Capítulo 13
Marcela narrando
Ele se aproxima lentamente, sem dizer nada, e eu me encolho ainda mais contra a parede fria e úmida. Meu coração bate acelerado, a cada passo que ele dá sinto como se minha vida inteira estivesse prestes a se desmoronar.
— Calma — ele fala, com uma voz firme, mas que carrega uma estranha suavidade. — Deixa eu te ajudar, você está machucada.
Minha respiração falha e a raiva toma conta, misturada com medo. Tento me afastar, mas minhas correntes me prendem.
— Você me usou para entrar na minha casa? — pergunto, nervosa, a voz tremendo. — Você quer tirar dinheiro do meu marido, é isso? Por causa dos seus filhos?
Ele abre um sorriso de canto, quase enigmático.
— Eu não tenho filhos — responde, olhando-me nos olhos com uma calma perturbadora. — Quer dizer, não todos da foto. Tenho apenas uma menina, ela se chama Joana.
Meu mundo dá um giro. Não consigo entender nada.
— Como? — murmuro, confusa, tentando processar as informações.
— Eu também não sou motorista de Uber, Marcela — ele continua, firme, encarando-me.
Um frio percorre minha espinha. As peças começam a se encaixar, mas a cada tentativa de raciocínio, mais medo sinto.
— Eu não estou entendendo — digo, minha voz subindo de tom. — Me solta daqui! Me deixa ir embora! O que você quer comigo? Não me machuca.
Ele para a poucos centímetros de mim, abaixa-se, e nossos olhares se encontram. Sinto pavor e, ao mesmo tempo, algo que não consigo nomear.
— Você está machucada — ele diz, observando cada corte e hematoma em meu corpo. — Foi ele que fez isso com você?
— Não encosta em mim — respondo, nervosa, recuando contra a parede.
— Você prefere ficar machucada? — ele insiste, sério. — Olha só para você, cheia de hematomas e cortes pelo corpo todo. Eu vi.
Minha respiração fica mais pesada, os olhos arregalados, tentando processar o que ele diz.
— Você mexeu em mim enquanto eu estava apagada? — pergunto, a voz falhando, o medo apertando meu peito.
— Sim — ele responde, calmamente.
Meu estômago se revolta. Tento desviar o olhar e noto algo na cintura dele: uma arma. Minha respiração quase para.
— Vai arder um pouco — ele fala, quebrando o silêncio com naturalidade, e começa a passar algodão no meu rosto. — Isso vai ajudar a cicatrizar mais rápido.
Sinto o toque do algodão e fecho os olhos, cada movimento dele é uma mistura de alívio e pânico.
— Quem é você? — pergunto, desesperada. — Onde… eu estou?
Ele permanece em silêncio, concentrado em cuidar dos meus ferimentos, mas seus olhos me observam com atenção constante.
— Por que você não fala nada? — insisto, tentando mover minhas mãos, mas as correntes me impedem. — Me solta!
— Você é tão educada — ele comenta, com um tom quase admirado. — Até mesmo sendo refém, não se preocupe. Logo seu marido vai tentar te tirar daqui… só não sei se sairá vivo.
O mundo parece parar. Meu coração dispara.
— Vocês vão matar ele? — pergunto, com a voz quase sussurrada. — Vão me matar também?
— Se você se comportar, sai viva — ele fala, olhando-me seriamente. — E ainda rica, com toda a herança dele.
O som da porta se abrindo interrompe o momento. Um homem entra, armado com um fuzil.
— O que houve? — Miguel diz, levantando-se rapidamente.
— Recebemos imagens de Saul — responde o homem, mostrando o celular.
Miguel me encara, o olhar pesado, como se estivesse processando algo urgente.
— Depois conversamos — fala para o homem, que assente imediatamente. — Chame os outros.
Ele fecha a porta e se aproxima de mim.
— Não se preocupa — diz, tentando parecer calmo. — Pelo jeito, seu marido já sabe que você está aqui. Não era para ser assim.
— Que plano? — pergunto, ainda confusa e assustada.
— Mas você está aqui. Pode não sair 100% como deveria, mas só o fato de estar aqui já é um bom começo — responde, sério, analisando cada detalhe do meu rosto e corpo machucado.
— Quem é você? — insisto.
— Miguel, vulgo Perigo — ele diz, e meus olhos se arregalam. — Você deve ter ouvido falar de mim, não é?
Nego com a cabeça, incapaz de processar completamente a situação.
— Sei que teremos muito para conversar, Marcela — ele continua. — Muito mais do que aquele dia na cama.
O pânico me domina. Tento controlar a respiração, mas o medo é quase palpável.
— Eu não sei de nada — sussurro, tentando me convencer a mim mesma.
— Você é mulher do maior filho da p**a do mundo, casada há cinco anos. Seu marido é melhor amigo de Kaio. Você conviveu com Kaio, Marisa, Laura… — ele fala, como se estivesse lendo minha mente. — Não precisa ter medo, só colabore.
Ele tira a arma da cintura, examina-a, depois aponta para mim. Sinto meu corpo inteiro enrijecer.
— Essa é Judite — ele diz, mostrando um cachorro. — Melhor ser amiga dela, porque não é legal com inimigos.
Guarda a arma e volta ao que fazia, cuidando dos meus machucados com uma calma assustadora. Cada toque dele me faz estremecer, e meu maior medo de toda a vida, estar nas mãos de alguém poderoso e perigoso, se concretiza.
Ele termina, levanta-se e vai até a porta, saindo sem dizer mais nada. Eu desabo em lágrimas. Tremia, nervosa, incapaz de processar tudo que estava acontecendo.
Roberto sempre falava sobre Kaio, e depois da morte dele, fomos obrigados a sair do Brasil. Agora, a filha da p**a da Laura busca vingança, e eu sou quem sofre as consequências. Eu não tinha culpa, mas minha vida estava nas mãos desses homens.
Miguel volta a abrir a porta, trazendo outro homem tatuado, armado.
— Marcela, esse é RD, meu primo — ele apresenta. — RD, essa é a mulher do policial.
Engulo seco. Meu corpo treme. Olhos arregalados, quase sem ar. Sinto meu coração bater descontrolado, e a adrenalina toma conta. A tensão é tanta que, antes de poder raciocinar, desmaio.