Vivian
Corro para tirar todas as minhas bagagens do carro enquanto Matteo está no banho porque eu sinto que já tive o suficiente dele pelo resto do ano. Só posso esperar que as nossas interseções sejam reduzidas a zero nas próximas semanas. Mas, só por garantia, levo a chave do meu carro comigo, afinal eu preciso comer e não há como eu fazer isso sem o meu carro, uma vez que os armários estão vazios e mesmo que não estivessem não é como se eu já tivesse cozinhado alguma vez na minha vida.
Depois que eu escuto o barulho da porta da frente sendo aberta e fechada, deixando claro que Matteo não se encontra mais nesta casa e só então sinto que posso respirar normalmente outra vez.
Eu sinto que Matteo é muito demandante. Ele demanda muito da minha energia e eu não sei se tenho muito mais para dar a ele.
Me arrumo para ir até o restaurante, no momento em que estou terminando de dar os toques finais o meu telefone toca e eu suspiro ao ver que é Vic.
Não me entenda m*l, eu amo Vic mais do que eu amo todas as outras pessoas na minha vida, ma so fato é que eu nunca, em todos os meus vinte e três anos de vida, eu menti para ele e eu sei com toda a certeza que eu precisarei fazer isso agora, uma vez que não tem como ele não me questionar sobre Matteo e se eu falasse a verdade, que nós dois estamos dividindo uma casa, ele pegará o primeiro avião e viria até mim e faria o possível e o impossível para fazer com que eu desistisse da competição.
Forçando um sorriso no rosto, atendo a sua ligação.
— Hey, Vic, como você está? — falo e não preciso fingir alegria agora, porque eu realmente amo o meu irmão.
— Hey, estranha! — ele fala com um sorriso igualmente enorme no rosto, o que se torna possível para eu ver uma vez que estamos em vídeo chamada — Eu estou ótimo, é você que me preocupa estando aí no meio do nada.
— Por favor, não se preocupe, você sabe que provavelmente eu estou melhor do que você estaria se estivesse na minha situação. — falo e não estou exagerando. Victor é sem sombra de dúvidas um filhinho da cidade grande.
— Tenho certeza que sim, Vivi. — ele fala — E como estão as coisas aí? Você já conheceu a empresa que deve trazer de volta a vida?
— Eu apenas li os papéis, mas ainda não fui até lá para conhecer realmente o problema que me espera. — digo — Eu tirei o dia de hoje para me instalar na nova casa. — digo, o que é uma mentira e mesmo que seja algo tão pequeno, tão insignificante, é o suficiente para fazer com que um gosto amargo se aposse da minha boca.
A verdade é que eu teria ido conhecer a empresa hoje se Matteo não tivesse roubado o meu carro tão descaradamente.
— Tenho certeza que você irá tirar isso de letra, irmãzinha. — ele fala e o seu excesso de confiança em mim só faz com que eu me sinta ainda mais doente — Você já o viu? Aquele que não deve ser nomeado? — ele fala tentando fazer graça.
O meu sorriso, nesse momento, parece falso até para mim.
— Não o vi e nem pretendo. A cidade é pequena, mas não tanto, Vic. — minto e sinto vontade de vomitar.
Eu odeio que a primeira vez que eu esteja mentindo para Vic seja por causa de Matteo. Eu nunca menti para o meu irmão em toda a minha vida, até quando eu perdi a minha virgindade ele foi a primeira pessoa para quem eu contei. Mesmo quando eu acabei beijando Matteo em uma brincadeira i****a qualquer eu contei para ele e a reação dele obviamente que não foi das melhores e tudo isso foi bem antes de toda a situação de Evelyn, eu nem imagino o que ele faria agora se soubesse que estamos morando "juntos".
Eu estou fazendo isso para o próprio bem de Vic. — digo mentalmente, tentando convencer a mim mesma.
— Ei, Vic, posso ligar para você outra hora? — digo, incapaz de conseguir sustentar a mentira por mais tempo —Eu preciso ir em busca de algo para comer aqui.
— Claro, não me deixe ficar em seu caminho, Vivi. — ele fala — Eu amo você.
Adagas são enfiadas em meu coração e eu me sinto a pior irmã e pessoa do mundo.
— Também amo você, Vic. — digo e então encerramos a ligação.
Uma lágrima teimosa escorre pelo o meu rosto, mas eu a limpo rapidamente e me obrigo a sair da casa.
Eu estou fazendo isso para o nosso bem e eu contarei a verdade a Victor no final e ele irá me perdoar ao perceber que não havia anda que ele precisasse temer.
Com ajuda do google maps chego no único restaurante da cidade (sim, essa cidade tem um único restaurante e pelo que eu posso ver no exterior as minhas expectativas para ele não são muito altas).
Tomando coragem eu desço do meu carro e entro no restaurante, mas me arrependo automaticamente da minha decisão porque todas as pessoas do restaurante param o que estão fazendo para olhar para mim. E não é uma olhadinha disfarçada, não, pelo contrario, eles me encaram descaradamente enquanto eu ando até uma mesa vazia tentando manter o meu olhar vazio e a minha cabeça erguida.
No momento em que eu sento na mesa eu pego o cardápio e começo a lê-lo, numa tentativa de me esconder um pouco.
— Os locais não são conhecidos por sua descrição. — uma voz muito conhecida fala do banco a minha frente.
Irritada, desço o meu cardápio apenas para perceber que Matteo tomou o lugar a minha frente na minha mesa.
— Saia daqui e volte para onde quer que você esteja. — digo, irritada.
Ele apenas sorri para mim e eu sinto vontade socar a cara dele até aquele sorriso sumir.
— Sinceramente, Vivi — Matteo fala — Eu nem mesmo posso julgar eles por estarem encarando você até agora, você está utilizando um conjunto de roupas da Chanel e uma bolsa da Gucci. Você praticamente estava pedindo pela atenção deles.
Olho para as minhas próprias roupas e contenho uma careta. É quem eu sou, isso é tão normal para mim que eu nem me questionei o que essas roupas poderiam significar enquanto eu me vestia.
— O que eu posso fazer? — eu o questiono — São as minhas roupas. Eu deveria comprar uma camisa xadrez e apenas esperar que eles me enxergue como uma deles?
Matteo gargalha e atrai ainda mais atenção para nós dois.
— Deus, não, você nunca se passaria por uma deles. — ele fala.
Penso em retrucar sua resposta, mas sou impedida por uma garçonete que m*l parece ter vinte anos e que está muito ocupada babando em Matteo para sequer olhar em minha direção.
— Você está pronto para pedir? — ela pergunta para Matteo, totalmente de costas para mim.
Ele sorri para ela daquele jeito que até parece que ele é uma pessoa boa.
— Traga o especial da casa para mim, minha querida. — ele fala — Não, na verdade, traga dois. A minha amiga aqui vai comer a mesma coisa.
— Não somos amigos. — reclamo, atraindo a atenção da garçonete em forma de um olhar f**o — E, de qualquer forma, eu posso pedir a minha própria comida.
Ela faz uma careta para mim, mas eu ignoro ela enquanto volto a inspecionar o cardápio. O problema é que eu encontro apenas fritura, fritura e mais frituras.
Sem muita opção, acabo pedindo o especial da casa (hambúrguer com fritas), apenas para ganhar um sorriso irritante de Matteo.
A garçonete sai com os nossos pedidos depois de lançar mais um sorriso sonhador para Matteo.
— Volte para onde quer que você estava antes, Matteo. — digo — Eu quero desfrutar a da minha refeição em paz.
— Nah, eu estou bem aqui, e de qualquer forma você deveria me agradecer, tinham dois cowboys tirando no cara e coroa para ver quem vinha até você oferecer uma bebida. — ele fala.
— Deixe-me ver se eu entendi: as minhas opções no momento são você ou um cowboy gostoso? — falo — Apenas vá embora o mais rápido possível, talvez um homem rústico seja realmente algo que eu preciso.
Matteo abre um sorrisinho.
— Eu não falei nada sobre gostoso. — ele fala.
— Você sabia que Devon vai se casar? — digo, mudando totalmente de assunto e ainda sem entender o porquê estou falando sobre isso com Matteo, o meu inimigo.
— O seu advogado? — ele fala.
— Sim, também conhecido como Devon, o meu ex. Ele vai se casar com Bianca Ricci no próximo mês e eu serei uma das madrinhas. — digo, com um sorriso para disfarçar o meu desconforto.
Bianca Ricci era minha amiga, foi ela quem me apresentou a Devon na faculdade e eu nem preciso dizer o quão desconfortável foi para mim saber que eles iniciaram um namoro apenas algumas semanas depois que ele terminou tudo comigo.
— Por que diabos você aceitou ser madrinha deles? — Matteo me questionou.
Dou de ombros.
— Por que eu não aceitaria?
— Não sei, talvez porque ele seja seu ex filha da p**a?
— Não significa nada, Matteo, ele não significou nada para mim. — digo e de certa forma é verdade — Eu só fico pensando que, talvez, eu devesse sair mais, encontrar alguém para me casar também, fica cansativo voltar para uma casa vazia. — digo, sendo mais sincera do que eu esperava.
— Bom, nesse caso não me deixe ficar entre você e o seu cowboy que também pode vir a ser o seu futuro marido. O único problema é que ele tem, tipo, uns oitenta anos e talvez não sirva para fazer companhia para você por muito tempo. — Matteo brinca, mas eu noto a sombra passando por seus olhos e eu me questiono se talvez ele me entenda.
— Eu nem sei porque eu ainda tento falar sério com você. — digo e Matteo sorri para mim.
Nesse momento a garçonete volta com a nossa comida e ela está brilhando de tanto olho que possui.
— Você gostaria de mais alguma coisa? — ela questiona para Matteo e ele balança a cabeça que não — E a sua esposa? — ela fala, olhando para mim de relance, deixando claro que está interessada o suficiente e quer saber se eu ofereço algum perigo.
— Não sou a esposa dele. — digo — Deus me livre. E eu estou bem, obrigada. — digo.
A mulher sorri de orelha a orelha e se afasta da mesa, mas Matteo está muito ocupado destruindo a sua comida para notar a reação da mulher.
Olho novamente para o prato.
— Deus, se isso for tudo que tiver para comer aqui nos próximos meses eu posso sair dessa cidade com uma artéria entupida. — digo.
— Prove antes de reclamar. — Matteo fala — É uma delícia.
— Não estou duvidando disso, só estou falando que é muito gordurosa.
— Você não irá morrer por comer uma comida gordurosa uma vez na vida. Morda. — ele fala.
Rolo os meus olhos e tiro uma mordida do hambúrguer e, exatamente como Matteo falou, sinto uma explosão de saboroso deliciosos na minha boca.
Gemo e dou outra bocada e Matteo está olhando para mim com um sorriso preguiçoso no rosto.
— Você acabou de dar uma ereção a todos os homens nesse restaurante agora. — ele fala.
— Ah, Matteo, pelo amor, você é tão grosseiro que nem parece que recebeu a criação que teve. — digo.
Ele apenas sorri e volta a comer a sua própria comida.