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1323 Words
Capítulo 9 Perigo narrando Estacionei a moto bem em frente à casa de Malu e Rd. O motor ainda fumegava quando percebi Joana vindo pela porta da frente, toda cheia de marra, com os braços cruzados, como se fosse a juíza do meu compromisso com ela. A menina, apesar de pequena, tinha um senso de cobrança que me pegava de surpresa às vezes. Ela devia ter uns cinco anos, mas já tinha uma postura quase adulta quando se sentia frustrada. — Você prometeu que vinha ontem, pai — ela disse, a voz firme, olhos semicerrados. Olhei para ela, tentando controlar o sorriso que queria escapar. Cada vez que a via, me lembrava de quantas vezes me arrependi do que fiz a mãe dela, de como todo o meu passado pesava nas costas de uma criança que não tinha culpa de nada. — Desculpa, meu amor — falei, me abaixando para ficar na altura dela. — Ontem o papai teve uns problemas, tive que resolver algumas coisas importantes, mas hoje eu vim. — Mas você prometeu e não cumpriu — ela retrucou, ainda com os braços cruzados, evitando me olhar. — Como você pôde fazer uma coisa dessas? Não resisti. Sorri para ela. — Me perdoa, meu amor — falei, passando a mão suavemente pelo seu rosto. — Você sabe que o papai te ama muito, e que você é a única mulher da minha vida, a mais especial. O semblante dela começou a se derreter. Os olhos verdes se encheram de brilho, e o pequeno sorriso que nasceu no rosto me deixou derretido. — Eu prometo que vou compensar — continuei. — Vamos fazer coisas muito legais, tudo que a sua mãe não deixa, a gente faz lá em casa. — Dormir depois da meia-noite? — ela perguntou, já animando. Assenti com um sorriso cúmplice. — Comer dois hambúrgueres, duas batatas fritas, dois milkshakes e vários brigadeiros em uma noite? — perguntei, provocando-a. Ela riu, encantada. — Tá bom, eu te perdoo — disse, me abraçando forte e me enchendo de beijos. — Mas quero uma boneca nova. — Outra? — perguntei, fingindo surpresa. — Sim — respondeu, sorrindo largo. — Uma que tenha os meus cabelos. Peguei os cachos negros e ondulados dela, apertando delicadamente. Joana era uma mistura perfeita entre eu e Maria Luiza. Tinha os traços delicados da mãe, mas a cor da pele e o brilho dos olhos herdados de mim. Uma pequena princesa que eu não podia deixar de mimar, mesmo com o mundo inteiro tentando nos afastar. — Aqui, vai lá e compra sua boneca. Depois me leva para a gente brincar lá em casa — ela comemorou, me abraçando mais uma vez e enchendo meus ouvidos de beijos. Rd se aproximou, estacionando a moto ao lado da minha. — Perigo — disse ele, sério. — Preciso falar contigo — respondi, me afastando alguns passos. — Achei que só queria falar com Ph — ele riu. — Tá com ciúmes? — perguntei, brincando. — Não se preocupa, não levarei seu amante embora. — Engraçado você — ele respondeu, ainda sorrindo, mas a seriedade voltou ao seu rosto. — O que aconteceu? — Podemos conversar em outro lugar? — sugeri. — No escritório? — perguntou ele. — Melhor na boca, longe de qualquer pessoa — falei. Rd entendeu imediatamente: não queria falar perto de Maria Luiza. — Entendi — disse, concordando. — Vamos descer, então. O peso do passado me atingiu naquele instante. Maria Luiza e eu tivemos um relacionamento conturbado; eu fui muito r**m para ela, tratei-a m*l, e ainda me arrependo profundamente. Ela era apaixonada por mim, e eu, por ela. Mas a pressão de ser dono do morro, de manter tudo sob controle, acabou destruindo qualquer possibilidade de um futuro juntos. Tivemos Joana e, logo depois, Maria Luiza se casou com Rd, meu primo. Eu demorei anos para tirar ela da minha cabeça, mas nunca me intrometi no relacionamento deles. Sempre respeitei o espaço de ambos e me coloquei apenas como “pai” da Joana. No dia em que minha filha nasceu, prometi a Malu que jamais encostaria em outra mulher, que não faria m*l a Marcela. Se Malu soubesse do meu plano, poderia achar que eu faria m*l a ela, e isso poderia estragar tudo. Eu precisava que tudo desse certo, sem complicações ou dor de cabeça. — Eu escutei os áudios — Rd falou, quebrando meus pensamentos. — Eu iria até a Maré. — Só que eu preciso colocar meu plano em ação — respondi, firme. — Então pega ela e leva para a Maré — disse ele, apoiando a ideia. — Se você veio pedir minha opinião, eu apoio totalmente. Mesmo Bn e Ph sendo contra. — Eles são contra porque acham que não devemos trazer ele para dentro do morro — falei. — Mas se executar bem o plano, podemos transformá-lo em um fantoche. — Ele está ameaçando a carga, e essa carga vale muito dinheiro, ouro praticamente — Rd continuou. — Se sequestrarmos Marcela e ele correr de um lado para o outro atrás dela, conseguimos a carga no prazo que precisamos, e ainda deixamos ele preocupado. — É exatamente isso que planejei — confirmei, aliviado por ele entender. — Então, vamos mandar bala — disse ele, sorrindo. — Eu só vou assistir de camarote, todas as suas ações bem-sucedidas. — Valeu, Rd — agradeci. — Mas, por favor, não saia daqui, ninguém pode saber. — Fica tranquilo — ele respondeu, confiante. — Ninguém vai saber. Despedi-me dele e voltei para o morro. Encontrei Yuri com alguns homens preparando os vapores. — Marcela tem médico de tardezinha — expliquei, analisando cada detalhe. — O motorista não está trabalhando hoje. Ela vai pedir Uber. Um de vocês dirige, outro fica no porta-malas. Quando isso acontecer, o que estiver no porta-malas… apagamos ela. — Trazemos para cá? — Yuri perguntou, surpreso. — Sim — confirmei. — Ela vai ficar aqui no morro, no casebre lá em cima. — Vai deixar a princesa no casebre? Achei que ia levar para a sua cama — ele riu, tentando quebrar o clima tenso. — Toma jeito, cara — falei. — Estamos falando de um negócio sério. Ela é esposa de policial e conhece o marido que tem. Apoia as atitudes dele. Meu envolvimento com ela foi apenas para conseguir informações. — Não está mais aqui quem falou — ele respondeu, com um sorriso cínico. — Vamos agir — determinei. — Temos algumas horas até que a hora chegue. Já manda um dos vapores rastrear o ID dela no aplicativo do Uber. Assim conseguimos ver quando ela pedir a viagem. — Pode deixar — disse Yuri, já pegando o celular. Todas as outras vezes deixamos passar, subestimamos os movimentos, e deu tudo errado. Desta vez, não podia falhar. Voltei para dentro da boca, contabilizando o dinheiro que entrava. Era muita grana, uma carga pesada chegando, e cada detalhe precisava estar perfeito. Um erro não era uma opção. As horas passaram devagar, mas de repente a rotina mudou: Marcela ainda não havia saído. — Ela ainda não saiu — Yuri comunicou pelo rádio, preocupado. Algo estranho estava acontecendo. Liguei todas as câmeras e microfones instalados, mas o silêncio dominava a casa. Apenas Roberto se movia, indo de um lado para outro, pegando sua chave e batendo a porta ao sair, mas nenhum sinal de Marcela. Revirei as gravações anteriores. Consegui ouvir apenas o começo de uma discussão: gritos de Marcela, respostas ríspidas de Roberto. As palavras se perdiam na intensidade do momento, impossível de entender completamente. Coloquei a mão no rosto e senti o frio da preocupação crescer. Algo estava fora do planejado. Ela não tinha saído de casa, e cada minuto aumentava a tensão. O relógio parecia andar mais rápido enquanto eu tentava descobrir o que poderia ter acontecido. — Merda — murmurei, baixinho. — Preciso saber onde ela está antes que seja tarde demais.
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