A dentista que banca o namorado

877 Words
Helena tinha 22 anos, recém-formada em Odontologia, um consultório simples, mas conquistado com esforço, noites sem dormir e uma vontade absurda de vencer. Jovem, bonita, inteligente… e completamente cega quando o assunto era amor. Ela namorava Luís. Luís tinha sonhos grandes, discursos bonitos e zero pressa de crescer. No começo, Helena achava normal ajudar. Depois, virou rotina. E quando percebeu… já sustentava tudo. O aluguel? Ela. A comida? Ela. O celular novo? Ela. As contas atrasadas? Sempre ela. — Amor, é só essa fase — ele dizia, deitado no sofá, celular na mão. — Quando as coisas melhorarem, eu compenso tudo. Helena sorria. Acreditava. Porque amar, pra ela, era segurar a barra junto. O que ela não via — ou fingia não ver — era o quanto Luís se acomodava. O quanto ele não procurava emprego de verdade. O quanto sempre tinha dinheiro pra sair com os amigos, mas nunca pra pagar uma conta. Ela chegava cansada do consultório, mãos doendo, cabeça cheia… e ainda fazia jantar. Organizava a casa. Pagava tudo em silêncio. — Você é incrível, sabia? — ele dizia, beijando a testa dela. — Eu não seria nada sem você. E ela acreditava que aquilo era amor. Mas não era parceria. Não era apoio. Era dependência disfarçada de carinho. Helena estava dando tudo… pra alguém que só sabia receber. Sem perceber que, enquanto ela construía um futuro, Luís apenas se acomodava nele. E o pior? Ela ainda achava que estava ajudando alguém a crescer… quando, na verdade, estava ensinando alguém a nunca se levantar. Helena e Luís já estavam juntos havia dois anos. Dois anos de rotina, de promessas vagas, de paciência só de um lado. Helena nunca escondeu quem era nem o que queria. Para ela, se entregar era algo sério. Íntimo demais. Algo que só faria depois do casamento. — Amor, a gente já tá junto há tanto tempo… — Luís insistia, sempre com o mesmo tom manso. — Não acha que tá na hora da gente dar o próximo passo? Você não quer que eu seja o primeiro homem da sua vida? Ela respirava fundo antes de responder, sempre com cuidado. — Eu quero, Luís. Mas depois do casamento. Você sabe disso. Ele revirava os olhos, disfarçando o incômodo. — Helena, isso não muda nada. A gente praticamente mora junto. Dorme junto. Eu vejo você de pijama, descabelada… não muda nada a gente finalmente t*****r. Ela pausava o filme, olhava pra ele com firmeza. — Pra você talvez não mude. Pra mim muda. E você sabe. Por alguns segundos, ele ficou em silêncio. Depois forçou um sorriso. — Tá bom, tá bom… então deixa pra lá. Ela voltou a prestar atenção no filme, achando que aquilo era respeito. O que Helena não sabia… é que enquanto ela protegia seus valores, Luís traía a confiança dela sem o menor peso na consciência. No dia seguinte, Helena saiu cedo para o consultório, agenda cheia, pacientes marcados, a cabeça focada no trabalho. Minutos depois, o celular de Luís vibrou. — Luís… — a voz do outro lado era doce, impaciente. — Cadê aquele celular novo que você me prometeu? Eu preciso, amor. — Calma, princesa — ele respondeu sem hesitar. — Tô me ajeitando aqui. Vou comprar pra você, tá bom? Espera só mais uns dias. — Tá… mas a prestação da minha faculdade venceu. — Relaxa. — Ele sorriu. — Mais tarde eu faço a transferência. — É mil reais, tá? — ela continuou. — E o aluguel também venceu. Quinhentos. E eu precisava comprar umas coisas… manda dois mil pra mim. — Tá bom, princesa. Dois mil. Vou mandar, tá? Ligação encerrada. Sem culpa. Sem hesitação. Dinheiro que não era dele. Enquanto isso, Helena passava o dia inteiro atendendo pacientes, resolvendo problemas, trabalhando de verdade. À tarde, Luís apareceu no consultório de surpresa. — Ué… visita surpresa? — ela disse, surpresa e sorrindo. — Só senti saudade da minha princesa. Ela sorriu, genuína. — Ah… que fofo, amor. — Que tal a gente almoçar fora hoje? E jantar também? — Acho ótimo. — Ela pensou um pouco. — Você tá com dinheiro aí? Ele riu de leve. — Não… com o seu cartão, né? O sorriso dela diminuiu. — Luís, eu tenho que pagar umas coisas hoje. Não vai dar. A gente janta em casa mesmo. — Tá bom… — ele respondeu, rápido demais. — Mas deixa eu te perguntar uma coisa… você consegue me enviar dois mil? Ela franziu a testa. — Dois mil? Pra quê tudo isso? — Ah… resolver umas coisas, amor. Você sabe que eu te pago depois, né? Helena respirou fundo. — Hoje eu não consigo, Luís. O semblante dele mudou. — Mas eu preciso hoje… — Hoje não dá. — ela respondeu, firme. — Talvez até o fim de semana, se eu conseguir. Ele fechou a cara. — Tá… tá bom então. Ela estranhou. — Ué, vai ficar chateado comigo agora? — Não é isso, Helena… — ele disse, seco. — É que eu precisava, né? E ali, sem perceber, Helena começou a sentir algo diferente. Não era culpa. Não era medo. Era aquele incômodo silencioso de quem começa a perceber que está dando demais pra alguém que nunca sabe a hora de parar de pedir.
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