Capítulo 12
Marcela narrando
Abro os olhos lentamente, sentindo o mundo girar ao meu redor. Tudo estava turvo, a luz m*l conseguia penetrar meus sentidos. Minha cabeça latejava, pesada, e uma dor surda se espalhava pelo meu corpo. Mas aos poucos, entre as sombras e o caos, percebo algo essencial: estou viva. Um misto de alívio e medo me invade. Tento lembrar do que aconteceu, mas as imagens vêm em fragmentos confusos. A surra de Roberto, nossa discussão acalorada, e depois… alguém surgindo do escuro, apagando minha consciência.
Minha mão busca meu rosto e, ao encostar, sinto a pele latejando, queimando. Tento me levantar e percebo que minhas mãos estão amarradas. Minha cabeça dói intensamente, meu corpo inteiro pesa e parece incapaz de se mover. Sento-me, olhando ao redor, tentando compreender onde estou.
O cheiro do lugar é insuportável, misto de mofo, suor antigo e sujeira acumulada. Poucos móveis ocupam o espaço, todos velhos, sujos, desgastados pelo tempo. A escuridão é quase total, e não entra sequer uma fresta de luz. A atmosfera sufoca, me aprisiona mais do que as correntes em meus pulsos e tornozelos.
— Socorro! — grito, com a voz rouca de tanto falar. — Socorro! Alguém me tira daqui!
Tento me erguer, mas meu corpo parece feito de chumbo. Cada movimento exige esforço, e cada músculo dói como se tivesse sido esticado até o limite. Respiro fundo, tentando me acalmar, mas o medo e a ansiedade só aumentam.
Então, ouço vozes do lado de fora. Distantes, mas familiares, embora não consiga identificar de quem são. Meu coração dispara. Roberto só pode ter descoberto alguma traição, ou talvez percebido que levei alguém para dentro de casa. Será que ele fez algum m*l a Miguel? Ou ao motorista do Uber? O pensamento me aperta o peito e lágrimas quentes escorrem pelo meu rosto.
— Roberto! Me tira daqui! — grito novamente, a voz se quebrando. — Eu odeio você! Me tira daqui!
Repito os gritos várias vezes, mas o eco é a única resposta que recebo. Um frio percorre minha espinha quando vejo um rato surgindo perto da porta. Me encolho instintivamente, observando cada movimento do pequeno animal.
— Vai embora daqui! — grito para o rato, tentando ignorar o pânico crescente. Mas, então, noto algo ainda pior: uma corrente amarrada aos meus pés. Não tinha percebido antes. Meu corpo inteiro se enrijece ao perceber que estava completamente presa.
— Sai daqui, rato! — repito, mas ele continua seu caminho, indiferente ao meu desespero.
Sinto uma onda de desespero esmagar meu peito. Deus, por que? O que eu fiz em outra vida para merecer isso? Cada pensamento me enche de raiva, tristeza e medo simultaneamente.
De repente, a maçaneta da porta de ferro gira. Meu corpo se encolhe ainda mais, pressionando-me contra a parede suja. A porta se abre, revelando uma luz intensa que quase me cega. Pisquei várias vezes, tentando ajustar a visão sensível. A porta se fecha novamente e tudo fica meio embaçado, mas aos poucos consigo discernir a figura diante de mim.
— Olá, Marcela — a voz soa calma, quase familiar, cortando o silêncio pesado do lugar. — Eu vim cuidar dos seus machucados.
Meu corpo fica paralisado. Tento entender, mas tudo que sai da minha boca é um sussurro confuso:
— Você? — pergunto, tentando entender o que estava acontecendo. — Você me sequestrou? Por dinheiro? Quer dinheiro do meu marido, Miguel?
Meus olhos percorrem cada detalhe dele, procurando sinais, tentando ler suas intenções. Mas não há expressão de raiva ou ódio. Há uma estranha naturalidade, como se estivesse ali apenas para cuidar de mim.
O coração ainda disparado, tento absorver cada sensação. A dor latejante do rosto, a boca cortada, os hematomas espalhados pelo corpo, tudo parece combinar com a confusão que sinto por dentro. Tento falar novamente, mas as palavras se perdem no ar.
Laura narrando
— Me deixa resolver — Roberto fala com firmeza, com um tom que não permitia contestação. — Agora, Laura, sai de dentro da sala.
Olhei para ele, irritada, sentindo a raiva subir. Mas sabia que não podia contrariar. Saí, mesmo com o corpo tenso, e caminhei em direção a Saul. Entrei na sala e encontrei-o apanhando, cercado por homens que o seguravam firme.
— Pode parar — ordenei, e os homens me encararam por alguns segundos antes de recuarem. — Deixa eu resolver com ele. Tenho pendências.
— Estamos no lado de fora — disse um deles, e apenas assenti.
— O que você quer? — Saul perguntou, fitando-me. — Você deveria ser grata. Eu te ajudei a fugir do morro, cuidei de você quando estava grávida, te escondi, garanti que desse à luz sem perigo nenhum, e agora? Me entrega para aquele filho da p**a do delegado.
— Eu não vou deixar ele te matar — respondi, firme. — Vou te deixar vivo.
Um sorriso escuro se formou em seus lábios, misto de descrença e alívio.
— Quer que eu acredite em você? — perguntou, desafiador.
— Eu preciso que você me ajude — falei, olhando em seus olhos, tentando transmitir urgência.
— Você sabe que a morte é seu destino — disse ele, sombrio.
— Sequestraram Marcela, foi seus amigos, não foi? — perguntei, tensa.
— Adoraria responder, mas estou nas mãos desse filho da p**a há muito tempo — confessou ele, exausto. — Não sei nada do que acontece no morro.
— Perigo é esperto, eu sei disso — falei, cruzando os braços. — E você também sabe, quais as chances de ele ter descoberto o plano e estar agindo antes de nós?
— Perigo não deve nem estar se importando com vocês — respondeu Saul. — Isso deve ter sido qualquer outro inimigo de Roberto. Você deveria ir embora, pegar seu filho e esquecer a vingança pela morte do seu pai.
— Kaio era meu pai, e vocês o mataram de forma brutal — eu gritei, a lembrança da cena ainda me queimava por dentro. — Eu vi como ele ficou.
— Seu pai fez m*l a tanta gente — disse Saul. — Você realmente quer vingança pela morte dele?
— Ele era meu pai — respondi, firme. — E vou me vingar. Vou casar com Roberto, matá-lo e dar uma vida digna ao meu filho.
— Entrega essa criança a Jn — falou ele, tentando me fazer recuar. — Jn será um pai maravilhoso.
— Era essa sua intenção, não é mesmo? — perguntei, encarando-o. — Avisar que eu tive um filho dele para que ele fosse até o morro?
— Você é desequilibrada — disse ele, rindo de forma amarga. — Não tem condição de criar uma criança. Você é maluca.
— Não vou mais conversar com você — falei, decidida, virando-me para sair.
— Roberto ainda vai te matar — ele chamou, a voz carregada de advertência. — Vai te descartar como quem não quer nada. Você não está ganhando o jogo.
— Estou sim — respondi, firme. — Marcela foi sequestrada e agora estou aqui.
— Então use a oportunidade para ir embora — disse Saul, encarando-me friamente. — Por que buscar vingança? Se ele for morto pelos meus amigos, você também será. Você é considerada x9, traidora.
— Eu tenho uma carta na manga — falei, a voz firme, tentando transmitir confiança. — Sou mãe do filho do Jn.
Ele riu, debochado:
— Malu foi salva assim, não foi? Quando descobriram que ela estava ajudando seu pai.
— A história é bem diferente — retruquei. — Você sabe disso. Eu estava bem com Jn, poderia ter ficado na minha, mas resolvi entrar em uma vingança que não era minha. Uma ótaria, é isso?
— Vai à merda — respondi, olhando firme para ele.
— Que você morra para que seu filho tenha uma vida digna — disse Saul, sombrio. — Porque com você viva, ele nunca será um homem bom.