Capítulo 2: Códigos

2656 Words
Alguns minutos mais tarde, Bryan ordenou que Andrew fosse levado para o interrogatório. Os livros caixas estavam dispostos à mesa, com imagens e outras placas encontradas no cofre. Havia também um esconderijo com muitas mulheres nuas, sujas, m*l nutridas e m*l tratadas, todas acorrentadas nos pés e nas mãos. Elas nem foram capazes de entender o que estava acontecendo até serem levadas a delegacia, quando, enfim, entenderam que a liberdade finalmente tinha batido na porta. Foram encontradas, também no clube, uma série de armas, drogas, materiais de tortura e outras milhares de coisas que eram usados para praticar crimes hediondos. Questionado sobre isso, Andrew respondeu que sempre foi daquela forma, porém menos pessoas se escondiam e se repremiam nos últimos anos. E, que talvez, pudesse fazer alguma coisa a respeito, mas não era capaz. Sozinho, não tinha força suficiente. Bryan e Anthony conduziram horas de interrogatório, enquanto Kate e outros agentes assistiam, como se observassem algo fascinante e assustador. Andrew relatou tudo que sabia dos negócios de seu pai, como funcionava o esquema de drogas, e revelou que o código era uma das coisas que se aprendia no início da adolescência, muitas vezes até na infância, e sem isso decorado, o castigo era a morte, pois aquele tipo de comunicação entre eles era fundamental para manter a descrição. — Então quando seu pai pedia um Lírio...? — Estava encomendando um sequestro. Em todas essas coisas, como extorsão, roubo, fraude, sonegar impostos, tudo isso, tinha um significado por de trás. O motivo principal pelo qual as escutas eram inúteis, desde que a Máfia cresceu tanto a ponto de chamar a atenção das autoridades. No entanto, com eles falando o tempo inteiro de flores, buquês e tudo mais, era impossível que conseguissem, sequer, um mandato de busca para o clube. — E se alguém falasse o significado, ao invés da palavra? — Papai encomendava uma flor de Lótus. Já era conhecimento de todos, que a Flor de Lótus nada mais era do que assassinato. Anthony e o delegado se olharam, rapidamente, meramente chocados com a eficiência deles. O agente Hill se inclinou pra frente e indagou: — E sobre a... a quantidade? Como era definida? — Só podemos definir em casos específicos, tipo drogas, assassinatos, armas. Pode ser confuso, mas vou explicar calmamente: quando se tratava de assassinatos ou sequestros, usávamos apenas a palavra flor para medir. Cinco flores de Lírios, cinco sequestros. Cinco flores de Lótus, cinco assassinatos. Agora, quando era drogas ou armas, usávamos uma pétala, uma flor, um buquê e uma estufa. O delegado estufou o peito, enchendo ele de ar, antes de perguntar, com a preocupação sobre quanto tempo ainda levaria pra saciar algumas perguntas essenciais. — Deus do céu, qual quantidade representava cada um? — Uma pétala, era uma grama de droga, independente de qual fosse. Podia ser ópio, maconha, heroína, etc. Se fosse uma flor era 100g. Um buquê era um 1k e uma estufa era uma tonelada. Esse foi usado várias vezes nos últimos anos. — Tudo bem, entendemos, e no caso das armas? — Trabalhamos com caixotes. Normalmente, vinha de 10 a 20 armas em cada um. Variava do tamanho da arma. Uma pétala era um caixote, uma flor era dez caixotes, um buquê era 100 e uma estufa era 1000 caixotes. O delegado até ficou com receio de perguntar, mas acabou se encostando na cadeira e olhando seriamente para Andrew, que apesar do tempo passado sentado ali, com o corpo todo dolorido, respondia com calma e paciência. — Quantas vezes usaram o último? — Nas últimas cinco décadas, fizemos pelo menos duas vezes ao ano. — De onde vinha? Indagou Anthony, incrédulo que eles tenham deixado passar tantas armas. Como era possível que não houvesse uma desconfiança? Uma investigação maior? Há pelo menos 50 anos eles traziam 2000 mil caixotes de armas por ano, com um número absurdo de armamento que nem a polícia de Nova York devia ter. — Todo o mundo. África, Alemanha, Rússia, Inglaterra... Se pretende me perguntar quem fornece, lamento dizer que não sei. Provavelmente a informação deve estar em um desses livros. E antes que perguntem, sim, meu pai vendia muitas dessas armas. — É, deve estar lá mesmo. E sim, eu iria perguntar o que ele fazia com tanta arma. Mas me diga, senhor Cardenas, participou ativamente da tentativa de assassinato do Agente Hill? Andrew arqueou uma sobrancelha, ficando confuso. Todo o interrogatório até aquele momento, girava em torno sobre as informações mais importantes que podiam ser usadas contra seu pai. Não que aquela não fosse, mas assassinatos concluídos eram mais interessantes do que as tentativas. — É, sim, ordens do meu pai. Confesso que não achei que fossem perguntar isso hoje. — Só para esclarecer. E de quantos assassinatos participou? Andrew se remexeu na cadeira, desconfortável. Não gostava de sequer pensar no que havia feito. Ele enjoava de si mesmo apenas em ouvir seus próprios pensamentos e ter suas memórias reativadas sobre cada vez que apertou o gatilho ou precisou esfaquear alguém. Kate cruzou os braços, ao ouvir a pergunta do delegado, ficando também inquieta. Ela tinha conhecimento sobre alguns dos crimes de Andrew, mas estava convencida de que ele não teve muita escolha a não ser cometê-los. — Nunca contei. Diretamente, talvez de cinco a dez. Indiretamente, não poderia contar nem mesmo se tivesse mais um buquê de dedos. Ele deu de ombros, tentando sorrir um pouco. Fosse para drogas ou armas, um buquê ainda era 100 de alguma coisa. — E sequestros? Extorsões? Agressões físicas e psicológicas? — Delegado, não me orgulho do que fiz. Na verdade, na maior parte do tempo, eu apenas queria enfiar uma bala na minha cabeça. O problema é que, eu não morreria em paz, sabendo que causaria sofrimento as poucas pessoas que me amavam e, supostamente, pagariam pela minha escolha. — Não entendi, como assim? Andrew se inclinou na mesa, olhando diretamente para o delegado, com uma irritação começando a se aprofundar. Cada vez que ele tocava naquele assunto, que era obrigado a expor sua necessidade pela violência que seu pai ordenava que ele cometesse, uma raiva crescia dentro dele como um parasita capaz de se alimentar dele e do seu ódio e crescer com rapidez. — O senhor deveria conhecer melhor o perfil do homem que desejou tanto prender, que mandou sua agente mentir, enganar e se casar com o filho dele pra prendê-lo. Meu pai é sádico, c***l, determinado, um homem que quando é contrariado, não mede suas ações. Ele é impulsivo, intempestuoso, jamais aceitaria que eu cometesse suicídio sem responsabilizar alguém. E pode ter certeza que sobraria pras pessoas mais próximas de mim. O tom desprezível de Andrew ao falar sobre Kate, não apenas enfureceu a agente, que precisou sair da sala onde estava, começando a pensar que estaria cometendo um erro. Mas também deixou o agente Hill enraivecido. Tanto, que ele se levantou e segurou Andrew pela gola da camisa. — Não ouse falar da Kate como se ela fosse qualquer pessoa. Se não fosse por ela, não estaria aqui. Porque, senhor Cardenas, não importa se colaborou ou não, poderíamos ter continuado sem sua ajuda. Aliás, se fosse qualquer outra pessoa, o chefe White jamais permitiria que tivesse uma semana livre, pra curtir antes de se tornar oficialmente um condenado. Tem sorte por ela ter te escolhido. O delegado se levantou e segurou os ombros de Anthony, para que ele largasse Andrew. — Está bom, agente. Acho que acabamos por hoje. Anthony o soltou, saindo da sala logo em seguida. Andrew sentou novamente em sua cadeira e soltou um suspiro. Ele abaixou a cabeça e a balançou, notando que tinha falado demais. Era fim de tarde. Kate ficou fora do prédio, encostada em um poste que ficava logo em frente. Ela começava a pensar que, apesar do caminho que tinha escolhido ter chegado exatamente onde ela queria, o que Kate mais desejava, era ter feito as coisas de modo diferente. As palavras de Andrew, ressoaram nela com alguma força. Era fato que ela tinha se casado com Andrew apenas para conseguir entrar na família. O intuito era que as coisas fossem um pouco mais fáceis com Bernardo. Sua ideia inicial era que ele aceitaria Kate na família, ainda que houvesse um pouco de resistência no começo, porém, nem de longe foi como ela tinha planejado e, isso não apenas a fez tomar medidas extremas, como também tirou as únicas pessoas que eram a sua família. Kate não queria pensar mais naquilo, mas quando a imagem de Ralph vinha a sua mente, ela apenas ficava especulando como deveria ter sido os últimos instantes de Lucas e Nicholas. Se sorriram, se pensaram nela e nas suas vidas, se tiveram paz, acima de qualquer coisa. E ela tentava se confortar que sim, porém a verdade é que deviam ter sofrido muito antes do fim. Mas não importava mais. Suas ações tiraram dela tudo o que tinha. Se não fosse aquela missão, se ela tivesse protegido eles melhor, se tivesse tomado mais cuidado ou não os envolvesse naquilo tudo, provavelmente ainda estariam vivos, e Kate jamais conseguiria se perdoar por ter permitido que aquilo acontecesse. Para ela, era seu dever protegê-los. Sua função, principalmente por ter os colocado em perigo com a missão. Sabia que Bernardo era inteligente, incisivo e difícil de lidar, mas daí a matar sua família sem nem mesmo dar a ela a chance de se afastar ou qualquer merda do tipo? Aquilo ela não podia aceitar. Kate não era capaz de se conformar com o destino dado a eles. Assim como sua real participação naquela história. — Você está bem? Indagou Jude, parando ao lado de Kate. Ela olhou de soslaio e abaixou a cabeça. — Não devia estar em casa, descansando? — Devia, mas acho que alguém precisa de mim. Kate, o que rolou lá dentro... — Ele não estava mentindo. O Bryan devia saber melhor sobre o Bernardo. Eu não devia ter subestimado ele. Assim, talvez minha família ainda estivesse viva. Jude parou de frente pra Kate, segurou em seu rosto e o ergueu, fazendo com que a agente a olhasse. — Não, Kate, não faça isso com você. Não pode controlar o que acontece nessas missões. — É, mas eu não devia ter colocado eles junto comigo. Eu achei que se pudesse vigiá-los de perto, estariam protegidos, mas a verdade é que eu os condenei a morte. — Não tinha como saber o que o Bernardo faria. Kate deu um sorrisinho e deu um passo pra trás, balançando a cabeça em negação. — Você não entende, Jude. Era meu dever saber. Minha responsabilidade. Minha maior missão, devia ser protegê-los e não fui capaz de fazer isso. — Eu jurava que a fase de se culpar havia passado. Que já tinha entendido que essas coisas fogem ao nosso controle. Não era sua obrigação adivinhar cada passo do Bernardo. O que ele poderia fazer ou não, era apenas especulação nossa. Kate andou vagamente até uma das cadeiras dispostas na frente da delegacia. Ela sentou, de braços cruzados, e respirou fundo. — Não importa mais. Nada disso, importa mais. Eles estão mortos e eu continuo aqui. Sinceramente, não me parece muito justo. Jude se agachou de frente pra Kate e colocou as mãos em seus joelhos, olhando em seus olhos. — Kate, eu mantenho o seguinte dilema, que quando chega a hora, não há nada que possamos fazer pra mudar, porque não há o que mudar. Ela simplesmente chega e temos que aceitar, porque é a única coisa que podemos fazer. As vezes pessoas boas e jovens morrem e não entendemos o porquê. Assim como homens como o Bernardo que vivem anos e anos e acabam morrendo velhinhos. Qual o significado? Qual a justiça nisso? Não sabemos, não é nosso dever saber. Então o que nos resta, além de aceitar o destino que nos é imposto e seguir em frente, da melhor forma que pudermos? Os lábios de Kate começaram a tremer, antes dela abraçar Jude, chorando copiosamente. Poderia passar mais mil anos, e Kate não seria capaz de se perdoar pelo que tinha acontecido. Mesmo que parte dela acreditasse na ideia de Jude, que não poderia evitar porque a hora deles havia chegado. Não importava quantas vezes martelasse isso em sua mente, no fim, ela sempre diria que se ela fosse melhor, mais atenta e se os merecesse de verdade, aquilo não tinha acontecido. Andrew foi liberado pelo delegado, pra que descansasse e retornasse no dia seguinte. Ele teria que ficar na casa de Kayla, onde Bryan considerava um local sem risco de fuga. O próprio o escoltaria até lá e, com a agente Harvey ainda no local, ela poderia vigiá-lo de perto. Porém, quando ele enfim colocou os pés pra fora da delegacia, avistou Kate conversando com Jude. Ele se escondeu e pouco depois, ela estava chorando nos braços da agente. Bryan saiu da delegacia e viu Andrew de cabeça baixa, assim como Kate sentada, abraçada a Jude. — Ela estava assistindo tudo, atrás do espelho. Achei que soubesse. Andrew deu um suspiro e ergueu a cabeça. — Delegado, poderia me dar alguns minutos antes de sairmos? — Vou esperá-lo no carro. Não demore. Ele assentiu e esperou que ele se afastasse, pra respirar bem fundo. Em passos cuidadosos, Andrew se aproximou, com as mãos nos bolsos da calça. Jude o viu assim que saiu de trás de uma pilastra. — Melhor você ir. Disse Jude, imperativa. Ele se agachou em frente a amada, que ainda não tinha saído dos braços da amiga. — Kate, será que podemos conversar? Olha, eu não quis te machucar ou ofender. Ela saiu do abraço e olhou pra ele, com a face toda vermelha, nariz entupido e o rosto molhado. — Ninguém nunca vai entender. Por mais que se esforcem. — Do que está falando? Jude se levantou, discretamente, e se afastou. Ela sabia quando era a hora de se retirar. — Suas palavras me fizeram perceber, que se eu não tivesse metido o Lucas e o Nicholas nisso tudo, se eu fosse mais atenta... — Não, Kate, não faça isso. Não foi sua culpa. — Eu não devia ter subestimado o Bernardo. Aquele homem é capaz de tudo e eu não devia ter deixado eles sozinhos, metidos no meu trabalho. Andrew levantou e sentou rapidamente ao lado dela, pegando suas mãos logo em seguida. Era em momentos como aquele que o arrependimento atravessava seu peito e fazia cada batida do seu coração doer. Porém, nada do que ele estivesse sentindo poderia mudar o que aconteceu. — Escuta, você fez o que precisava. Kate, teve a coragem que metade dessa agência jamais teria. Foi forte, coisa que eu nunca fui capaz de ser, pra enfrentar meu pai e acabar com aquele inferno. Não pode carregar a culpa de um incidente como esse. Eu tenho certeza que eles sabiam dos riscos quando aceitou, não é? — Está dizendo que a culpa é deles? — Não, meu bem. É só que assim como você, eles conheciam os riscos, sabiam o que podia acontecer, mas ninguém esperava. Porque simplesmente não devia ter acontecido. Ralph não poderia nunca ter pego naquele volante e... Olha Kate, quero que você entenda, que apenas o Ralph é responsável pela morte deles, e não você, entende? Não poderia prever, mesmo que quisesse, e nem impedir, se fosse da vontade de meu pai, ou se fosse a hora deles. Não há o que fazer quando a morte precisa nos levar. Ele queria se convencer daquelas palavras desesperadamente, tanto quanto precisava que Kate acreditasse. Mas o fato era que apenas ele poderia ter impedido e não o fez. Quem concordou com a ideia de fazer o Lucas e a Kate se separarem tinha sido ele. Quem tinha dito para Ralph continuar, indiretamente, havia sido ele. Como o próprio havia dado a entender, não importava o lugar, o perigo existiria em qualquer estrada.
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