Capítulo 1: A rejeição
A lua cheia já tinha subido por trás das montanhas quando Isabella Noctharis atravessou o pátio de pedra da Casa da Lua.
A luz prateada caía em cima das bandeiras pretas e prata, das tochas acesas e dos rostos que viraram na mesma hora pra olhar pra ela. Cada passo parecia puxar ela pra mais perto de uma resposta que ela esperou por anos.
Ela escolheu um vestido azul-escuro, simples, sem nenhuma joia. Justamente pra não chamar atenção. Mesmo assim, todo mundo olhou. Alguns com curiosidade, outros com aquela pena que dói mais que julgamento. Quando você é Ômega, o silêncio dos outros fala alto demais.
A cerimônia de Lua Cheia era a noite mais importante da matilha. Todo mundo se reunia no círculo de pedras pra renovar alianças, confirmar cargos e celebrar os laços que seguravam a comunidade de pé. Isabella já tinha ficado ali outras vezes, sempre na beirada. Ajudando nas mesas, levando recado, sendo invisível.
Naquela noite foi diferente. Zarek pediu pra ela ir. O Alfa disse, na frente da cozinha, que precisava falar com ela diante de todos. Ele não explicou o que era. E ela, mesmo tentando não criar expectativa, deixou a esperança crescer.
Desde pequena ela aprendeu a segurar as próprias expectativas pra não se machucar tanto. A mãe dela, Mara, vivia dizendo que gentileza não é promessa. Que quem fica quieta no canto tem que aprender a escutar direito.
Isabella escutou. Mas não conseguiu apagar o jeito que Zarek tratava ela quando ninguém estava olhando.
Ele perguntava se ela tinha comido. Lembrava que ela odiava multidão. Uma vez, numa tempestade horrível, ela ficou presa no depósito e ele ficou do lado de fora com ela até a chuva passar, sem falar nada. Eram coisas pequenas. Talvez só educação. Ela guardou tudo como se fosse pista.
Zarek Varkhan estava no centro do círculo. Todo de preto, postura reta, cabelo escuro jogado pra trás. Ele não precisava fazer esforço pra chamar atenção. A presença dele simplesmente mandava.
Era o Alfa da Lua n***a. Novo demais pros mais velhos confiarem totalmente, forte demais pra alguém ter coragem de falar isso em voz alta. Quando os olhos dele encontraram os dela, Isabella sentiu aquele aperto conhecido no peito. O laço de companheiros — que ela tinha certeza que reconhecia — deu aquela puxada, como um fio sendo esticado.
Ela se aproximou sem pressa. Tentando não parecer ansiosa.
Na borda do círculo, Elena Voss conversava com os conselheiros. Alta, impecável, cabelo loiro preso num coque perfeito, um vestido vermelho que gritava no meio de tanto preto. Elena era filha de uma família aliada e entrou pra matilha há poucos meses. De repente, Zarek começou a consultar ela pra tudo.
Isabella se recusava a chamar aquilo de ciúme. Se tivesse alguma coisa real entre ela e o Alfa, ele ia dizer naquela noite.
O Beta, Dorian, ergueu a mão pedindo silêncio. Aos poucos as conversas morreram. Isabella ficou a dois passos de Zarek. As mãos estavam geladas, mesmo com o calor das tochas. Ele não estendeu a mão. Não sorriu. Ela pensou que talvez fosse parte do protocolo da cerimônia.
— Irmãos da Lua n***a — ele começou. — Hoje à noite a gente precisa tomar uma decisão importante pro futuro da matilha.
O coração da Isabella disparou. Zarek começou a falar de ataques nas rotas de carga, das fronteiras ficando instáveis, da necessidade de garantir aliados fortes. A voz dele era firme, controlada, treinada pra não mostrar dúvida nenhuma.
Ela ouvia cada palavra, mas a ansiedade embaralhava tudo. Se ele queria anunciar uma união, fazia sentido começar pela política. Todo mundo precisava entender o peso da escolha.
— A matilha não pode confundir afeto com força — ele disse. — Um Alfa precisa de alguém do lado que aguente o peso do cargo. Alguém que não quebre sob pressão.
A palavra afeto acendeu uma esperança dolorosa nela. Isabella se segurou pra não olhar pra Elena.
Zarek virou os olhos direto pra ela.
— Isabella, vem aqui na frente.
Não soou como convite. Soou como ordem. Mesmo assim, ela obedeceu.
A pedra embaixo do sapato dela era toda irregular. Ela sentia o peso do olhar de todo mundo nos ombros. E lembrou da mãe. Morta há dois invernos. Da última conversa das duas.
“Não deixa ninguém escolher o tamanho da sua vida por você.”
Na época ela achou que Mara falava da cozinha, das regras da Casa, da posição de Ômega. Só entendeu de verdade ali, naquele círculo.
— Você é uma Ômega — Zarek continuou, com a voz mais baixa, mas todo mundo ouvia. — Sempre foi protegida pela gente. Mas proteção não é liderança. Você é gentil, Isabella. Só que gentileza não basta. Sua fragilidade coloca todo mundo em risco.
Uma risadinha curta escapou de algum lugar atrás dela. Depois outra. A vergonha chegou antes da raiva. Quente, instantânea, como se alguém abrisse uma porta no peito dela e deixasse o frio entrar de uma vez.
Isabella procurou nos olhos dele qualquer hesitação. Qualquer sinal de que aquilo era só formalidade e que depois ele ia explicar tudo em particular. Não achou nada.
— Eu achei que você queria conversar comigo — ela disse. A própria voz saiu distante, como se não fosse dela.
— Eu estou conversando com você agora.
— Em público?
A expressão dele ficou mais dura. Talvez ele esperasse que ela abaixasse a cabeça e aceitasse. Como sempre fez. Durante anos ela cedeu a cadeira, o lugar, a palavra. Aprendeu a chamar a própria ausência de paz.
Naquela noite, uma parte dela ainda queria facilitar pra ele. A outra parte, pequena e machucada, se recusou a sumir sem entender.
— Eu não vou deixar a matilha achar que o que a gente tem é uma promessa — ele disse. — Não existe futuro entre nós.
O círculo pareceu fechar em volta dela. Isabella tentou respirar fundo, mas o ar estava pesado de fumaça, de terra molhada e dele. A dor não era só de ser recusada. Tinha uma coisa mais funda, mais antiga, se debatendo contra as palavras do Alfa. Um calor rápido correu pelo peito dela e logo depois veio um gelo estranho.
— Está encerrado — Zarek falou, mais alto agora, pra todos ouvirem. — Eu, Zarek Varkhan, Alfa da Lua n***a, rejeito você como minha companheira.
O laço estalou dentro dela.
Não teve barulho que os outros pudessem ouvir, mas Isabella sentiu. Como uma corda cortada de uma vez só. O joelho quase dobrou. Um murmúrio atravessou o círculo. Ela não caiu. Segurou o queixo erguido porque era a única coisa que ainda conseguia controlar.
Zarek se virou para Elena. E o rosto dele mudou. Perdeu aquela rigidez toda por um segundo. Ele estendeu a mão pra ela, na frente de todo mundo.
— Em nome da Lua n***a, proponho uma aliança formal com Elena Voss e a família dela. Com ela do meu lado, a matilha tem força pra enfrentar qualquer ameaça.
Elena pegou a mão dele. Sem nenhuma surpresa no rosto. Isabella percebeu na hora o jeito que ela olhava pro Alfa. Confiante, tranquila. Como quem já sabia o final daquela cena desde o começo.
A cerimônia inteira se rearranjou em torno dos dois. Os conselheiros concordaram com a cabeça. Alguém começou a bater palma. O som se espalhou pelo pátio, primeiro tímido, depois mais alto, mais certo de si.
Ela não ia lembrar depois de quem riu. Ia lembrar do peso daquele aplauso, da luz das tochas tremendo e do silêncio absoluto sobre ela. Ninguém perguntou se ela estava bem. O rosto do Dorian se contraiu, mas ele continuou parado no mesmo lugar. Talvez também estivesse preso na política. Isabella não queria desculpa de ninguém.
— Eu nunca pedi pra você me proteger — ela disse pra Zarek.
Ele voltou a olhar pra ela, já impaciente.
— Isabella, não piora as coisas.
— Piora pra quem?
A pergunta saiu baixa, sem tremer. A expressão dele se fechou de vez. Por um segundo ela achou que ele finalmente ia ser honesto. Em vez disso, Zarek se virou de novo pra Elena e pros conselheiros.
Isabella saiu do círculo. Ninguém tentou impedir. Atravessou o pátio ouvindo as conversas voltarem atrás dela, como se nada tivesse acontecido. Quando passou pelas mesas, esbarrou num copo sem querer. O vinho escorreu pelos dedos dela. Ela nem parou pra limpar.
A porta lateral da Casa da Lua dava direto pra trilha que descia pro bosque. Ela foi por ali, sem olhar pra trás.
Assim que entrou na primeira fileira de árvores, as tochas sumiram. O bosque estava frio, o chão fofo e úmido nos pés. Ela andou rápido, sem saber exatamente pra onde. As vozes ficaram pra trás, trocadas pelo barulho de folhas e pela respiração dela, curta e alta. Uma dor funda apertava o peito, bem onde o laço tinha rompido. A cada passo ela esperava ouvir os passos dele atrás. Não pra voltar atrás na rejeição, mas pelo menos pra dizer que aquilo não foi justo. Ninguém veio.
Quando chegou na estrada de serviço, ela parou do lado do marco de pedra que marcava o limite do território. Tinha deixado o casaco lá dentro. O vestido fino não segurava nada do vento. Pensou em voltar pra pegar as coisas, mas só de imaginar o círculo de novo, os rostos, a Elena do lado dele, o estômago dela revirou. Continuou andando.
Um galho estalou atrás dela.
Isabella se virou na hora. Não viu ninguém entre as árvores. O instinto de loba, abafado por anos de vida como Ômega, acordou primeiro que a lógica. Ela ouviu o motor antes de ver a luz.
Faróis apareceram na curva. Cresceram rápido. Um sedã preto diminuiu e parou a poucos metros dela.
A porta de trás abriu. Um homem de terno escuro desceu, sem arma à mostra, sem pressa de quem vai capturar alguém. Ele olhou pra Isabella como se já soubesse exatamente quem ela era. Lá dentro, o carro estava iluminado por uma luz dourada suave.
— Senhorita Noctharis — ele disse, inclinando levemente a cabeça. — A gente veio buscar a senhorita.
Isabella ficou parada, sem se mexer.
O sobrenome da mãe dela nunca foi Noctharis.
O homem abriu a porta por completo e esperou. A estrada vazia se estendia atrás dela. O bosque escuro, na frente.