Sofia Vasconcelos

1611 Words
Eu nunca imaginei que pisaria naquela mansão como funcionária, e muito menos que estaria ali para vigiar o homem que pode destruir o que restou da minha família. Quando aceitei o trabalho temporário, não foi por necessidade financeira imediata. Eu poderia ter vendido a última joia da minha mãe, poderia ter pedido ajuda a algum conhecido antigo do meu pai, mas orgulho também é herança, e o sobrenome Vasconcelos já foi grande demais para depender de favores. Hoje ele sobrevive de aparência, e eu sobrevivo de estratégia. A imobiliária de luxo que administra a propriedade precisava de alguém discreto, eficiente e “sem vínculos com a imprensa”. Eu ri por dentro quando ouvi isso. Se soubessem quem eu realmente sou, jamais teriam me contratado, mas ninguém presta atenção na mulher que organiza a casa e ninguém investiga a governanta temporária. Esse sempre foi o erro dos homens poderosos: eles enxergam apenas o que consideram ameaça. E eu aprendi cedo a parecer inofensiva. Chego cedo no primeiro dia. A mansão é grande demais para uma única pessoa, mas eu gosto disso, porque espaços amplos dão sensação de controle. Abro as janelas, deixo o ar circular, verifico os quartos, a cozinha e a área externa, tudo precisa estar impecável antes da chegada de Matteo Moretti. O nome frio, calculista e implacável já ecoa nos corredores empresariais do Rio de Janeiro como uma sentença. Ele assumiu a presidência da empresa da família recentemente e já está expandindo operações como se o mundo fosse um tabuleiro particular. Ele não veio ao Brasil para turismo, o seu único objetivo é comprar, absorver e controlar tudo ao seu redor. E eu sei que a empresa que ele quer… é a minha, ou o que restou dela. A Vasconcelos & Filhos já foi sinônimo de tradição. O meu avô construiu aquele império com as próprias mãos, o meu pai herdou e tentou manter de pé, mas o mercado mudou, as dívidas cresceram e os parceiros recuaram. E agora a Moretti está rondando como um predador paciente. Eu respiro fundo enquanto organizo a sala principal. Não posso deixar que emoções apareçam no meu rosto e não devo permitir que ele veja nada além de profissionalismo. O som do carro chegando ecoa pela entrada. É ele. Eu me posiciono perto da porta, postura firme e expressão neutra. O uniforme é simples, mas escolhido a dedo: elegante o suficiente para não parecer invisível, e, discreto o bastante para não chamar atenção. A porta se abre. Ele desce do carro como se o mundo estivesse acostumado a abrir caminho. Ele é alto, tem os ombros largos, e usa um terno impecável apesar do calor absurdo do Rio. O olhar dele percorre o ambiente com precisão cirúrgica, avaliando tudo. Quando nossos olhos se encontram pela primeira vez, eu sinto, não tenho medo, mas sinto um impacto quase impossível de controlar. Ele é exatamente como descrevem: um homem arrogante, controlado e absurdamente magnético. Mas eu não abaixo os olhos, não posso, porque se eu baixar, ele vence antes mesmo de começar o jogo. — Senhor Moretti? — digo, firme. Ele vira o rosto devagar. Analisa cada detalhe meu como se estivesse calculando valor de mercado. — Sim. Imagino que seja a governanta. Governanta. A palavra pesa, mas eu não deixo transparecer. — Temporária — corrijo. — Sofia. Ele estende a mão. Eu aperto. A pele dele é quente. O toque é firme e seguro, e não há nenhuma hesitação ou tentativa de me impressionar com charme. Ele está acostumado a ser o homem mais poderoso do ambiente, e talvez esteja, mas não sabe quem está na frente dele. Conduzo-o pela casa enquanto explico detalhes práticos... Agenda organizada, reuniões confirmadas e contatos do escritório jurídico local. Ele escuta com atenção, mas há algo nos olhos dele que me avalia além da função que desempenho, é como se estivesse tentando encaixar uma peça que não entende completamente. Quando ele diz que não tolera erros nem curiosidade excessiva, quase sorrio. Se ele soubesse que eu não estou curiosa, mas estou protegendo meu legado, teria uma síncope. — O senhor não terá problemas comigo — respondo. E é verdade. Ele não terá problemas comigo, terá problemas com o passado que carrega sem saber. Subo até a suíte principal depois que ele entra. Preciso organizar os últimos detalhes no andar de cima. Meu coração acelera por alguns segundos, mas eu controlo, não é nervosismo por ele, é a tensão de estar tão perto do inimigo. A palavra é forte demais? Talvez. Mas quando você vê o sobrenome da sua família ser tratado como oportunidade de aquisição em reuniões empresariais, a palavra parece adequada. Mais tarde, bato na porta do quarto para entregar documentos que chegaram do escritório jurídico. Ele manda entrar. O quarto está iluminado pela luz da tarde, e ele está de pé perto da varanda, observando a cidade como se estivesse calculando quanto ela vale. Eu atravesso o espaço com passos firmes. Quando nossos dedos se tocam ao entregar a pasta, sinto uma descarga sutil subir pelo braço. "Maldição. Eu não posso sentir isso. Ele não é apenas um homem atraente, e sim uma gigantesca ameaça." — A imprensa local já sabe que o senhor está na cidade — aviso. — Provavelmente haverá especulações sobre a expansão. Ele sorri de lado confiante demais. — Especulações são inevitáveis. — Algumas podem ser perigosas. Eu me arrependo da frase no mesmo segundo em que ela sai. "Perigosas para você… ou para mim?". Penso, mas não falo. Ele estreita os olhos. — Está me dando um conselho? Eu não recuo. — Estou informando, senhor. A tensão cresce entre nós como se o ar tivesse ficado mais denso. Ele se aproxima um passo. Meu corpo percebe antes da minha mente. O cheiro dele — amadeirado, discreto — invade meu espaço. Ele é bonito demais de perto. Possui linhas fortes e mandíbula rígida. Um homem que parece ter sido esculpido para comandar, e eu odeio o fato de notar isso, porque atração complica estratégia. — Eu não preciso de conselhos — ele diz, baixo. Ele tem razão, talvez não precise de conselhos, mas precisa da verdade, e eu sou a única ali que sabe qual é. Quando saio do quarto, fecho a porta com cuidado, só então permito que o ar escape dos meus pulmões. Encosto as costas na parede do corredor por alguns segundos e penso: "Isso vai ser mais difícil do que imaginei. Eu pensei que ele seria apenas frio. Não pensei que seria tão… presente." Há homens que ocupam espaço pelo volume da voz, Matteo ocupa pelo silêncio, pela forma como observa e pela segurança quase arrogante com que se move, mas eu também aprendi a ocupar espaço sem pedir permissão. Desço as escadas e caminho até a cozinha para reorganizar meus pensamentos. Pego um copo d’água e observo minhas mãos que estão firmes e sem tremor, isso é ótimo, porque eu posso tudo, menos vacilar. Mais tarde, enquanto reviso mentalmente tudo o que sei sobre a situação da empresa, lembro da última reunião com o advogado da família. “A Moretti está pressionando discretamente”, ele disse. “Se eles formalizarem proposta pública agora, os acionistas minoritários podem aceitar.” Eu não posso deixar isso acontecer. Se Matteo descobrir que a governanta temporária da mansão é, na verdade, Sofia Vasconcelos — herdeira direta da empresa que ele quer comprar — ele não vai hesitar, e sem pestanejar vai usar, manipular e transformar isso em vantagem estratégica. Homens como ele não desperdiçam oportunidades, e eu eu não posso me tornar uma. À noite, reviso os detalhes da agenda dele mais uma vez... algumas reuniões com investidores locais, um jantar com um grupo empresarial influente e a conversa preliminar com representantes da minha própria empresa. — Ele está se aproximando rápido — murmurei para mim mesma. Fecho os olhos por um segundo e penso: "Talvez eu esteja mais perto do centro da tempestade do que deveria, mas fugir nunca foi opção." Volto para o corredor e passo em frente à porta do quarto dele. A luz ainda está acesa sob a fresta, isso significa que ele está trabalhando, como sempre. Será que ele já suspeita? Será que percebeu algo no meu olhar? Eu sempre fui boa em esconder emoções, desde pequena aprendi que demonstrar fraqueza convida ataques, e Matteo parece o tipo de homem que identifica fraquezas à distância, e eu não posso ser uma. Volto para meu quarto na ala de serviço e sento na cama. O silêncio da noite envolve a casa. Pego o celular e abro uma foto antiga. Meu pai sorrindo diante da fachada da empresa, anos atrás. Orgulhoso. Confiante. “Proteja o que é nosso”, ele costumava dizer. — Eu estou tentando, pai — falo para mim mesma. — Mesmo que isso signifique viver sob o mesmo teto do homem que quer tomar tudo. Fecho a foto e deixo o celular de lado. Matteo Moretti acha que controla o jogo e que veio ao Rio para conquistar território. Ele não imagina que a peça mais importante já está dentro da casa observando, calculando e esperando o momento certo para dar o golpe fatal. Mas existe um problema que eu não previ, eu não contava com o fato de que, quando ele me olha, algo dentro de mim responde, algo perigoso, e se isso crescer, eu posso perder muito mais do que uma empresa. Viro de lado na cama, encarando o teto escuro. Se ele descobrir quem eu sou… Se ele ligar meu nome ao sobrenome que anda analisando em relatórios confidenciais... Tudo explode, e talvez não sobre nada para salvar.
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