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1258 Words
CONTINUAÇÃO... Todo mundo me avisou. Minha irmã. A Júlia. Até a esposa de um sócio dele, num churrasco, me puxou de canto e disse, quase sussurrando, que era bom eu ficar de olho na secretária nova. Eu ri. Disse que o Ricardo não era assim. Que ele trabalhava demais, só isso. Que as pessoas tinham inveja do nosso casamento. Defendi o meu marido para quem estava tentando me proteger dele. No dia do nosso aniversário de dez anos de casados, acordei cedo e fiz o bolo de que ele mais gostava. Laranja com calda de chocolate, receita da minha avó. Deixei os meninos na escola, me arrumei, coloquei um vestido que eu achava bonito e fui até o escritório dele sem avisar. Queria fazer uma surpresa. Queria lembrar a ele quem nós éramos antes. A recepcionista ficou pálida quando me viu. Tentou me segurar, disse que ele estava em reunião, perguntou se eu não preferia esperar. Eu sorri, disse que era rapidinho, e segui pelo corredor com a caixa do bolo nas mãos. A porta da sala dele estava encostada. Não vou dizer tudo o que eu vi. Nem para mim mesma eu gosto de lembrar inteiro. Só lembro da mão dele na cintura dela. Da boca dela no pescoço dele. Do jeito como ela se afastou num pulo quando me viu, arrumando a blusa. E lembro do bolo caindo no chão. Ricardo se levantou rápido, arrumando a camisa. — Bruna, não é o que você está pensando. Era exatamente o que eu estava pensando. Era exatamente o que todo mundo tinha tentado me dizer. Naquela noite, depois de colocar os meninos para dormir, sentei na frente dele na sala e disse que queria a separação. A minha voz saiu firme. Eu mesma me surpreendi. Ele não gritou. Ricardo nunca gritava. Só cruzou as pernas, se recostou no sofá e me olhou com aquela calma que eu tinha aprendido a temer. — Você pode ir embora, Bruna. A porta está aberta. Mas os meninos ficam. — Eles são meus filhos. — São nossos. E quem tem dinheiro, advogado e nome nessa cidade sou eu. Você tem o quê? Pensa bem. Que juiz vai dar a guarda pra uma mulher sem emprego, sem renda, que não sai de casa há anos? Depois ele se levantou, foi até o bar, se serviu de uísque e completou, de costas para mim: — E olha pra você. Acha mesmo que vai encontrar coisa melhor lá fora? Eu não respondi. Fui para o quarto dos meninos e fiquei sentada no chão, entre as duas camas, ouvindo os dois respirarem até o dia clarear. Uma semana depois, numa madrugada em que ele viajou a trabalho, eu fiz as malas. Foi a Júlia quem me convenceu a vir. — Aqui o nome dele não vale nada, amiga. Dinheiro de lá não manda aqui. Vem pra cá. Pelo menos até você ficar de pé. E eu vim. — É até aqui que eu posso ir, dona. O táxi parou numa rua íngreme, perto de uma pracinha com um campinho de terra e uns bancos de cimento. Mais à frente, a rua se estreitava e virava uma subida. Paguei a corrida e dei uma gorjeta maior do que devia. O taxista tirou as malas, colocou do meu lado e ficou parado um segundo, como se quisesse dizer alguma coisa. — Vai com Deus, moça. — Amém. Obrigada por tudo. Ele entrou no carro e foi embora. E eu fiquei ali, com duas crianças, duas malas e a sensação de que todo mundo naquela rua estava olhando para mim. Talvez estivesse mesmo. — Segura a mão do seu irmão, Alexandre. — Tô segurando. Puxei as duas malas, uma em cada mão, e subi devagar. As rodinhas trepidavam no asfalto quebrado. Vitor apertava minha calça com uma mão e a do irmão com a outra. Lá em cima, onde a rua fazia uma curva, havia quatro rapazes. Dois sentados num muro baixo, um em pé encostado num poste, outro com um rádio preso no peito. Bermuda, chinelo, boné. Um deles tinha algo atravessado no corpo que eu preferi não olhar direito. Meu coração começou a bater no ouvido. Eu tinha visto aquilo em reportagem, em filme, em notícia de jornal. Nunca a três passos de distância, com os meus filhos do lado. Não chora. Não treme. Não deixa os meninos verem. O que estava em pé se afastou do poste quando nos viu chegar. — Qual foi, tia? Tá perdida? — Boa tarde — falei, e me odiei pela voz um pouco fina demais. Respirei e tentei de novo. — Boa tarde. Eu não estou perdida, não. Sou amiga da Júlia. — Júlia de quem? Aqui tem umas três Júlia. — Júlia Santos. Ela trabalha no salão, ela... Ele olhou as malas. Depois os tênis dos meninos. Depois o celular na minha mão. O mesmo olhar do taxista, só que mais desconfiado. — Sei não, tia. Ninguém passou nada de visita pra cá hoje, não. Alexandre se colocou um pouco na frente do irmão. Eu vi aquilo e quase perdi o ar. Meu menino de oito anos, querendo proteger o caçula. Coloquei a mão no ombro dele e puxei de volta para perto de mim. — AMIGA! O grito veio de cima. Levantei o rosto e lá estava ela, descendo a ladeira quase correndo, de chinelo, short jeans e o cabelo preso num coque alto, os braços já abertos. Júlia. O alívio veio tão forte que as minhas pernas amoleceram. Só naquele segundo percebi que estava segurando a respiração. Ela me abraçou com força, daquele jeito que só ela abraça, me balançando de um lado para o outro. Depois se abaixou e encheu os meninos de beijos. — Olha o tamanho desses meninos! Vitor, você tava desse tamaninho da última vez! Alexandre, tá quase um homem! Vitor riu. Alexandre ficou vermelho, mas eu vi o ombro dele relaxar. Júlia se levantou, colocou a mão na cintura e virou para os rapazes. — Pode liberar, Biel. É a minha amiga que eu falei. Já tá tudo certo com o DK. O rapaz trocou um olhar com o do rádio. — Ô, Júlia, sem neurose. Mas o patrão não passou nada disso pra gente, não. Tu sabe como é. Se eu deixo subir e der problema, quem vai ter que explicar sou eu. — Mas eu falei com ele ontem! — Pode ter falado. Mas pra cá não chegou a visão. Júlia bufou e cruzou os braços. — Então confirma aí. Chama ele no rádio e pergunta. O rapaz hesitou por um segundo. Depois tirou o rádio do peito e apertou o botão. O aparelho chiou. — Aí, patrão. Na escuta? É o Biel, na entrada de baixo... Eu fiquei parada, com uma mão em cada filho, enquanto ele falava. A tarde estava quente, um cachorro latia em algum lugar, alguém ouvia funk alto numa laje. E eu pensei que tinha fugido de uma casa onde eu precisava pedir permissão para existir. Onde eu precisava da aprovação de um homem para escolher um vestido, para tocar no meu próprio marido, para sair com os meus filhos. Agora estava parada na porta de um lugar onde até para entrar eu precisava da permissão de alguém. De um homem que eu nunca tinha visto, que não sabia o meu nome, que talvez nem soubesse que eu existia. E, mesmo assim, a minha vida inteira e a dos meus filhos estavam esperando pela resposta dele. O rádio chiou de novo. Eu prendi a respiração.
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