O celular de Caroline tocou enquanto ela tomava banho.
Klaus estava na sala. O som ecoou pela casa como um aviso. Ele olhou para o aparelho sobre a mesa. Chamava de novo. E de novo. Atendeu por impulso — não disse uma palavra.
Do outro lado, a voz veio confiante, íntima demais para ser engano.
— Amor… que horas você vem? Eu já comprei tudo do jeitinho que você pediu. Tudo do jeitinho que você merece, minha princesa. Tô te esperando.
Klaus fechou os olhos.
Ali, alguma coisa se partiu de vez. Não fez barulho. Não gritou. Apenas quebrou. As lágrimas desceram sem que ele tentasse conter. Ele desligou, com a mão trêmula, colocou o celular exatamente no mesmo lugar… e fingiu que não ouviu.
O chuveiro foi desligado. Caroline saiu do banheiro envolta na toalha, leve, distraída.
— Eu preciso fazer uma viagem — disse, como quem comenta o clima.
A palavra viagem atravessou o peito dele. A voz quis virar grito, pergunta, confronto. Não virou nada.
— Uma viagem com uma amiga minha — ela continuou. — Lembra da Gline?
— Lembro — Klaus respondeu, baixo.
— Então. Ela me chamou. Vou ficar duas semanas fora, tá?
Ele assentiu, como se aquilo fosse o melhor dos planos.
— Perfeito. Vai lá.
Caroline se aproximou, inclinou-se para beijá-lo.
— Você não vai se chatear, né?
Klaus virou o rosto.
— Não precisa me beijar, Caroline. Só vai.
Ela franziu a testa.
— Nossa… você tá seco.
Ele riu. Um riso curto, sem alegria.
— Meses — disse, enfim. — Meses querendo te beijar, te tocar. Meses ouvindo não. Agora você acha que vai deitar ali e eu vou simplesmente esquecer tudo porque você vai ficar duas semanas fora?
Ela ficou parada. Nunca o tinha ouvido falar assim.
— Talvez — ele completou, com calma cansada — seja porque eu nunca precisei falar assim.
O silêncio tomou a casa.
E, naquele instante, Caroline entendeu que não era uma viagem que começava.
Era a distância definitiva entre dois estranhos que ainda dividiam o mesmo teto.
A viagem começou antes mesmo de Caroline sair de casa.
No dia em que ela fechou a mala, Klaus já tinha tomado sua decisão. Não falou nada. Não discutiu. Apenas acionou quem sempre esteve ali — invisível, como ele aprendera a ser.
— Sigam ela — disse ao telefone. — Quero tudo. Horários, lugares, companhias. Fotos.
E teve tudo.
Restaurantes caros.
Sorrisos que ela nunca dava em casa.
Mãos dadas.
Braços envolvidos.
Jantares à luz baixa.
Hotéis.
Compras.
Risos largos demais para quem dizia estar “com uma amiga”.
As imagens chegavam no celular de Klaus como pequenos golpes sucessivos. Ele não chorou. Não gritou. Apenas organizou tudo em silêncio.
Os papéis do divórcio já estavam sobre a mesa antes mesmo da segunda semana terminar.
Ele não estava esperando explicações.
Estava esperando o retorno.
Duas semanas depois, a porta se abriu.
— Oi, meu amor! Eu voltei! — Caroline disse, animada, arrastando uma mala nova pelo chão.
Klaus levantou os olhos devagar.
— Que bom que você voltou.
Ela sorriu, aliviada.
— Eu tava morrendo de saudade…
— Tem um papel ali na mesa — ele interrompeu, apontando com a cabeça. — Assina, por favor.
Ela franziu a testa, confusa.
— Que papel?
— Só assina.
Caroline se aproximou, pegou os documentos… e empalideceu.
— Divórcio?! Klaus, você tá louco? Divórcio só porque eu fiquei duas semanas fora?
Foi ali que ele explodiu.
— DUAS SEMANAS FORA?!
Klaus jogou o envelope grosso sobre a mesa. As fotos se espalharam como facas.
— OLHA ISSO AQUI!
Ela levou a mão à boca.
— Você foi uma babaca comigo, Caroline. Eu trabalhava, me esforçava, fazia tudo por você. Eu era o empregado dessa casa. Lavava suas roupas, arrumava tudo, cuidava de você. Sempre tentei ser o melhor homem pra você.
A voz dele tremia de raiva contida.
— E você passa duas semanas fora com o seu amante porque tava difícil, né? Porque todo dia tinha que inventar desculpa pra sair, pra chegar tarde.
Ele apontou para a mala.
— Aí o seu amante fez o quê? Te levou pra viajar. Tudo o que você sempre quis, né? Viajar. Comprar roupa nova. Essa mala aí… bonita. Foi a Gleice que comprou pra você também?
Ela começou a chorar.
— Klaus… por favor… deixa eu explicar…
— EXPLICAR O c*****o! — ele gritou. — Você acha que eu sou o quê? Eu aguentei o quanto eu pude. O quanto deu.
Respirou fundo, os olhos vermelhos.
— Eu já sabia que você me traía há muito tempo. Muito tempo. A viagem só confirmou.
Ela congelou.
— Eu atendi o seu celular quando você tava tomando banho — ele continuou, frio. — Seu amante disse que tinha comprado tudo do jeitinho que você pediu. Do jeitinho que você merecia.
Riu sem humor.
— Claro, né? Me traiu por falta de dinheiro.
— Não é só isso… — ela chorava. — Eu tava carente…
— CARENTE?! — ele avançou um passo. — Carente por quê? Eu tava aqui. Dentro de casa. Do seu lado. Querendo teu corpo, teu toque, teu beijo. E você sempre me recusou.
A voz baixou, ferida.
— Quem tava carente era eu. Não você. Você sempre me recusou. Sempre. E sempre por causa de dinheiro.
— Klaus, por favor… não faz isso… você sabe que eu gosto de você…
— Você não gosta de mim — ele cortou. — Assina isso agora. Anda.
Ela tremia. Pegou a caneta com a mão instável e assinou.
— Me perdoa… — sussurrou.
Klaus recolheu os papéis, sem olhar para ela.
— Pode ficar com a casa.
Virou-se e saiu.
Caroline caiu sentada no sofá, o choro ecoando num espaço que, pela primeira vez, parecia grande demais.
O jogo tinha acabado.
E quem perdeu tudo…
não foi ele.