Capítulo 17: Punição

1874 Words
Lucas estava sentado na recepção, segurando um copo de café. Era estranho demais estar ali, depois de semanas de sofrimento e agonia pra sobreviver. Uma luta árdua, sombria e que quase o levou para as profundezas. Mas ao analisar o estrago da sua volta na vida de Kate, começava a pensar se não deveria ter continuado "morto". — Senhor Lucas Wayne? A senhora Williams está o chamando. Ele se dirigiu ao quarto onde Kate estava. Jude ficou na sala de espera, encostada na parede. Ele caminhou nervosamente até o local, tremendo e errando os passos que dava. — Tem alguns minutos. Ela precisa descansar. — Obrigado, enfermeira. Ela saiu e os deixou a sós. Lucas respirou fundo ao entrar e se deparou com Kate olhando para a parede branca e vazia, com a cabeça virada para o lado direito. Ele ficou parado ali, apenas a observando, completamente imóvel. — Kate? Você está aí? Silêncio. Ela não disse absolutamente nada, nem mesmo se mexeu. Lucas deu alguns passos a frente e parou ao lado da cama dela. — Meu amor, eu estou aqui. Kate não respondeu. Ela sabia da sua presença. Sua respiração estava boa. Sua pressão controlada. Mas seu rosto mantinha-se coberto de lágrimas. Lucas sentou ao lado na cama, bem na pontinha, e pegou sua mão. — Eu imagino que deva sentir falta dele, mas... — Ele era um homem bom, Lucas. Assim como você. E os dois pagaram um alto preço por estarem na minha vida. Ele balançou a cabeça em negação. Provavelmente ela se culpava desde o acidente e, pelo jeito, nada mudaria aquele pensamento. — Não diga isso. Não é culpa sua. Kate fungou, buscando limpar o rosto com as lágrimas que não paravam de cair, antes de mudar de assunto. — Sua mãe já te viu? — Ainda não. Eu... não tive coragem de ir lá sozinho. Tenho medo do que possa acontecer. — Nós vamos então. Disse ela, em tom animador. Ou pelo menos, tentando parecer. — Precisa se recuperar primeiro. Alguns dias longe do trabalho e... — Esqueça isso. Tentei tirar férias e olha o que deu, acabei transando com o culpado da morte do meu padrinho e da quase morte do meu noivo. Lucas soltou a mão dela e a recolheu, assim como abaixou a cabeça. Andrew havia deixado claro que algo entre eles tinha acontecido. Além de ter revelado sobre o casamento que acontecera. Porém ouvir aquelas palavras da própria Kate lhe cortou a alma. Kate então notou que tinha falo demais e tentou amenizar a situação. — Lucas... — Está tudo bem. Você tinha o direito de seguir sua vida. Ela balançou a cabeça, respirando bem fundo. Toda vez que vinha a sua cabeça os momentos, que antes tinham sido maravilhosos, ao lado de Andrew, vinha um enjoo forte atropelando tudo. — Mas não assim, tão rápido, com um homem responsável por dezenas de crimes. Se eu tivesse por perto, ao menos poderia... — Não, Kate. Tudo tem sua hora. Acho que pensar nisso só vai lhe torturar ainda mais. — Talvez seja o que eu mereça. Respondeu melancólica, em tom de autopiedade. Não combinava muito com ela, mas o que Kate mais queria fazer era arrumar alguma forma de se punir pelos acontecimentos que ela não podia controlar. — Acho que você merece um descanso, um tempo pra cuidar de si. Ponderou Lucas, imaginando que pelo tempo, ela ainda não tinha conseguido ver algum psicólogo para ajudar a superar aquela fase difícil, que todo agente infiltrado passava. — Eu quero dizer que você estar aqui é bom demais. Obrigada por voltar a minha vida. Lucas levantou e deu uma risadinha. Kate arqueou uma sobrancelha, o observando. — Eu só atrapalhei. Baguncei sua história com o Andrew, mesmo ele sendo um canalha dos piores. Trouxe confusão e de quebra te fiz chegar até aqui. — Não diga uma merda dessas, não é justo com nenhum de nós. Eu... eu estou contente que você esteja vivo. E eu sei que o Nick daria a vida por você, se pudesse. Além disso, não é nada demais ter uma crise, todos passam por isso uma vez na vida, pelo menos. — Não lembro bem dele, mas tenho certeza que faria o mesmo por ele. Principalmente se pudesse evitar seu sofrimento e lhe dar um pouco de alegria. Kate deixou que os lábios se curvassem em um singelo sorriso, enquanto apreciava aquele momento tão único e especial. Nunca em sua vida poderia imaginar que veria aquele rosto de novo. Que seus olhos pudessem cruzar com os dele, sempre tão doces e genuínos. Que um dia poderia tocar novamente em seus cabelos castanhos e lisos outra vez. — No final das contas, eu precisava de vocês dois aqui. Um complementava o outro. Mas só de te ter, é melhor do que não ter nenhum. Lucas sentou ao lado dela novamente e segurou sua mão, ficando ali em silêncio durante um minuto ou dois. Foi então que uma questão que estava o perturbando surgiu em sua mente. Ele não tinha certeza se aquela ideia era boa naquele momento. Mas precisava saber o quanto antes, até mesmo pra lidar com situações futuras. — Me responde uma pergunta, com sinceridade, se você estiver confortável pra isso. Você está apaixonada pelo Andrew? Ou estava, antes de descobrir o que ele fez? Porque nós dois sabemos que mesmo com raiva, os sentimentos que tem por ele não vão desaparecer de imediato. Kate não tinha uma resposta simples pra aquela pergunta. Não era um sim ou não, mas algo tão estranhamente complicado de entender que até ela tinha dificuldades. — Quando a missão acabou, eu não sabia o que dizer em relação aos meus sentimentos por ele. Eu estava gostando dele, mas também tinha muita dor, raiva, magoa acumulados e... ainda sentia você batendo dentro de mim. O tempo que Andrew e eu passamos juntos foi maravilhoso, não posso negar. E não tínhamos certeza sobre o que faríamos em relação ao casamento, que realmente aconteceu. Mas eu estava disposta a tentar uma vida com ele, ainda que não parasse de pensar em você e que todo dia doesse como se fosse o primeiro. — Você não respondeu minha pergunta. Está apaixonada por ele? As sobrancelhas tensionadas deixava claro para Kate que Lucas precisava daquela resposta. Não queria uma construção de como estava se sentindo e como havia chegado àquilo, mesmo ela não se considerando capaz de dizer, ele tinha de ouvir um sim ou não. Kate respirou fundo, olhando para as mãos dos dois juntas. Eram tantos sentimentos envolvidos que ela temia dar a resposta errada e estragar tudo entre eles. No entanto, sabia o que precisava dizer e não era justo tentar ocultar ou mentir porque estava com medo. Ela estava naquela cama justamente porque Andrew teve medo de encarar as consequências de suas ações e permitiu que ela acreditasse em uma mentira, e isso a machucou ainda mais do que se ele tivesse lhe revelado a verdade. — Eu acho que sim. Andrew foi muito apoiador, me protegeu como pode, foi parceiro e não pensou duas vezes em trair todo mundo daquela Máfia pra acabar com tudo. Mas sabendo o que ele fez... eu nem mesmo consigo pensar na ideia em dividir um quarto com ele, quem dirás uma vida. Lucas soltou a mão dela novamente e deu um suspiro, levantou e cruzou os braços em seguida. — Se eu não tivesse aparecido, se nunca recuperasse a memória, vocês viveriam felizes para sempre. — Não temos como saber. Nós dois temos muitas diferenças também. Discutimos sobre algumas coisas. Ele não entende sobre meu trabalho como você. Mesmo tendo visto tão de perto a importância de tudo. Mas se um dia ele realmente me contasse ou eu descobrisse de alguma forma, o conto de fadas acabaria. No fundo até ele sabe disso. Lucas balançou a cabeça, enquanto encarava a parede branca e fria. Sua mente estava fervilhando com pensamentos, desejos e ideias. — Eu não sei o que pensar disso tudo. Vocês... nós... Tudo mudou, entende? Nada vai ser como antes, eu acho. — No fundo, não tem como ser, não é? Mesmo que eu não tivesse me envolvido com o Andrew, as coisas seriam diferentes. O que precisei fazer para chegar até o fim, o que você teve de enfrentar pra sobreviver. Isso mudou nossas vidas, Lucas. Mas não nossos sentimentos. — Eu não sei dizer o que sinto por você agora. Minha cabeça está confusa demais e... talvez nosso tempo tenha passado. Ele não queria ter dito daquela forma. Nem mesmo sabia se era verdade o que sua mente ficava insistindo pra repetir, mas para seu cérebro, era uma forma de puni-la por magoá-lo tanto. Porém, quando se deu conta, a frase havia saído de forma raivosa e objetiva, como se não pudesse mais estar com ela por conta do que aconteceu entre ela e Andrew. No entanto, no fundo ele sabia que não era justo puni-la por isso. Kate olhou pra ele. Seu torso rígido, sua barba grande por fazer, seu olhar distante e confuso. Aquilo tudo dizia muito mais do que as palavras de Lucas. Ele estava magoado, acuado e confuso. Tudo havia sido demais pra ele e ela podia entender. Voltar dos mortos e encontrar sua noiva casada com outro homem, depois de sobreviver ao impossível e de ter uma memória cheia de falhas, não era nada fácil. Principalmente se esse homem fosse o responsável pela sua quase morte. — É uma forma bonita de dizer que não quer mais nada comigo. — Desculpe, eu devia ter esperado antes de termos essa conversa. Eu ainda quero te ajudar e também preciso que faça isso por mim, pela minha mãe. Mas eu não posso... não consigo... Ela deu um pequeno sorriso, de desapontamento, como se esperasse por aquilo. — Está tudo bem, Lucas. Não é a primeira vez que me deixam. É melhor você ir. — Mas Kate... — A Jude tem a chave de onde a gente morava. Pode se instalar lá pelo tempo que precisar. Agora por favor, me deixe sozinha. Lucas não queria deixá-la. No fundo sabia que estava cometendo um grande erro, mas não queria ficar no meio daquela confusão com Andrew, principalmente porque estavam casados no papel e isso mudaria absolutamente tudo entre eles. No entanto, ele devia ter esperado pelo menos ela estar em casa antes de ter aquela conversa. Respeitando o pedido dela, ele se retirou, sem dizer mais nada. Talvez não fosse a hora, melhor deixar que ela se recuperasse totalmente antes de decidir sobre o futuro de ambos. Porém, estava feito. E um aperto em seu peito começou logo que saiu daquela sala. Uma vontade absurda de chorar tomou conta dele, que respirou fundo algumas vezes e não deixou ninguém ver as poucas lágrimas que ele não conseguiu segurar. Jude quis entrar no quarto, mas Kate havia pedido para suspender as visitas por conta do seu estado emocional abalado. Então a agente do FBI ficou sem ter o que fazer. Ela entregou a cópia reserva da casa para Lucas, que não disse nada mais desde que voltou do quarto de Kate. — O que aconteceu lá? — Estraguei tudo, pra variar.
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