CAPITULO 14

1255 Words
Capitulo 14 Arthur Narrando Eu perdi o controle. Comecei a lutar com todos eles, com todas as minhas forças, com a fúria de quem já está morto por dentro. Sei que bati em cinco deles, atirei e acertei dois, até que conseguiram me dominar por completo. Tiraram as armas das minhas mãos, arrancaram o meu colete à força, e começaram a me espancar com uma crueldade sem fim. Foi então que ele apareceu: o Olho. Ele veio até mim, tirou a pistola da cintura, olhou nos meus olhos com desprezo, e disparou dois tiros. Um pegou no meu peito, bem na clavícula, queimando tudo ao passar. O outro acertou a barriga, entrou e saiu de raspão, mas deixou uma dor insuportável. Eu caí ao chão, sentindo a vida se esvair, o sangue escorrer por todo lado. — Vamos levar ele. Um deles disse. — Vamos jogar ele, deixar escondido até a poeira baixar. Eles me arrastaram morro abaixo, e quando eu já ia perdendo os sentidos, levantei os olhos e vi o Jonas, lá em cima, parado numa laje, me olhando, com o rosto banhado em lágrimas. Eu olhei firme para ele, e ele entendeu o recado: “Foge, sobreviva, conta para o meu pai”. Ele ajeitou o fuzil nas costas, olhou uma última vez, e saiu correndo dali. Depois disso, eu não vi mais nada, apaguei de vez. Acordei num lugar estranho, um quarto pequeno, cheiro de remédio, dor em todo o corpo. Comecei a pedir ajuda, e uma mulher, que parecia ser uma senhora enfermeira, veio até mim, com o rosto doce, e falou baixinho: — Calma, moço... o senhor está bem, está salvo. — Quantos dias eu estou aqui? — perguntei, já sentindo um aperto enorme no peito. — Há oito dias... — ela respondeu, desviando o olhar. Me desesperei, tentei me levantar, a dor veio cortando igual uma faca: — Onde está a Estela? Ela baixou os olhos, as lágrimas caindo devagar, e disse com a voz embargada: — Infelizmente... ela está morta, meu filho. Os seus pais vieram, reconheceram o corpo, a sepultaram. Eles levaram os seus filhos, foram embora para os Estados Unidos, para ficarem em segurança. Eu olhei para ela, confuso, o coração partido em mil pedaços: — Quem é a senhora? Como a senhora sabe tudo isso? Por que está aqui? Ela olhou para os lados, com medo, e contou: — Meu nome é Marta. Eu fui muito amiga da sua mãe... vim aqui porque eles me pegaram na minha casa, me trouxeram à força para cuidar de você. Eu sou enfermeira. Eles vão te entregar para a polícia em breve... não se preocupe, o Jonas tomou conta de tudo por lá, ele está vivo e forte. Eu vou falar com ele para saber onde você vai estar, porque não posso te ajudar a fugir, eles não me deixam sair daqui. Mas, por favor, não faça nada de besteira... eu ouvi eles dizerem que se você sobreviver e resolver lutar, eles vão te matar. E os seus filhos precisam de você, eles precisam do pai deles vivo. A porta se abriu de repente, e o Olho entrou rindo, aquele riso que me dava ânsia de vômito. Olhou para mim, zombando: — Ué, o ladrão tá vivo ainda? Que pena... Eu não respondi, só olhei com todo o ódio que eu tinha. Ele virou-se para a dona Marta e ameaçou: — Amanhã você já vai embora, volta para a sua vidinha. Mas escuta bem: se você disser alguma coisa, se contar o que aconteceu, eu sei como entrar e como sair lá do morro a hora que eu quiser. Aquele o****o que está lá agora, pensando que manda, não vai me ver chegar. Eu entro lá e te mato, você e aquela sua filha, entendeu? Ninguém me segura. Ele saiu, batendo a porta com força. Eu fiquei olhando para ela, pensativo, e perguntei: — Você era amiga da minha mãe? Como assim? Eu nunca vi a minha mãe andando com ninguém, a única amizade que ela tinha era com a Keila, e ela está lá fora, nos Estados Unidos, junto com ela. Dona Marta abaixou a cabeça, brincou com as mãos, e revelou o segredo que mudou tudo: — Eu fui amiga da sua mãe biológica, Arthur... Ela me deixou no morro há muitos anos, porque ela queria te matar quando você era neném, e eu não aceitei, não deixei ela fazer isso. Eu saí do morro, na época, e estava grávida... nunca disse nada para ninguém, não contei a ninguém da gravidez. Tive uma menina, o nome dela é Alícia, ela tem dezenove anos hoje. — O pai dela é alguém do movimento? — perguntei, confuso. Ela confirmou com a cabeça, os olhos cheios de culpa e tristeza: — Sim... — Quem é ele? Me fala! — Isso não vem ao caso agora, mas... eu vou te dizer, porque você merece saber. O pai dela se chama Gino. Mas eu nunca contei isso para ele, nunca ninguém ficou sabendo. Nós tivemos uma única noite, antes dele se casar com a Keila. Eu era apaixonada por ele, gostava de verdade, mas ele nunca me quis de jeito nenhum. Ele saiu comigo só porque estava doidão, eu sei disso... mas eu me aproveitei daquela chance, mesmo assim, e engravidei. Nem a sua mãe biológica chegou a saber, eu fugi logo em seguida. Voltei para o morro tem alguns meses com a minha filha, nós moramos na parte esquecida, do lado errado, onde ninguém vai, mas vivemos bem, na nossa paz. Eu trabalhava no postinho de saúde... não sei se ainda está de pé, ou se destruíram tudo com a guerra. Mas escuta: eu vou arrumar tudo para você. Vou falar que você vai ser transferido daqui a três dias, vão te levar para a delegacia, chegará um advogado para te defender. Eu vou fazer isso, mesmo que eu morra depois, não vou deixar de te ajudar. Assim como eu não quis que você morresse há tantos anos atrás, não vou deixar que morra agora. A porta abriu de novo, um dos capangas gritou por ela: — Ei, Marta, arruma tuas coisas, já vai embora! Ela se levantou devagar, jogou as coisas na bolsa, chegou perto de mim, puxou discretamente da minha mão uma pulseira e um anel que eu usava, guardou dentro da bolsa, e fez um sinal de positivo com a cabeça, dizendo sem palavras: “vai dar tudo certo”. E saiu, deixando-me ali com a cabeça cheia, com segredos que eu nunca imaginei existir. Eu ainda estava muito ferido, cada movimento era uma dor, o machucado ardia como fogo. Pouco depois, eles me chamaram, me pegaram, e me entregaram diretamente nas mãos do delegado do BOPE. Agora, estavam me levando para a audiência de custódia. Quando eu estava saindo, sendo empurrado para dentro do carro, vi quando eles botaram a dona Marta dentro de outro veículo. Ela olhou firme para mim, fez um sinal com a cabeça indicando para onde eles iriam me levar, como se quisesse me dizer que sabia de tudo, que ia me acompanhar de longe. Dali me levaram para muito longe, eu apaguei novamente por causa da dor e do cansaço. Quando eu abri os olhos de novo, estava dentro de uma cela fria, úmida, e todos os outros presos estavam me olhando pela grade, com olhares curiosos, uns com pena, outros com maldade, como se eu fosse uma lenda viva, ou um homem que já deveria estar morto.
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