Capítulo 1: A verdade escondida nas sombras
Andrew abriu os olhos, depois de conseguir cochilar por três horas. Deitado em cima de um colchão podre e duro, ele não parava de pensar nas palavras de Kate.
Antes, temia que ela descobrisse o segredo e nunca quisesse vê-lo. E então, ela revelou que todas aquelas semanas juntos, não foram exatamente como ele pensava.
Porém, no final das contas, a única outra pessoa que sabia seu segredo, estava morto.
Kate Williams disparou três vezes contra Ralph Gomez, sem dó nem piedade. Ela foi promotora, júri e juíza daquele julgamento.
Então, Andrew se mantinha com um dilema. A menos que ele próprio contasse, Kate não tinha meios para descobrir a verdade. Bastava que ele tivesse certeza que poderia manter aquilo guardado para sempre dentro dele mesmo, sem que aquilo destruísse a ele ou a ela, e eles finalmente poderiam passar o resto da vida juntos.
A questão era, Andrew conseguiria guardar o maior segredo sobre o amor da sua vida?
Kate levantou cedo. Havia dormido tão bem que quase não acreditava. Os últimos dias em recuperação tinham sido difíceis, com a dificuldade de respirar. Mas felizmente, ela apresentou uma melhora surpreendente e rápida nos últimos dias. Kate ainda tomava remédios para alívio das dores, mas sua saúde nunca pareceu tão em dia.
Depois de fazer o desjejum, ela aprontou panquecas, ovos mexidos, torradas e bacon frito, junto a uma garrafa de leite, para levar a agência.
Ao chegar, o ambiente estava lotado de papéis nas mesas, telefones tocando o tempo todo e muita gente circulando.
Porém, apesar do caos em que a delegacia estava, quando ela parou na frente do elevador, um silêncio tomou conta do ambiente.
Assustado, Bryan saiu da sua sala e então percebeu que todos olhavam para Kate.
Jude parou atrás do delegado, e com um sorriso, começou uma salva de palmas. Logo todos a acompanhavam, eufóricos, assobiando e gritando.
Kate sorriu, completamente constrangida. Suas bochechas esquentaram tanto que ela sentiu-se um camarão.
O barulho foi tamanho, que Andrew levantou da cama, tentando identificar o que estava acontecendo, mas deduzindo que todos os aplausos deviam ser direcionados para uma única pessoa. A mesma que tirava seu sono.
Jude foi até a amiga e pegou as sacolas que estavam em suas mãos. Kate andou entre os agentes e policiais, a maioria lhe parabenizando e cumprimentando. Ela sorriu tanto naquela manhã, que ficou com as bochechas doloridas.
— Meus parabéns agente Williams. Você fez um excelente trabalho.
Disse o delegado, quando ela parou de frente pra ele. Todos ainda estavam olhando pra ela, em silêncio.
— Ah, delegado, sabe que eu não teria conseguido sem ajuda de vocês.
— É, mas sem você nunca chegaríamos tão longe. Foi corajosa agente, enfrentou não apenas uma máfia inteira, mas fez isso enquanto ainda estava de luto. Não conheço mais ninguém que teria conseguido.
Bryan a abraçou, com força. Kate não era apenas sua melhor agente em campo, era também uma das pessoas mais incríveis que ele conhecia e, mesmo tendo perdido sua única família, não desistiu e seguiu lutando, tanto por eles, tanto pelas pessoas que sofriam nas mãos daqueles miseráveis.
Kate saiu do abraço do delegado e limpou as lágrimas que tinham caído. Ela respirou fundo e se virou para todos.
— Obrigada a todos. Foi um trabalho muito difícil, longo, exaustivo e que levou tudo de mim. Mas eu fico mais aliviada em dormir a noite sabendo que as ruas estão mais limpas, e que o mundo será um lugar melhor.
Houve mais uma salva de palmas, enquanto Kate agradecia, fazendo pequenas reverências, com a mão no peito.
— Vem Kate, temos muito o que conversar.
Bryan abriu a porta da sua sala. Jude e Kate entraram, foi quando pararam os aplausos e os agentes voltaram as suas atividades.
— Então, trouxe esse café pra nós?
— Sim, senhor. Vocês passaram a noite toda trabalhando. E também um pouco pro Andrew.
O delegado sentou em sua cadeira, olhou para Jude e se voltou pra Kate, pedindo que ela sentasse.
— Agente, precisamos falar sobre a natureza do seu real relacionamento com o senhor Cardenas.
Kate também encarou Jude, que estava sentada em um sofá no canto da sala, e depois puxou a cadeira pra ela sentar.
— Com todo respeito, isso não é da sua conta, senhor. Eu sei que o Andrew cometeu muitos erros no passado, mas sem a ajuda dele e da Karen Hawkins, dificilmente teríamos conseguido os livros.
— E não esqueça da Kayla, ela quem sabia onde estava o cofre e a senha.
Comentou Jude, olhando para o livro em seu colo e fazendo anotações, porém, ouvindo absolutamente tudo.
— Bem lembrado, Jude. Então, senhor, eu acho que apenas o Andrew e eu podemos resolver nossas pendências.
— Eu entendo, mas sabe que ele também será condenado, ainda que não vá para a prisão.
— Prisão domiciliar, eu sei. Não acho que vamos ter problemas com isso, se é o que está sugerindo. Bom, na verdade teremos.
O delegado arqueou uma sobrancelha, começando a pensar que não gostaria da continuidade daquela conversa.
— Que tipo de problema?
— Eu mereço umas férias, não?
— Sim, mas...
— E o Andrew foi fundamental pra conclusão da missão. Não apenas vai depor e detalhar diversos horrores daquela organização, mas ajudou a entregar o próprio pai.
Bryan se inclinou sobre a mesa, com as mãos juntas.
— Vá direto ao assunto, agente.
— Só quero pedir que o libere por uma semana.
Jude levantou o olhar, surpresa com o pedido da amiga.
Bryan não se mexeu, olhando diretamente nos olhos de Kate. O medo daquele relacionamento continuar era justamente por situações como aquela.
— Por que?
— Não tivemos uma lua de mel. Ainda que não tenhamos resolvido completamente nossa situação...
— Ou seja, nem mesmo sabe se vai continuar casada com ele, mas ainda sim está me pedindo pra sair em lua de mel com um criminoso?
Kate sabia que olhando daquele jeito, não parecia uma ideia muito boa. Mas ela tinha certeza que Andrew não iria querer o divórcio. Apesar de que ela não tinha certeza se estava pronta para levar esse título de esposa a sério.
— Bom, sim, é isso que estou pedindo. E depois de tudo, eu acho que ainda estou sendo razoável.
Bryan deu um pequeno sorriso e balançou a cabeça. Não podia negar que sentia falta da sua melhor agente.
— Razoável? Olha agente, eu até estava com saudades dessa sua ousadia, mas...
— Delegado, serão apenas sete dias. O Andrew não vai fugir, eu lhe garanto.
Ele enrugou a testa, curioso.
— Como pode ter tanta certeza?
— Dois motivos, primeiro: eu sou a melhor agente federal da Narcóticos, e segundo: ele é casado com a melhor agente federal da Narcóticos.
— Pra mim parece suficiente.
Disse Jude, voltando a olhar os livros.
Kate piscou pra ela, com um sorrisinho convencido no rosto.
Bryan se recostou na cadeira, passou a mão pelo rosto e suspirou, antes de responder:
— Eu tenho absoluta certeza, de que vou me arrepender amargamente dessa decisão. Mas sim, agente Williams, você poderá levar o senhor Cardenas em lua de mel. Porém, ele vai precisar dar alguns depoimentos ainda hoje, e você falará com a imprensa sobre o caso.
— Até que o senhor sabe negociar.
Kate se levantou, pegou uma vasilha que tinha separado para Andrew, que estavam em uma sacola em cima da mesa, e saiu da sala.
— Eu espero que isso tudo termine bem.
Disse Bryan, depois que ela saiu.
— Eu também senhor, eu também.
Concordou Jude, com receio do fim que aquela relação teria. Kate já havia sofrido demais para se apaixonar por alguém como Andrew Cardenas.
Apesar de, no fundo, saber dos riscos que corria continuando aquele relacionamento, e não os físicos, mas os emocionais, ainda sim, Kate não queria desistir. Ela precisava tentar, ou passaria o resto da vida imaginando como teria sido.
— Espero que esteja com fome.
Disse Kate, ao parar na entrada da cela de Andrew.
Ele, que estava sentado, se levantou, com um pequeno sorriso no rosto.
— É bom ver um rosto bonito logo pela manhã.
Kate deu de ombros, olhando pra ele de cima a baixo.
— Não posso dizer o mesmo de você. Está um caco.
O cabelo bagunçado, a roupa amassada, os olhos que pareciam cansados. Provavelmente ele não tinha dormido muito, devido a falta de conforto e as tantas coisas em que precisava pensar.
— Sua sinceridade me toca.
— Eu faço o que posso. Agora pega aqui, preparei algumas coisas pra você comer enquanto espera.
Um dos policiais que estavam de guarda abriu a porta da cela e Kate entregou a comida para Andrew.
— Espero o quê?
— Os papéis do acordo chegar. Devem estar aqui em alguns minutos. Depois poderá sair pela porta da frente.
Andrew colocou a comida em cima da cama e voltou pra perto de Kate, segurando nas barras enquanto falava.
— Eu preciso de um advogado?
— Você tem direito a um, mas apenas se quiser.
— Não, eu tenho tudo o que preciso aqui.
Ele estendeu a mão pra ela, que a segurou. Devagar, ele trouxe a mão dela até seu rosto e deu um beijo nas costas, enquanto olhava diretamente pra ela.
Kate sorriu, sentindo o toque suave em sua pele esquentar todo o seu corpo.
De repente, seu telefone começou a tocar, o que tirou Kate completamente do eixo.
— Só um instante.
Ela pegou o celular e andou até mais perto da porta, afastada da cela.
— Aqui é a agente Katharina Williams.
— Sou o doutor Brandon Parker, fui informado que a senhora é responsável pelo caso do Bernardo Cardenas.
— Sim, sou eu mesma. Ele morreu?
— Não senhora, está vivo, ainda debilitado, mas sobreviveu as três cirurgias que tivemos que fazer. Precisará de alguns dias de repouso antes de poder ser levado pelos seus colegas. Mas liguei diretamente pra senhora, pra que avisasse a um rapaz chamado Andrew, ele chegou sussurrando esse nome e dizendo que era filho dele, não sei se é verdade.
Kate olhou para Andrew, que estava experimentando as torradas com os ovos e o bacon. Ele parecia intretido com a comida.
— É verdade sim. O que exatamente ele dizia?
— Meu filho traidor, Andrew. Exatamente nessa ordem.
— Entendi, obrigada doutor, eu sei exatamente onde encontrá-lo e retorno assim que possível.
Kate desligou, guardando o telefone. Ela respirou fundo. Havia um ódio profundo que ela não poderia cultivar, a menos que quisesse acabar morrendo por causa dele.
Ela andou de volta até a cela e se encostou na parede, cruzando os braços.
Andrew lambeu a ponta dos dedos e ficou olhando pra ela, que de repente, parecia ter perdido todo o senso de humor.
— Aconteceu alguma coisa?
— Seu pai está vivo. Passou por três cirurgias e segue internado.
Andrew não estava esperando aquela notícia. Nem mesmo se lembrava que seu pai havia sido baleado e que poderia estar vivo ou morto. Naquele momento, ele ficou muito confuso sobre o que deveria sentir.
— Deus do céu, nem achei que ele tivesse sobrevivido. Estou surpreso que nem pensei nele a noite toda.
— Ele estava sussurrando seu nome quando chegou no hospital, te chamando de traidor.
— Acha que ele vai querer vingança?
Kate não achava impossível, mas preferia não causar pânico em Andrew. Aquela situação toda era assustadora demais para qualquer um e ainda havia muitos problemas a serem resolvidos.
— Bom, até que seja condenado, talvez a gente precise colocar você no programa de proteção à testemunha. É peça chave nesse caso. E ele sabe disso.
— Só os livros não são o bastante?
Ele indagou, com as sobrancelhas baixas.
— Tecnicamente sim, mas Bryan não vai querer correr o risco.
— E o que fazemos agora?
— Depois do seu depoimento, vamos continuar o que começamos e fomos interrompidos.
— Do que está falando?
Kate se aproximou, com um pequeno sorriso no rosto.
— Nossa lua de mel.
— O quê? É sério isso?
— Claro, convenci o Bryan a liberá-lo por uns dias, antes de ficar na prisão domiciliar.
— Kate, você é incrível.
Ela deu um sorriso largo e mordeu o lábio inferior, e então, um assunto que ela gostaria de encerrar, veio a sua mente. Não seria fácil, mas ela não iria para nenhum lugar com ele sem saber daquela resposta. Esse era um dos motivos principais pelo qual ela não conseguia ficar com Andrew.
— Eu sei, mas antes, tenho que te falar uma coisa.
— Sou todo ouvidos.
Respondeu, com certa empolgação, mas logo percebeu que o assunto era sério, pelo tom que ela começou a falar.
— Eu li sua ficha, sei que Ralph Gomez era uma peça importante na máfia e também para você. E quando estava rolando aquela confusão, ele tentou fugir e...
O coração de Andrew disparou, batendo mais rápido do que ele podia imaginar. Por um instante, temeu até que ela pudesse ouvir.
— Bom, ele disse que foi o responsável por matar o Nic e o Lucas. E eu atirei nele. Foi um dos corpos retirados do local hoje cedo.
Dali em diante, Andrew entraria em uma zona muito longe do conforto. E talvez, se quisesse mesmo ter um fim ao lado de Kate, ele precisasse cometer outro grande erro, que naquele momento, parecia a melhor decisão da sua vida.
— Ralph e eu não estávamos como antes, fazia um tempo. Eu gostava dele, mas não era quem eu pensava... Ou melhor dizendo, quem eu queria que ele fosse.
Ele abaixou a cabeça, pensando que queria que ele tivesse um final diferente, mas provavelmente precisava pagar suas contas e não teria tempo o bastante pra fazer isso em vida.
— Andrew, ele me disse que matou a minha família. Você sabia disso? Olha, por favor, não minta pra mim. Chega de mentiras, se vamos recomeçar o que quer que isso seja, não podemos esconder mais nada, entendeu? Então me diz, seja verdadeiro e responde, você sabia que tinha sido ele?
Havia chegado o momento. Ele temia aquele instante desde quando permitiu que aquele acidente acontecesse. O dia em que Kate perguntaria se ele estava ou não envolvido e ele precisaria escolher um caminho.
Sabia o que devia fazer, o que era melhor pra ele e pra Kate, no entanto, não parava de pensar, que ninguém mais sabia e nem falaria sobre aquilo. Ele levaria aquele segredo com ele para o túmulo. Então por que não viver uma vida plena e feliz, ao lado da mulher que amava e, que, acima de tudo, merecia a felicidade que ele poderia proporcionar? Por que destruir tudo aquilo contando a verdade?
No fundo, ele sabia exatamente a resposta. A mentira é uma verdade que você escolhe esconder nas sombras, mas que cedo ou tarde, encontra a luz.
— Não... Desculpa, eu não sabia. Desconfiava que era alguém de confiança do meu pai, mas não tinha ideia que era ele.
— Tudo bem, nãotem problema. Podemos lidar com isso, juntos.
Foi a vez de Kate segurar a mão de Andrew e beijá-la, enquanto tentava dar o seu sorriso mais singelo e verdadeiro.
E naquele momento, Andrew percebeu que era tarde demais para deixar a verdade conhecer a luz.