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1301 Words
Capítulo – Laura narrando Subo silenciosamente as escadas da delegacia, meu coração batendo acelerado dentro do peito. Cada degrau parecia mais pesado do que o anterior, e eu sentia o peso de todos os acontecimentos recentes sobre meus ombros. Quando chego ao topo, saio rapidamente pela saída lateral e peço um táxi. A ansiedade me corrói enquanto observo a cidade passando embaçada pelas janelas do carro. Desço em frente ao orfanato que ficava no Morro da Fé. O morro era pequeno, pouco conhecido, cercado de vielas estreitas e casas simples, mas era seguro, escondido da vista de olhos curiosos. — Eu vim ver meu filho — digo para uma das mulheres que me recebe na porta, tentando controlar o nó na garganta. — Entre — ela responde, com um sorriso acolhedor. Ela me leva até uma sala ampla, onde várias crianças brincam alegremente, sem perceberem os medos que rondam a vida adulta. E então, o vejo: um menino com olhos castanhos, exatamente como os de Jn. Ele me encara e, ao reconhecer meu rosto, abre um sorriso tímido. Ele estava aprendendo a falar e já caminhava com firmeza; aproxima-se de mim correndo e me abraça com força. — Meu amor — murmuro, apertando-o contra mim — você é tudo que eu tenho na vida. Ele ri, passando as pequenas mãos no meu rosto, e meu coração se aperta de amor e saudade. Aquele momento era meu porto seguro, o único motivo para continuar respirando mesmo diante de tanto caos. Nem Saul sabia que meu filho estava aqui; ninguém sabia. O Morro da Fé era um refúgio, um lugar seguro que minha tia conhecia bem. Ela morava ali, trabalhava no orfanato e cuidava dele enquanto eu mergulhava na vingança contra a morte do meu pai. Era o equilíbrio que eu precisava: meu filho protegido, e eu ainda viva para planejar cada passo. Passo o dia brincando com ele, rindo e tentando esquecer os medos que me perseguiam. Dou banho, troco suas roupas, vejo seu sorriso iluminar meu coração, e então coloco-o para dormir. — Você precisa ir — minha tia me avisa, com um tom preocupado. — Daqui a pouco chega o outro turno, e vão achar estranho você aqui. — Eu vou — respondo, segurando as lágrimas. — Se cuida, Laura — ela diz, e eu assinto, tentando parecer firme. — Cuida dele para mim — peço, apertando sua mão. Ela assente, com um olhar de compreensão silenciosa. Saio do morro, mantendo a atenção em cada movimento. De longe, vejo o dono do morro parado na entrada. O Morro da Fé era discreto, e ele podia andar ali sem chamar atenção. Seu nome era Plutão — um homem enigmático, respeitado e temido. Pouco se sabia sobre ele, nem Jn tinha qualquer aliança com outros morros. Ele era uma sombra, mas também um guardião do equilíbrio daquele lugar. Toda vez que deixava meu filho para ir embora, as lágrimas desciam pelo meu rosto. Mas não podia deixar que Roberto descobrisse que ele estava vivo. Ele não hesitaria em machucá-lo se algo desse errado. Eu precisava protegê-lo a qualquer custo. Enquanto andava, meus pensamentos voltavam para as palavras de Saul: "Então usa a oportunidade para ir embora — ele dizia me encarando — vai querer vingança para quê? Se ele for morto pelos meus amigos, Laura, você também será. Você é considerada X9, traidora." "Eu tenho uma carta na manga — respondi — sou mãe do filho do Jn." "Malú foi salva assim, não foi? Quando descobriram que ela estava ajudando meu pai." "A história é bem diferente — Saul replicou — você estava bem com Jn, poderia ter ficado na sua e está lá com ele, mas resolveu entrar numa vingança que não tem nada a ver com você. Você é uma tola." "Vai à merda!" — eu gritei. "Que você morra para dar ao seu filho uma vida tranquila e digna — ele concluiu — porque com você viva, ele nunca será um homem bom." Essas palavras martelavam na minha mente, mas eu sabia que precisava seguir firme. Pensei muitas vezes em deixar meu filho com Jn. Afinal, ele era o pai. Deixei uma carta, um plano de segurança: se algo acontecesse comigo, minha tia levaria meu menino até Jn e entregaria a ele, junto com a carta explicando a paternidade. Jn jamais abriria mão de criar nosso filho; ele daria amor e proteção. Por que então eu me escondi dele? Porque sabia que Roberto não permitiria que eu ficasse perto da criança. Ele poderia me afastar ou até me matar. Eu queria criar meu filho com meus próprios braços, com segurança e amor. Para isso, precisava encontrar uma forma de fazer Roberto renunciar a Marcela. Como faria isso? Ainda não tinha respostas. Aquele que pensei que me ajudaria, Saul, foi uma surpresa. Eu o entreguei a Roberto imaginando que ele me entregaria a Jn e a todos os outros, mas ele não hesitou em me proteger. Flashback – Saul Saul entrou na casa para onde eu fui levada depois de fugir do morro. Quando o encontrei, estava pronta para implorar por minha vida. Estava grávida, vulnerável, e meu único desejo era proteção. Envolvi-me com ele para garantir que não me entregasse a ninguém. — Que bom que você chegou, estava com saudade — disse, beijando-o. Ele correspondeu, e por um instante esqueci de todo o perigo ao redor. Mesmo assim, ele permanecia silencioso sobre o morro, sobre os inimigos e sobre o que aconteceria a seguir. — Vou buscar algo para a gente comer — disse ele, e eu assenti, permitindo que saísse. Algum tempo depois, comecei a sentir dores fortes em todo o corpo. Meu instinto me alertava de que algo estava acontecendo com o bebê. Peguei o celular dele, que havia esquecido em casa, e tentei ligar para Saul. Mas vi mensagens na tela: era Jn. "Você disse que ia me enviar a localização de onde estava. O que quer falar?" Meu coração parou. Jn sabia onde eu estava. Corri para o banheiro, jogando o celular no vaso e puxando a descarga. A dor se intensificou e um grito escapou dos meus lábios. — Me ajuda! — gritei. Saul entrou correndo. — O bebê está nascendo! Ele me levou para o quarto, deixando sua arma ao lado da cabeceira. Eu sentia dor intensa, cada contração uma lembrança c***l do meu medo. — Preciso ficar de pé — murmurei, tentando me levantar. As janelas tinham barras de ferro; mesmo assim, agarrei-me a uma delas, lutando contra as dores. — Vou buscar água quente — disse Saul. Mas eu tinha que agir. Peguei a barra de ferro e, quando ele virou as costas, desferi um golpe na cabeça dele. Ele caiu, sangrando, e agarrei uma corda para amarrá-lo, mesmo com as contrações e dor extrema. Usei o celular para chamar um médico conhecido do meu pai. Não demorou muito para ele chegar, acompanhado da enfermeira, que era esposa dele. — Faz força! — gritava, sentindo cada dor multiplicada, mas concentrada em trazer meu filho ao mundo. E finalmente, o bebê nasceu. Eu não sabia o sexo, mas o médico anunciou: — É um menino! Colocaram meu filho em meus braços. Chorei, soluçando, mas de alegria. Ele era pequeno, perfeito, e seu choro era música para meus ouvidos. — Como ele vai se chamar? — perguntou a enfermeira. — Jesus — disse, sorrindo. — O nome do meu avô, que me criou. Jesus, seu nome será Jesus. Fim do flashback De volta à delegacia, meus olhos se enchem de determinação. Eu precisava fazer com que Roberto desistisse de Marcela, não apenas por mim, mas pelo bem de Jesus. Não importa o que aconteça, eu encontrarei uma maneira de garantir que meu filho cresça seguro, amado e longe de toda essa violência.
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