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1183 Words
Capítulo 13 – Marcela narrando A porta se abre com um rangido e um homem, na verdade um garoto jovem, entra. Um fuzil atravessado nas costas o deixa ameaçador, e com um gesto brusco, ele me joga no chão. — Comida — ele diz, jogando um sanduíche embalado perto de mim. — Minhas mãos estão amarradas! — eu falo, tentando me afastar do pacote. — Se vira — ele responde, fechando a porta atrás de si e saindo. Fico ali, sentada no chão frio, observando o sanduíche que rolou para longe do alcance dos meus dedos amarrados. Minha barriga ronca e meu estômago dói de fome; não faço ideia de quantas horas estou presa nesse lugar. Tento soltar as cordas, puxo e torço, mas é inútil. Me sinto impotente. Além de estar presa, havia sido obrigada a me casar com aquele velho nojento, Roberto. E agora, completamente indefesa, eu sabia que poderia ser morta pelos inimigos dele a qualquer instante. Tento, mais uma vez, alcançar o sanduíche, mas ele escorrega dos meus dedos e cai no chão sujo. Desisto, o choro sobe em mim. Lagrimas descem sem parar enquanto meu corpo treme, exausto e faminto. Limpo os olhos com as costas das mãos e me deito no colchão velho, sentindo o cheiro de mofo e poeira da sala. O rato que eu tinha visto antes caminha próximo ao meu pé, e a escuridão aumenta meu medo. Cada sombra parecia se mexer, cada som parecia amplificado no silêncio daquele espaço. A ansiedade me consome e a fome torna cada segundo mais insuportável. De repente, a porta se abre novamente. Miguel entra e acende a luz, e o rato dispara para longe, desaparecendo em um canto. Dou um pulo, assustada. — Não gostou do sanduíche? — ele pergunta, com um leve tom de provocação. — Eu não consegui comer — respondo, ainda tremendo — Minhas mãos estão amarradas, eu tentei, mas não consegui. Ele olha para minhas mãos, depois para o sanduíche no chão. Suspira, se abaixa e começa a desamarrar meus pés. — Levanta — ele ordena, e eu encaro-o. — Anda, vamos, levanta. — Para onde você vai me levar? — pergunto, hesitante. — Não pergunta nada — ele responde, firme — só levanta e vamos. Com a arma ainda apontada para mim, tento me levantar. Meu corpo dói por causa dos hematomas e cortes que não tinham sido tratados. Ele me acompanha até a saída e nos dirigimos para o morro. A noite estava escura, as ruas desertas, e o silêncio era cortante. Finalmente, ele me leva até uma casa enorme, que parecia fora do lugar em meio à favela. Ao atravessar o portão, me sinto confusa; a residência não parecia uma casa comum. Ele me empurra com a arma e entramos. Minha boca se abre de surpresa ao ver o que havia dentro: um verdadeiro parque de diversões. No meio da sala, redes suspensas no ar, escadas para subir nelas, escorregadores coloridos, uma piscina de bolinhas imensa. Era surreal. Olho para Miguel, tentando entender. — Anda — ele me empurra, e seguimos até a cozinha. — Senta. Ele me faz sentar em uma cadeira e coloca pão, ingredientes para sanduíches e uma garrafa de refrigerante sobre a mesa. Aproxima-se de mim e desamarra minhas mãos. Sinto um alívio momentâneo, mas ele se vira para a pia e começa a mexer em algo nos armários. Meu instinto de sobrevivência dispara. Não penso duas vezes e corro em direção à porta de saída. — Marcela! — ele grita, correndo atrás de mim. Tropeço na piscina de bolinhas quando ele encosta em minha roupa e caio de barriga para baixo. Tento virar o rosto para não me sufocar entre as bolinhas, mas ele me segura, fazendo-me encará-lo. — Se você sair por aquela porta, a ordem é para te matarem — diz, a voz firme. Engulo seco. — Se você queria brincar com as bolas, poderia ter me falado que eu te trazia para cá. Balanço a cabeça, exausta. Ele se levanta, saindo de cima de mim. Estendo a mão, hesitante, e ele me ajuda a sair da piscina. — Por que você me enganou? — pergunto, ainda ofegante — Se aproximou de mim? Por que me trouxe para cá? — Essa é a vida — ele responde, olhando-me nos olhos. — Seu marido e o amigo dele fizeram muito m*l à minha família, aos meus amigos. Ele queria fazer novamente, então eu agi antes dele. — Você vai me machucar? — minha voz treme. — Vai me matar? — Não — ele responde calmamente. — Não sou como ele, que machuca pessoas inocentes. Agora — aponta para a cozinha — se tentar fugir, a ordem é te matar. Não quero problemas, e não serei eu a fazê-lo, mas os milhões lá fora farão. — Me deixa ir embora, por favor — suplico. — Fora de cogitação — ele responde. — Só sai daqui depois que seu marido estiver morto. Antes disso, ficará sob meu poder. Dou um passo para trás, o coração disparado. — Você é repugnante como ele — digo, encarando-o. — O que disse? — ele pergunta, surpreso. — É isso que você escutou — digo firme. — Você é igual a ele, da mesma laia. Quer proteger sua família me fazendo m*l. — Por acaso eu te encostei o dedo? Te machuquei? — ele questiona, olhando meu estado. — Não fui eu que te feri. — Você me sequestrou! — digo, a raiva misturada ao medo. — Pelo jeito, te salvei dele — responde. — Você não sabe nada da minha vida — continuo, cada palavra carregada de emoção — Me enganou, me usou. Eu te levei para dentro da minha casa, e agora você me sequestra, me usa contra uma vingança contra ele. Você diz que protege seus amigos, mas se iguala a ele. Ele me encara, sério, e então diz: — Eu sou pior que ele — sua voz firme corta o ar. — Sou bandido, traficante, dono de um morro. Acho que ainda não entendeu a situação. Faço parte da maior facção criminosa do Rio de Janeiro e do Brasil. Quer continuar me ofendendo, Marcela? Aqui você é vista como a esposa de um policial. A gente não gosta desse tipo de gente. Então senta nessa mesa e come, antes que eu faça você engolir de volta todas as palavras. Arregalo os olhos e, mesmo com medo, caminho até a mesa. Respiro fundo, soltando o ar lentamente, sentando-me. Ele se senta à minha frente, e há um silêncio pesado, só quebrado pelo som da comida sendo arrumada. — Você deveria me agradecer — ele diz, enquanto coloca mais coisas sobre a mesa — porque vou matar ele, e você não precisará mais ficar casada com ele. O encaro, incrédula. — Ah, não — acrescento, com ironia e raiva — a não ser que você goste de sentar em um p***o mucho. Ele lança-me um olhar diferente, quase provocador, e começa a comer. Sinto meu coração disparar, uma mistura de medo, tensão e… algo que não consigo nomear.
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