Capítulo 8
Marcela narrando
Arrumei o quarto de hóspedes com calma, ajeitando lençóis, dobrando a toalha do banheiro, escondendo qualquer sinal de que alguém havia passado ali. Fazia tempo que eu aprendi a apagar rastros — não por malícia, mas por autopreservação. Não queria que nenhuma empregada notasse nada, nem um fio fora do lugar. Ao finalizar, voltei para o meu quarto e me deitei, exausta. O sol entrou sem cerimônia pelas cortinas transparentes que eu tanto odiava e me obrigou a tampar o rosto com a coberta, em busca de um pouco de sombra e silêncio.
O despertador de Roberto começou a berrar como sempre: incessante e cortante. Era inútil tentar continuar dormindo. Levantei, vesti minha roupa de ginástica e desci para a mini academia da casa — um ritual que servia mais para afastar pensamentos do que para queimar calorias. Tomei um banho rápido, desci e preparei o café. Enquanto tirava a mesa, senti-me uma máquina programada para tarefas domésticas: movimento repetido, sem propósito além de manter a aparência.
Perambulava pela casa sem rumo quando vi o carro de Roberto na garagem. Subi para o quarto e esperei ali, porque sabia que ele odiava me ver vagando pela casa sem objetivo. Quando ele entrou, eu estava penteando o cabelo, devagar, como quem adia um confronto.
— O que aconteceu esta madrugada no condomínio? — ele perguntou, entrando já em tom acusatório.
— Como assim? — respondi, fingindo surpresa.
— O porteiro disse que houve manutenção na eletricidade — disse ele. — Disseram que teve alguém mexendo nas instalações.
O frio apertou o peito. Mantive o olhar neutro.
— Eu estava dormindo — falei. — Você falou com a empregada?
— Não seja irônica — respondeu, deixando escapar um nervosismo que não combinava com sua postura habitual.
— Não estou sendo irônica — repliquei, já me levantando. — Eu não vi nada. Não sei o que aconteceu.
Ele veio até mim e a voz baixou, pegando-me pelo nervo exposto.
— Então desce e fala com as empregadas.
Segurei as mãos para que não tremessem.
— Calma. Eu perguntei porque… elas não me falaram nada. Não tenho culpa do que aconteceu. — Tentei fazer minha voz soar firme o suficiente para convencê-lo.
Ele bufou, tenso.
— Nada deu errado — retrucou. — Então por que está tão nervoso?
— Porque você me tira a paciência — respondeu, como se eu fosse o problema de sua vida.
Subiu para o banheiro sem tirar a gravidade dali. Fazia meses que ele não me batia — e eu agradecia por cada noite sem marcas novas. Antes, os hematomas eram rotina; agora, restava a violência verbal, a humilhação em palavras afiadas. Ainda assim, a ameaça de que pudesse voltar a agredir me acompanhava como uma sombra pronta a desabar.
Quando ele desceu apressado sem tomar banho, senti um alívio contido. Me sentei na penteadeira e passei os cremes no rosto como se tentasse apagar mais do que rugas — tentava esconder a inquietude que me corroía. Pensei na noite anterior. O homem do Uber — Miguel — não saía da minha cabeça. Havia algo reconfortante em sua presença, algo que me lembrava de uma vida diferente: uma casa simples, trabalho fora, três filhos rindo; tudo o que eu nunca tive e que, por um instante, me fez desejar uma realidade alternativa. A ideia era dolorosa: preferir a simplicidade de um lar comum a essa prisão dourada.
Perigo narrando
Passei o dia inteiro vasculhando as câmeras e ouvindo os microfones que espalhei. Vi a imagem dela por uma janela: entrou sorrateira em um quarto — não o que eu supunha ser dela — e logo fechou a porta. Minha frustração explodiu em um palavrão curto:
— Merda. — Joguei o celular na palma da mão.
— Calma — Yuri tentou me acalmar, observando do outro lado das telas. — Você está tenso demais.
— Preciso saber o que aquele filho da p**a está planejando — respondi seco.
Yuri sorriu com o tom da minha obsessão e cutucou:
— Nem disfarça mais, está de amores pela ruivinha, admite.
Ri sem graça, mas não neguei.
— Não é isso — falei. — Não quero vínculos. Quero vantagem. Quero segurança para a carga que chega.
— Falando nisso — continuou ele — vou resolver a entrega que está chegando. Não pode haver erro.
— Essa carga é alta — repeti. — Milhões envolvidos. Não podemos vacilar.
Yuri me garantiu que Bn já alinhou os homens e que estava tudo pronto. Ainda assim, a sensação de algo fora do controle não me deixava. E havia Saul: desaparecido, sem rastro. Um nome vazio que gerava ruído.
— Você acha que a polícia pegou ele? — perguntou Yuri.
— Não sei — respondi. — Só sei que a ausência dele é um problema que não consigo decifrar.
Voltei para as gravações. Foi ali, no escritório de Roberto, que ouvi o som mais importante do dia. Liguei o microfone que havia deixado instalado e deixei o gravador captar:
— Quero tudo arrumado — revelei a fala de Roberto, sem filtro no fone. — Fechem todas as fronteiras. Temos informação de carga chegando. Vou acabar com cada um deles.
A voz dele carregava raiva e pressa. A gravação era ouro. Mandei os arquivos para Ph, Rd e Bn. Era a confirmação de que ele não só planejava — ele já estava em movimento.
— Yuri, você está na escuta? — perguntei, concentrado.
— Sim — respondeu.
— Pede para atrasar a carga — ordenei.
— Como? — retrucou.
— O policial está na nossa cola — falei. — Vamos trazer a mulher dele para cá.
Yuri engoliu a ideia. Não respondi mais, tinha a visão do plano inteira na cabeça. Enrolei um baseado e amaldiçoei o nome de Roberto baixinho.
— Ele vai se ferrar — murmurei. — Quero ver a cara dele quando souber que a mulher dele sumiu.
Ph, por sua vez, trouxe um comentário sarcástico que arrancou uma risada curta:
— Ela te deu gorjeta desta vez? — ele provocou, lembrando do dinheiro que Marcela havia deixado no carro que usei como isca.
Senti que estávamos no limite do jogo. Controle, informações e tempo precisavam casar. Se tudo desse certo, transformaríamos o medo deles em nossa vantagem. Se errássemos, a conta seria alta.
Fechei os olhos por um segundo, como quem coleciona fôlego antes do salto. Estava decidido: o próximo movimento seria cirúrgico. E ninguém poderia me tirar disso.