra procurar emprego! — ele rebateu, sem convicção. Ela riu. Um riso curto, sem humor. — Procurar emprego sentado no sofá? — deu um passo à frente. — Eu vou vender o seu carro. — Vende o seu! — ele gritou. Ela inclinou a cabeça, incrédula. — Você tá de s*******m, né, Luís? — a voz dela subiu. — Quem te deu essa p***a desse carro fui eu! Ele fechou a cara. — Agora vai jogar isso na minha cara? — Tô precisando jogar na cara mesmo — ela respondeu, com os olhos marejados, mas sem recuar. — Eu tenho um monte de conta pra pagar. E a partir de hoje, escuta bem… não me pede mais um centavo. Um centavo! Sem esperar resposta, Helena virou as costas e foi direto pro quarto. Fechou a porta, sentou na cama e pegou o celular com as mãos tremendo. Discou. — Irmão… eu preciso de você. A resposta veio na hora. — O que aconteceu, irmã? As palavras saíram atropeladas, como se estivessem presas há meses. — Eu vou vender o carro que eu dei pro Luís. Eu tô muito atrelada na vida dele. Muita coisa pra pagar… aluguel, mercado, contas. Ele não trabalha, só fica jogado no sofá jogando videogame. Só abre a boca pra me pedir dinheiro. O tempo todo. Eu tô sufocada… eu não sei mais o que fazer. Do outro lado, o tom mudou. — Você tem que largar esse mané! — ele disparou. — Helena, você é maravilhosa. Linda, brilhante. Você se sustenta sozinha. Mas tá com esse encostado sugando tudo de você. Ela fungou. — Você sempre falou que ele me trai… eu nunca acreditei. — Porque você não quer ver! — ele explodiu. — Ele não te ama, p***a! Isso é mentira! — Ele diz que me ama… — ela tentou, fraca. — Mentira! — o irmão foi direto. — Acorda pra vida, Helena. Esse cara tá usurpando teu dinheiro. E se bobear, tá usando pra bancar outras mulheres, amantes. Tá? As lágrimas desceram de vez. — Irmão… por favor… me ajuda. — Eu vou te mandar um dinheiro agora — ele respondeu, sem hesitar. — Mas é pra pagar suas contas. Não é pra dar pra ele. — Eu não vou dar — ela disse, com convicção. — Eu prometo. — E o carro? — Eu vou vender. Ele tá revoltado, mas eu vou vender. — Então pronto. Amanhã eu vou aí buscar esse carro. Sete horas da manhã eu tô aí. Você sai que horas? — Oito. — Perfeito. Sete horas eu chego, pego o carro e levo. Helena fechou os olhos, sentindo um alívio misturado com medo. — Obrigada, irmão… Quando desligou, ficou sentada em silêncio. Do lado de fora do quarto, Luís andava de um lado pro outro, revoltado. Mas pela primeira vez, Helena não sentiu culpa. Sentiu que estava, enfim, escolhendo a si mesma.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD