— Eu conheço um atalho, talvez a gente consiga chegar um pouco antes deles, mas temos pouco tempo.
Kate comentou, entrando no carro e dando a partida. Jude, Lucas e Beatriz já se encontravam no veículo.
— Não é melhor pedir que saiam?
Jude indagou, pondo o cinto de segurança e vendo Kate começar a dirigir que nem louca.
— Meu medo é que sejam seguidos, mas tem razão, talvez seja uma medida mais eficiente e rápida.
– Só não mate a gente tentando salvá-los amiga.
— Não prometo nada.
Ela fez uma curva brusca, em uma velocidade acima da média e sem desacelerar.
Jude segurou com força no cinto de segurança, enquanto Lucas e Beatriz estavam abraçados no banco de trás.
Kate tentou ligar pelo próprio carro, mas o número de Anna só caia na caixa postal.
— Que merda.
— Tenta o da Karen.
Ela assim o fez, obtendo o mesmo resultado.
— Mas que droga. Se fosse um caso de vida ou morte, estavam todos mortos agora.
— Tecnicamente é um caso de vida ou morte.
Comentou Lucas, lembrando sobre o que estava em jogo. Kate olhou pra ele pelo retrovisor, trocando de marcha e pondo o pé ainda mais fundo no acelerador. Por sorte as ruas estavam com pouco movimento.
— Ok, você não vai gostar nem um pouco dessa opção, mas precisa ligar pro Andrew.
Sugeriu Jude, recebendo uma negativa imediata.
— De jeito nenhum.
— Kate, sei que está chateada e eu entendo, juro que entendo. Mas não é hora de pensar com o ego ferido. A vida deles pode depender disso.
— Tenta a Kayla primeiro. Se ela não atender...
Lucas quem deu a ideia. Kate tinha esquecido completamente de Kayla. Sua mente estava a mil.
— Aí eu ligo pro Andrew.
Jude ligou do seu próprio celular para Kayla, mas ninguém atendeu, apesar de ter chamado várias vezes. Ela fez outras duas tentativas sem sucesso.
— O que está acontecendo com esse povo que não atende o celular?
— Espero que não seja tarde demais.
Comentou Beatriz, em tom acusador, como se Kate tivesse apertado o gatilho.
A agente do DEA não disse nada, estava tentando respirar enquanto mantinha a concentração no trânsito.
Lucas deu uma olhada pra mãe, que a fez se encolher um pouco no canto. Não era hora de apontar culpados, jogar responsabilidades e muito menos de deixar Kate apavorada. Ela já tinha passado por problemas demais pra ter aquela imagem em sua cabeça.
Se instaurou um silêncio no carro, que Jude tratou de quebrar fazendo a ligação que Kate não desejava. Mas naquele momento, era a única esperança deles.
Karen estava terminando sua reunião. Não queria voltar a falar de trabalho depois da conversa que teve com Jude, mas ela precisava definir aquilo o quanto antes. Kayla estava cozinhando enquanto conversava com Anna sobre como Kate se infiltrou na vida deles, e Andrew permanecia sentado no sofá, quieto, olhando para o nada, se indagando o que Kate estaria fazendo naquele instante.
De repente, alguém bateu na porta. Ele levantou rápido e foi abrir.
Seu coração bateu forte, com esperanças de ser alguma notícia de Kate, ou até ela própria.
Ele abriu a porta e o sorriso de expectativa murchou ao dar de cara com um homem de bigode grosso, alto e forte, que ele conhecia bem.
— Gregory? O que faz aqui?
— Eu vim falar com a Karen. Ela não atende minhas ligações e...
— Tá, claro, entra. Ela está um pouco ocupada, mas se quiser eu chamo. Já deve estar terminando.
Gregory entrou, em passos delicados. As mãos estavam juntas e um pouco suadas. Fazia tempo que ele desejava reencontrá-la e tentar uma outra conversa. Quem sabe com as coisas diferentes, sem Máfia, sem pressão, eles pudessem recomeçar. Não que isso justificasse suas escolhas erradas, mas havia aprendido demais com elas e não pretendia repetir seu erro, jamais.
— Não precisa, eu espero, obrigado.
— Então, te liberaram?
Indagou Andrew, cruzando os braços. Mesmo insatisfeito com as atitudes do amigo, não iria condená-lo. Seu sofrimento era visível e já devia estar pagando pelos seus atos com consciência do que fez. Além disso, ele não era exemplo de nada para querer dar lição de moral em alguém. O que tinha feito era tão r**m quanto, senão pior.
— Mais ou menos, vou cumprir domiciliar graças ao acordo que fiz. Mas ainda me deram alguns dias pra resolver algumas pendências. Depois serão longos cinco anos nesse regime.
— Caramba, é muito tempo.
— Bom, ainda é melhor que a prisão. E comparado aos crimes que cometi, acho que foi uma sentença boa demais.
— É, sobre isso você está certo.
Andrew sentou no sofá, soltando um suspiro.
O acordo tinha sido bom até demais, para todos que colaboraram. Alguns poucos anos de prisão em casa, depois de uma lista quase interminável de crimes cometidos, era de uma benevolência extrema.
Karen surgiu na sala, depois de ouvir Andrew conversando com uma voz familiar, até demais para seu gosto.
— Greg? O que veio fazer aqui?
— Oi Karen, será que podemos conversar?
O telefone de Andrew vibrou em seu bolso. Ele atendeu o mais rápido que conseguiu.
— Jude? Está tudo bem?
Karen olhou para Andrew, que ficou tenso com a ligação.
— É a Kate.
Jude havia posto o telefone no viva-voz, com o intuito de deixar Kate conduzir a situação, afinal ela era a esposa dele, mesmo que não gostasse mais da ideia.
— Kate, meu amor, como você...
— Escuta, presta atenção no que vou dizer, é muito importante. Chama todos e os reúna na sala, agora.
— Mas...
— Faz o que estou mandando Andrew! Rápido!
— Tá, tudo bem.
Ele correu até a cozinha e chamou Kayla e Anna, que foi a contragosto. Agora que sabia do segredo, não pretendia passar muito mais tempo naquela casa.
Karen permaneceu na sala junto a Gregory.
Com todos reunidos na sala, ele voltou ao telefone.
— Ponha no viva-voz.
Assim que o fez, ele encarou Karen, que abraçou a mãe de lado.
— Feito.
— Escutem, Bernardo está solto. Não é uma brincadeira. Bryan me ligou agora pouco e antes disso, eu e Jude sofremos um atentado em frente a casa da mãe do Lucas.
— Meu Deus, vocês estão bem?
Ele questionou, ignorando completamente a informação inicial sobre a fuga de seu pai da prisão. Isso não era algo que ele gostaria ou imaginava, mas não ficava totalmente surpreso. Bernardo era ardiloso, c***l e implacável, principalmente quando tinha um objetivo. Nesse caso, ele tinha vários.
Apesar disso, ele devia ter previsto aquele movimento. Ele conhecia o pai como ninguém, assim como Kayla. E era o único capaz de prever suas ações se tratando de vingança. Porque ele tinha certeza que essa era a maior motivação de Bernardo para ter fugido.
Ele não era um homem que pretendia apenas retomar seus negócios, sentar na cadeira do Conselho novamente e provocar o inferno na terra. Não, ele iria querer levar a terra para o inferno com uma sede de vingança insaciável. Bernardo só ficaria satisfeito quando todos que o traíram tivesse sofrido o bastante para implorar pela morte.
— Eles provavelmente vão atacar vocês aí. Estamos a caminho, mas não sei se chegaremos a tempo. Quero que pegue o que for de mais importante e saiam em cinco minutos. Estamos perto, mas não quero arriscar que eles cheguem antes e pegue vocês desprevenidos.
— Quantos homens são, Kate?
Questionou Anna, dando um passo a frente para ficar próxima do telefone.
— Foi um carro, tinha pelo menos três homens, mas não quero que se arrisque Anna. Essa missão não é sua e você é a única agente aí pra três civis. Além disso, eles podem ir com reforço.
— Quatro, o Greg também está aqui.
Informou Karen, ainda agarrada a mãe, com a testa enrugada e o corpo trêmulo. Nunca tinha estado tão perto de um confronto antes, sem contar o dia do seu suposto casamento com Andrew. Porém, a diferença é que lá eles estavam bem preparados e equipados e tinham total controle da situação.
— Pior ainda.
— Acontece Kate, que eu e Gregory somos assassinos treinados e conhecemos bem os tipos de homens que meu pai contrata. Podemos lutar contra eles.
— Estão loucos? Com que arma? Vocês estão sob custódia do governo federal. Não poderiam pegar em uma arma mesmo se tivesse uma aí.
Kayla se desprendeu da filha e parou ao lado de Andrew, antes de fazer uma revelação que deixaria o próprio Andrew perplexo.
— Acontece que temos. Um pequeno arsenal, na verdade. Espero que isso fique aqui entre nós, mas Bernardo é paranoico por segurança e me fez ter um quartinho do pânico e uma parede cheia de armas, granadas e tudo mais.
Do outro lado da linha, Kate balançou a cabeça com veemência, enquanto Jude encarava a amiga com a boca entreaberta. Elas deviam ter pensado que ele teria mesmo algo do tipo.
— Mesmo assim, é muito arriscado. E como eu disse, são prisioneiros do Estado. Não devem cometer outro crime.
— Acredito que isso se chame legítima defesa.
Esclareceu Kayla, determinada a proteger sua família.
Karen olhou surpresa pra mãe. Nunca tinha visto tamanha coragem emanando de sua genitora.
— Estamos perdendo tempo com essa conversa. Vamos nos preparar e aguardamos vocês. Entre pela garagem, é mais seguro.
E assim Andrew encerrou a conversa, desligando e não dando chance de Kate retrucar.
— Que merda! Eles estão pensando no que ao me desobedecer assim?
— Em um ponto estão certos, Andrew e Gregory são assassinos profissionais e a Anna é uma das melhores agentes que conhecemos. Eles têm chances.
— Contra sabe lá Deus quantos homens o Bernardo mandar? Não tem uma chance boa quando você não sabe quem é seu inimigo.
— Mas ele sabe, Kate. Ele é filho dele.
— Eu sei que ninguém perguntou e eu não lembro muito sobre esse tal Bernardo, mas se ele é tão perigoso como vocês dizem, por que mandou apenas um carro pra matar vocês? Sabendo que são duas agentes bem treinadas e de duas agências poderosas do Governo?
Kate estava muito perto da casa de Kayla e acelerando, mas aquela indagação de Lucas fez mais sentido do que toda a conversa com Andrew sobre se defender ou não. Afinal ele estava certo, era um assassino c***l e perspicaz, altamente inteligente quando se tratava de operações criminosas.
Foi então que Kate olhou para o velocímetro do veículo, que mostrava sua velocidade a 100km. E ela corria para chegar até eles antes dos criminosos, que tinham uma vantagem de pelo menos cinco minutos, o que na velocidade certa e mesmo com um caminho diferente, os faria chegar na frente. A menos que não fosse essa a intenção.
— É isso! Eles querem todos nós juntos. Provavelmente não pretende nos matar e sim sequestrar. Bernardo vai mandar um exército de homens quando souber que estamos todos juntos. Talvez nem os federais deem conta, pelo menos não sozinhos. Mesmo com a gente lá, seu plano é nos fazer lutar até não conseguirmos mais e depois nos capturar.
— Faz sentido. Ele com certeza vai querer olhar nos olhos do filho, pelo menos uma última vez.
Comentou Jude, lembrando que Bernardo devia estar com sede de sangue de sua prole. Não havia traição maior do que o filho contra o próprio pai. Nesse caso, era totalmente justificável, mas obviamente Bernardo não enxergaria assim.
— Ligue pra eles de novo.
Jude obedeceu, mas o telefone chamou e ninguém atendeu.
— Nada. Ninguém atende.
— Tudo bem, estamos na esquina.