Capítulo 6 — PERIGO NARRANDO
Ela adormeceu no meu peito como se o mundo tivesse cessado lá fora. O corpo dela, quente e frágil, se acomodou como se sempre tivesse pertencido àquela posição; a respiração leve marcava o ritmo que eu não queria perder. Deitada ali, nua e entregue, Marcela estava inacreditavelmente bonita — mais do que eu imaginara. O rosto tinha uma doçura quase ingênua, os traços delicados pareciam moldados por outra vida, e o contraste entre a pele pálida e os cabelos ruivos deixava tudo ainda mais c***l: beleza que me confundia, atraía e ferida por dentro. Havia uma tristeza no olhar dela que o sono escondia; um cansaço que dizia mais do que palavras.
Levantei-me devagar para não quebrar o instante. Ela virou o rosto e voltou a dormir; os cílios descansavam sobre a pele com a fragilidade de quem não tem culpa. Espiei pela janela. Ph estava no carro, imobilizado, fazendo o sinal combinado com a mão — tudo certo. Assenti com a cabeça e mandei uma mensagem curta: “É agora.” O pulso tremia um pouco — era mistura de excitação e medo do que eu estava prestes a fazer.
Vesti-me em silêncio, arma à cintura, e caminhei pela casa como quem atravessa um teatro escuro. As luzes estavam apagadas; apenas a claridade externa recortava sombras nas cortinas brancas. Desci para o escritório com cuidado. Cada passo era calculado. Tirei das minhas roupas as mini câmeras e microfones que havia preparado, senti o peso do aparelho nas mãos, e sorri com aquela sensação infantil de ter guardado um trunfo.
Comecei a espalhar os dispositivos. Coloquei um microfone sob a mesa da sala, uma microcâmera escondida atrás de um porta-retratos, outro microfone próximo ao sofá. No corredor da cozinha, um ponto que garantisse áudio claro; no lavabo, um pequeno sensor disfarçado entre as toalhas. Entrei no quarto e, com a prudência de sempre, escondi mais dois aparelhos entre as almofadas e outro na cabeceira, onde alguém não procuraria. O coração batia acelerado quando mandei mensagem para Ph: “Tudo no ponto.” Ele confirmou com um único OK.
Quando finalmente me virei para sair, Marcela abriu os olhos devagar.
— Já vai embora? — murmurou, ainda entre o sono e o acordar.
— Não queria te acordar — respondi, fechando as cortinas que eu tinha deixado abertas para facilitar a saída. — Você estava tão bonita dormindo que pensei duas vezes.
Ela falou baixo, ainda atônita:
— Ele disse que só volta amanhã à noite. Não precisa ter medo.
A honestidade na voz dela me tirou um riso curto. Era exatamente o que eu precisava ouvir, mesmo sabendo que essa segurança era frágil.
— Ele é policial — respondi, sentando na beira da cama. — E policiais odeiam surpresas. Não seria exatamente algo que ele aprovasse.
Ela ficou pensativa. Cobriu o corpo com o lençol, a voz carregada de preocupação:
— Não posso te expor. Meu marido pode te destruir se descobrir. Você tem filhos, tem responsabilidade. Eu não quero que ninguém se machuque por minha causa.
Aquelas palavras pesaram em mim, fizeram rugas no meu rosto. Eu queria abraçá-la, protegê-la, arrancar dali todo o resto que a fazia sofrer. A esperança e a culpa misturavam-se em combustão lenta.
— Você mesma disse que nossas conversas te fazem bem — insisti, porque precisava de alguma resposta que justificasse meu risco. — Por que parar?
— Porque ele não admite traição — ela replicou, como se recitasse uma sentença pronta. — Ele pode acabar com tudo e todos. Eu errei te chamando por vaidade. Não devia ter te puxado pra dentro desse problema.
Fitei aquele corpo cobrindo as fragilidades com um lençol, e disse a verdade que vinha acumulando desde o primeiro olhar:
— Eu te desejei desde o primeiro dia que te vi. Você é minha ruivinha.
Ela se ergueu, os olhos sombreados por culpa e medo, e por um momento a gente pareceu apenas dois humanos nus diante da sorte.
— Se você quiser que eu vá — falei, já me pondo de pé — eu vou. Não quero te atrapalhar.
— Me desculpa — ela disse de repente, aproximando-se. A voz tremia. — Por te usar, por ter te mandado vir só porque me senti só. Obrigada… por me fazer sentir especial depois de cinco anos.
Aquelas palavras pareceram punhal. Dei um beijo nela, um beijo que era promessa e perigo junto, e ela correspondeu com uma cumplicidade que doía.
— Quando precisar, ruivinha, me chama. Chama de noite, de dia, manda sinal de fumaça — falei, com um meio sorriso. — Eu vou.
Puxei a janela com a delicadeza de quem ainda queria preservá-la de qualquer clarão. Desci pela sacada e me escorreguei até o carro. Pelo canto do olho vi Marcela fechando as cortinas; ela não respondeu. Ph ligou o motor, o som do veículo cortando o silêncio parecia um aplauso de quem participou bem do ato.
— Uau, que despedida — Ph comentou, com ironia, enquanto saíamos dali. Eu reviriei os olhos.
— Vai à merda — respondi, incapaz de evitar um tom seco.
— Conseguimos uma coisa boa — Ph falou, sério agora. — Tem gente indicando que ele está armando algo contra nós. Ouvi de um dos cantos que estão articulando contra a boca.
A informação caiu como chuva gelada. Eu cerrei os punhos.
— Precisamos agir — falei sem rodeios.
— E qual é o seu plano? — ele perguntou, atento.
Olhei para as luzes da cidade passando velozes pela janela do carro e falei simples:
— Sequestrar ela. Levar ele até o morro.
Ph explodiu numa risada nervosa, que era metade incredulidade e metade medo.
— Levar ele até o morro? Isso é loucura — disse ele, passando a mão pelos cabelos.
— Ele não sabe onde ela vai estar — respondi. — Ele não imagina do meu envolvimento. Podemos montar uma armadilha: espalhar pistas, jogar a isca, fazer ele se desesperar e correr atrás de algo que não existe. Deixar ele tonto, sem chão.
— Você quer deixá-lo louco… procurando a mulher dele por todo canto — Ph comentou, já começando a entender o desenho. — E enquanto isso?
— Enquanto isso, desmantelamos as jogadas dele. Confusão, câmeras, microfones, e nós por cima quando ele menos esperar. — Sorri. A ideia era tão simples quanto c***l: transformar o caçador em presa.
Ph olhou para mim com mistura de respeito e assombro.
— Ela realmente te deu gorjeta dessa vez? — ele perguntou, irônico, lembrando da nota que Marcela deu antes de descer do carro.
Sorri, nada ficando por dizer. Sabíamos que cada detalhe pequeno podia virar grande arma — inclusive um troco de generosidade. Ph riu baixinho, sacudindo a cabeça.
— Então vamos cuidar disso — ele disse. — Vou começar a articular cobertura, ter olhos em todos os lados. Se vamos mexer nesse formigueiro, tem que ser com precisão cirúrgica.
— Exato — confirmei. — Nada de loucuras sem plano. Câmeras, rotas, distância segura para ela, e isca perfeita para ele. Tudo limpo. Sem rastro.
Ph coçou o queixo, pensativo, enquanto acelerávamos. A noite engolia a cidade e eu senti, pela primeira vez em muito tempo, que tinha em mãos mais do que desejo: tinha controle. E controle, naquela guerra, significava sobrevivência.
— E a gorjeta? — Ph voltou a brincar, quebrando a tensão. — Você não esquece da gorjeta.
— Nem pensar — respondi, e deixamos a risada escapar entre nós, como se fosse um aviso: o jogo começara, e ninguém mais sabia o que viria depois.