01
BRUNA NARRANDO
O ônibus parou na plataforma com um suspiro longo, como se também estivesse cansado da viagem.
Vitor dormia com a cabeça no meu colo, a boca entreaberta e a mão ainda agarrada na manga do meu casaco. Alexandre, encostado na janela, já estava acordado havia um tempo. Eu sabia porque ele não tinha dito uma palavra desde que o dia clareou. Meu filho mais velho tem oito anos, mas às vezes me olha como se tivesse quarenta.
— Chegamos, mãe?
— Chegamos, meu amor.
Passei a mão no cabelo do Vitor devagar, do jeito que eu fazia quando ele era bebê.
— Acorda, meu amor. A gente chegou.
Ele resmungou, esfregou os olhos e se sentou ainda meio mole, sem saber direito onde estava. Eu também não sabia direito onde estava. Só sabia que não podia voltar.
Descer do ônibus com duas crianças, duas malas grandes, uma mochila e uma bolsa no ombro foi quase uma operação de guerra. O motorista me ajudou a tirar as malas do bagageiro, e eu agradeci tantas vezes que ele chegou a sorrir sem graça.
A rodoviária estava cheia. Gente apressada, gente chegando, gente indo embora. Vendedor gritando preço de água, criança chorando, cheiro de café queimado misturado com fritura. Eu me peguei pensando que aquele salgado devia estar com o óleo velho e quase ri de mim mesma. Anos longe de uma cozinha profissional e o olho continuava o mesmo.
Segurei a mão do Vitor com força. Alexandre puxava a mala menor sozinho, porque fez questão.
— Eu consigo, mãe.
— Eu sei que consegue.
Percebi alguns olhares em nós. Uma mulher olhou as malas, depois o meu relógio, depois os tênis dos meninos. Eu sabia o que ela estava vendo. A bagagem de couro que Ricardo trouxe de uma viagem, a roupa boa, os celulares. Coisas que pareciam dizer que a minha vida estava resolvida.
Ninguém olha para uma mala cara e imagina que ela foi feita às pressas, de madrugada, com as mãos tremendo.
Na fila do táxi, ajeitei a gola da blusa do Alexandre e conferi pela terceira vez se o Vitor estava com o casaco fechado.
— Vocês estão com fome?
— Um pouco — disse Vitor.
— Tem biscoito na mochila. Quando a gente chegar na casa da tia Júlia, eu faço uma comida de verdade, tá bom?
— Aquele macarrão com o molho vermelho que você faz?
— Se tiver tomate, faço sim.
Ele sorriu. Foi o primeiro sorriso dele no dia, e eu me agarrei naquilo como se fosse uma boia.
O táxi parou na nossa frente. Um homem mais velho, de cabelo grisalho e bigode, desceu para colocar as malas no porta-malas. Ele pesou a primeira com as duas mãos e soltou um assobio baixo.
— Tá levando a casa inteira, hein, moça?
— Quase isso.
Coloquei os meninos no banco de trás e entrei no meio deles. Prendi o cinto do Vitor, puxei a fivela para ver se tinha travado e só depois prendi o meu.
— Pra onde a senhora vai?
Morro do Turano.
Ele não deu a partida de imediato. Olhou pelo retrovisor, primeiro para mim, depois para os meninos, depois para mim de novo. Era o mesmo olhar da mulher da rodoviária, só que agora com uma pergunta escrita nele.
— Pro morro mesmo, dona?
— Isso. Pode me deixar até onde o senhor conseguir subir.
— A senhora conhece alguém lá?
— Conheço. Vou ficar na casa de uma amiga.
Ele balançou a cabeça devagar, como quem decide não perguntar mais nada, e finalmente engatou a marcha.
— Então tá bom.
O carro saiu da rodoviária e entrou no trânsito. Vitor encostou a cabeça no meu braço. Alexandre ficou olhando pela janela. E eu fiquei olhando para as minhas próprias mãos, sem aliança pela primeira vez em dez anos.
A marca ainda estava lá. Uma faixa mais clara na pele, fina, como uma cicatriz que ainda não tinha decidido se ia sumir.
Você já se olhou no espelho hoje, Bruna?
Foi assim que começou. Não com um grito, não com uma briga. Com uma pergunta feita no tom mais tranquilo do mundo, enquanto ele ajeitava a gravata e eu escolhia um vestido para o jantar da empresa.
Eu tinha acabado de ter o Vitor. Meu corpo ainda era um território estranho até para mim. Os s***s pesados, a barriga que não voltava, as coxas que roçavam uma na outra quando eu andava. Eu me olhava no espelho e tentava me reconhecer. Precisava que alguém me ajudasse a fazer isso.
Ricardo me olhou de cima a baixo e disse aquilo. Depois sorriu, como se fosse uma brincadeira.
Troquei de vestido. Coloquei um preto, mais largo. Ele não comentou nada, e eu entendi que o silêncio dele era a aprovação que eu ia receber.
— Mãe?
Pisquei. Alexandre estava me olhando.
— Oi, filho.
— Você tá triste?
— Não, meu amor. Tô só cansada da viagem.
Ele não acreditou. Eu vi que não. Mas também não insistiu, e isso doeu mais do que se tivesse insistido. Meu filho de oito anos já tinha aprendido a fingir que acreditava em mim.
O táxi parou num sinal. Do lado de fora, uma mulher vendia milho cozido num carrinho. Vitor apontou e pediu, e eu prometi que outro dia a gente comprava.
Antes do Ricardo, eu era a primeira a chegar no restaurante e a última a sair. Chefe de cozinha aos vinte e três anos, com uma equipe de oito pessoas que me chamava de "chef" com um respeito que eu tinha conquistado prato por prato. Eu conhecia o ponto de uma carne pelo som que ela fazia na chapa. Sabia quando um molho precisava de mais tempo só pelo cheiro.
Foi lá que o Ricardo me conheceu. Ele pediu para cumprimentar quem tinha feito o risoto, e eu saí da cozinha de dólmã sujo de manteiga e cabelo preso de qualquer jeito. Ele disse que nunca tinha comido nada tão bom na vida. Disse que queria comer aquilo todos os dias.
Na época, achei bonito.
Depois do casamento, ele disse que mulher dele não precisava trabalhar até de madrugada no meio de panela. Que eu merecia descansar. Que ele cuidava de tudo. E eu, apaixonada, achei que aquilo era amor.
Só bem depois eu entendi que, quando um homem cuida de tudo, ele também passa a decidir tudo.
O dinheiro que eu tinha guardado daqueles anos de restaurante continuava numa conta no meu nome. Nunca toquei nele. Às vezes nem lembrava que existia. Agora, era tudo o que eu tinha. E era suficiente para começar. Eu sabia cozinhar. Sabia fazer comida que as pessoas pagavam para comer. Isso ninguém tinha tirado de mim.
Pelo menos, foi o que eu repeti para mim mesma enquanto o táxi seguia.
Agora não, Bruna. Tá calor.
Era uma noite qualquer, depois que os meninos dormiram. Eu tinha passado creme, colocado uma camisola nova que comprei escondida, com vergonha da vendedora. Me aproximei dele na cama e encostei o rosto nas costas dele. Passei o braço pela cintura.
Ele tirou a minha mão como quem tira um mosquito.
Não se virou. Não olhou para mim. Só pegou o celular na mesinha de cabeceira e ficou mexendo, a tela iluminando o rosto dele no escuro.
Fiquei deitada do meu lado da cama, olhando para o teto, tentando não fazer barulho para chorar. Na manhã seguinte, joguei a camisola no fundo da gaveta e nunca mais usei.
Depois disso, parei de procurar. E ele nunca percebeu que eu tinha parado.
— Mãe, falta muito?
— Acho que não, Vitor. Né, moço?
— Uns dez minutos — respondeu o taxista, me olhando de novo pelo retrovisor. — A senhora tá bem?
— Tô sim. Obrigada.
A paisagem começou a mudar. As ruas largas foram ficando estreitas. Os prédios deram lugar a casas coladas umas nas outras, umas pintadas, outras no tijolo, empilhadas morro acima como se tivessem crescido ali sozinhas. Fios embolados nos postes. Roupa estendida nas lajes. Um cheiro de feijão vindo de algum lugar.
Alexandre se inclinou para ver melhor.
— É aqui que a gente vai morar?
— Por um tempo, filho. Até a mamãe se organizar.
— E a escola?
— A gente vai resolver tudo. Eu prometo.
Eu não sabia como ia resolver tudo. Mas prometi do mesmo jeito, porque mãe é isso. A gente promete primeiro e descobre como cumprir depois.
CONTINUA...