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1453 Words
Capítulo 10 Marcela narrando Eu estava na cozinha, concentrada em preparar o almoço, quando ouvi a porta da sala se abrir e vozes estranhas. Meus ouvidos captaram imediatamente o timbre de Laura, e logo depois o de Roberto. O coração disparou, mas tentei me acalmar. Voltei para a bancada, espiei rapidamente pela porta entreaberta da cozinha e respirei fundo. Hoje não havia nem a empregada, muito menos o motorista. Eu estava completamente sozinha. Continuei preparando a comida, tentando ignorar os passos que se aproximavam. Quando olhei para trás, vi Laura entrando na cozinha, com aquele sorriso presunçoso no rosto, o tipo de sorriso que fazia a pele arrepiar. — Olá — disse ela, passando pelo ar da casa como se fosse dona do espaço. — O que tem hoje de almoço? — Vai almoçar aqui? — perguntei, tentando manter a calma. — Seu marido me convidou — ela disse, e naquele tom, cheio de malícia, me senti completamente invadida. — Na verdade, logo logo você será jogada de escanteio, e eu vou tomar conta de tudo aqui. Você talvez sirva apenas para ser nossa empregada. Eu permaneci em silêncio, respirando fundo, me controlando para não responder às provocações. A raiva crescia dentro de mim, mas sabia que qualquer reação agora poderia piorar tudo. Ela provou a comida e franziu o nariz. — Essa comida está horrível — disse, provocando-me. — Não foi você que fez — retruquei, firme. — Se tivesse sido, realmente estaria horrível. Ela abriu um sorriso vitorioso. — Você acha que pode me enfrentar, é isso mesmo? — perguntou, inclinando a cabeça. — Eu tenho pontos com Roberto, chamo ele aqui e ele acaba com você. — Fico abismada de ver você achar que é especial para ele — falei, encarando-a diretamente. — Você quer me descartar para ser a principal, a esposa. Mas sinto muito em te informar, assumir esse papel é horrível. — Você reclama de barriga cheia. Deveria agradecer a Deus por ele ter tirado você do buraco de onde veio, sua caipira sem educação — ela continuou, cada palavra uma lâmina cortando meu peito. — Você não tem educação, não tem etiqueta para estar ao lado dele. Se eu fosse Roberto, teria vergonha de te apresentar para alguém. Você é patética. Minha paciência acabou. — Cala a sua boca! — gritei, exaltada. — Quem você acha que é para me ofender? Aaaaah, lembrei! A que quer ser amante de um velho nojento que nem ele! Você me chama de patética, mas eu estou aqui obrigada, e você está fazendo isso por luxo! Ela sorriu, satisfeita, mas não pude me conter: — Eu estou com ele porque gosto — disse, e eu comecei a rir sem parar, a ponto de me assustar. — Está rindo por quê, sua i****a? — i****a é você — respondi — em achar que o mundo é um conto de fadas. Ele não é a pessoa que você imagina. Ele machuca as pessoas sem pensar. Você deveria ter medo dele, em vez de se glorificar por aí, achando que está no controle. Ela, irritada, jogou água quente em mim. — Você é maluca! — gritou, desesperada. — Olha o que você fez! Ela sorriu, maléfica, como se tivesse ganhado a batalha antes mesmo de começar. — Cala a boca — gritei. — Sua i****a, some daqui! — insisti. — Sai da minha cozinha! — Você me machucou! — ela gritou, indignada. — Você jogou água quente de propósito! Nesse instante, Roberto apareceu. — O que está acontecendo aqui? — perguntou, entrando na cozinha. Laura apontou para mim, sorrindo satisfeita. — Eu não fiz nada — tentei me explicar, nervosa. Ele me encarou, o olhar frio, calculista. — Ela me jogou água quente! — Laura gritou. — Disse que não era para eu estar aqui, mas mesmo assim fui e ela me atacou! — Eu não fiz isso! — insisti. — Você me conhece, Roberto! Eu não faria isso, ainda mais passando por cima de uma ordem sua! — Então estou mentindo, Roberto? — Laura perguntou, mostrando a mão com marcas de água quente. — Olha aqui! — Você se jogou — falei, nervosa. Roberto levantou a mão e falou, firme: — Sobe, Marcela! — Não! — eu disse, tentando recuar. — Sobe! — ele repetiu, agora com tom de ordem inegociável. Olhei para Laura, que ainda sorria satisfeita, e para Roberto, que tinha o semblante fechado, os olhos ardendo em raiva. Respirei fundo e fui, chorando, em direção ao quarto. Ele entrou logo atrás. — Eu não fiz nada — tentei explicar, soluçando. — Quantas vezes eu disse que, independente de quem eu traga para dentro de casa, você deve tratar bem? — ele gritou. — Você é surda? i****a? Burra, Marcela? — Eu não fiz nada! — disse, andando para trás conforme ele se aproximava. — Juro que foi ela! Eu estava fazendo o almoço, quieta! — Estou cansado — ele continuou. — Nos últimos dias você resolveu me tirar para i****a, sendo irônica, me respondendo, não me obedecendo. Dei uma trégua, mas agora percebi que não deveria ter sido bonzinho. — Foi ela! — gritei. — Ela tem vontade de me colocar para fora daqui! Fui encostando minhas costas contra a parede, a ansiedade e o medo crescendo. Ele se aproximou, passou a mão pelo meu rosto com força e virando minha cabeça. Comecei a chorar. — Eu já disse! Aqui você não manda em nada! — gritou. — Você é uma v***a que teu pai me deu em troca de uma dívida! — Ele me jogou na cama, segurando meus cabelos. — Você está me machucando! — gritei. — Me larga, seu velho nojento! Ele me deu um tapa, seguido de p************s: — Sabe o que devo fazer com você? Te vender — disse. — Te vender para outro velho nojento, pior que eu, para você aprender a dar valor ao que tinha. — Valor ao que eu tenho? — perguntei, horrorizada. — Tenho nojo de você! Ânsia de vômito toda vez que te vejo! Você é imundo! Ele me deu um soco no rosto, fazendo eu cair para trás. Rasgou minha roupa rapidamente, sua força maior do que eu podia suportar. Me arrependo imediatamente das palavras que disse. — Caipira de merda — ele falou, segurando meu queixo. — Você nunca mais vai levantar a voz para mim! Ele se levantou, tirou a cinta e começou a me bater. Eu tentei me encolher, mas cada golpe me atingia com violência. Gritei e implorei, mas nada adiantava. — Para! — gritei, tentando proteger o rosto com as mãos. A cinta atingia minhas mãos, a dor era indescritível. — Para! Você está me machucando! Eu te odeio! — Você vai me odiar ainda mais! — ele falou, e o golpe veio de novo. A cinta atingiu meu rosto, cortando minha boca. Sangue escorria. — Eu odeio você! — gritei, entre lágrimas. — É para me odiar mesmo — ele disse, saindo do quarto e trancando a porta. — A partir de agora, será assim. É o que você escolheu para você. Sentei-me na cama, nua, vendo meu corpo todo machucado. A cinta tinha fivelas que perfuraram minha pele, deixando cortes profundos. Meu rosto estava deformado, meus lábios cortados, sangrando muito. Tentei estancar com um esparadrapo, mas nada funcionava. As lágrimas se misturavam ao sangue. Fechei os olhos, sentindo uma dor enorme no peito. Tentei me levantar para ir ao banho, mas os cortes nas solas dos pés faziam cada passo uma tortura. Caminhei lentamente até o chuveiro, tentando suportar a dor, mas a água parecia facas queimando minha pele. Desliguei a água e sentei no chão, chorando, completamente destruída. — Por que, Deus? — sussurrei. — Por que estou passando por tudo isso? Sempre fui devota, cuidei do meu pai, da casa, sempre fui uma filha exemplar… E agora? Por que isso comigo? Voltei para o quarto e encontrei um remédio para dor. Bebi dois comprimidos com a água da jarra e me deitei na cama, exausta, adormecendo lentamente. (...) Acordei sobressaltada, soltando um gemido de dor. O quarto estava escuro, e a janela aberta deixava as cortinas voarem. Havia frio, e o carro de Roberto não estava mais lá. Tudo parecia estar sem luz. Quando me virei, dei um grito: uma figura estava no escuro, diante de mim. Suas mãos enormes tocaram meu rosto antes mesmo que eu pudesse reagir. Comecei a me debater, mas ele me pressionou contra a parede. Um pano fedido cobriu meu rosto, me deixando quase sem ar. Pensei imediatamente: é Roberto me matando. Mas não consegui identificar quem era. Meu corpo enfraquecia, e aos poucos fui perdendo a consciência. Meu mundo escureceu.
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