CAPITULO 15

898 Words
Capítulo 15 – Melina Narrando Desde que chegamos de volta dos Estados Unidos, o meu coração não conhece mais paz, a inquietação não sai de dentro de mim um só minuto sequer. O meu filho está desaparecido, ninguém sabe onde ele está, não aparece em lugar nenhum, ninguém dá notícias, e essa incerteza me mata um pouco mais a cada dia. Deixei o meu esposo Jimi lá no Brasil, encarregado de resolver tudo isso, de procurar por ele, de correr atrás da verdade, e eu tive que vir embora trazendo as crianças comigo. Foi a decisão mais dolorosa que eu já tomei, mas foi necessária: a pequena Damares não parava de perguntar pela mãe, o tempo todo chamava por ela, chorava pedindo o colo da Estela, e eu não tinha coragem de responder, não sabia o que dizer para uma criança tão pequena, que já sentia falta mesmo sem entender que a mãe dela tinha partido para sempre. Sinto uma pena tão grande da minha neta que chega a doer a alma. Os dois meninos, o Arthurzinho e o Heitor, estão mais calados, mais quietos, diferente de como eram antes, mas ainda brincam um com o outro, tentam distrair a cabeça, são fortes, puxaram o pai. Já a Damares... coitada da minha netinha, só vive no colo. Quando não está comigo, agarrada ao meu pescoço como se eu fosse a única segurança que resta no mundo, está com a Keila, que tem sido um anjo na nossa vida, nos ajudando a cuidar delas. Nós já não sabemos mais o que fazer para alegrar o coraçãozinho dela, para fazê-la sorrir de novo. Meu Deus... como faz falta a Estela aqui conosco. Como dói lembrar como ela morreu, daquele jeito tão c***l, tão violento, tão injusto, arrancada da gente sem dó nem piedade, deixando todos nós em luto e dor. De repente, o telefone tocou alto pela sala, quebrando o silêncio que parecia pesar sobre todos nós. Saí correndo para atender, com o coração na mão, na esperança de ser uma notícia boa, e quando olhei para a tela, vi que era o Jimi, meu amor, querendo falar comigo. Atendi na mesma hora, e a voz dele, embora firme, trazia toda a seriedade da situação: — Melina, meu amor, estou indo agora com o advogado para a audiência de custódia. Mas escuta bem o que eu vou te dizer: eu vou entrar lá usando a máscara de silicone que eu mandei fazer ainda nos Estados Unidos, aquela que muda todo o meu rosto, ninguém vai ter como me reconhecer, ninguém vai desconfiar de nada. Lá dentro, o meu nome é Cláudio Luiz, e eu vou apresentar a carteira falsa de identidade como se eu fosse o pai do Luiz Antônio. Mesmo que na rua e na delegacia os policiais insistam em chamar ele de Arthur, o juiz já sabe que ele responde por esse nome também, que são a mesma pessoa. Eles já mandaram verificar se o documento é falso, investigaram tudo, mas não conseguiram provar nada, está tudo perfeito, ninguém descobre. Agora, o que eu mais preciso é da sua força, da sua fé, me manda toda a energia positiva do mundo, reza por nós, porque eu vou fazer de tudo para trazer o nosso menino de volta, custe o que custar. Desliguei o telefone devagar, fiquei parada ali, segurando o aparelho contra o peito, sentindo uma esperança renascer no meu coração, uma vontade de acreditar que dessa vez vai dar certo, que a sorte vai virar ao nosso favor. Tomara, meu Deus, tomara que tudo dê certo, que tudo saia como planejado, que o Jimi consiga chegar perto do nosso filho, que consiga ajudá-lo, que Arthur saia dessa confusão todo inteiro e volte para os braços da família que o ama. Respirei fundo, limpei as lágrimas que teimavam em cair e fui cuidar dos meus netos, pois eles precisam de mim, precisam que eu seja forte por todos nós. Levei eles para tomar banho, enchi a banheira de espuma para se divertirem um pouco, depois arrumei o lanche da tarde com tudo o que eles gostam, para ver se conseguia arrancar pelo menos um sorriso daqueles rostinhos tristes. Quando terminaram de comer, sentei todos eles bem aconchegados no sofá, liguei a televisão nos desenhos animados, e fiquei ali observando, pensando no futuro. Já comecei a procurar uma escola boa, uma instituição séria e segura, para matricular o Arthurzinho e o Heitor, para eles terem onde estudar, onde conviver com outras crianças, para tentar levar uma vida normal dentro de toda a tragédia que estamos vivendo. Já a Damares... ah, a minha pequena, ela ainda tem um ano inteirinho em casa pela frente, pois só tem três aninhos. Eu também não tenho coragem de colocá-la numa escola ainda, tão novinha, tão frágil, tão carente de tudo. Ela ainda não sabe se defender sozinha, não sabe explicar o que sente, e eu prefiro mantê-la aqui, pertinho de mim, onde eu posso cuidar, proteger e dar todo o amor que a mãe dela não pode mais dar. Passamos o resto da tarde assim, brincando muito com eles, espalhando brinquedos pela sala, vendo filmes de desenho, cantando músicas, fazendo de tudo para distrair a mente deles, e também a minha, esperando ansiosamente por qualquer notícia que viesse do Brasil, esperando o momento em que a nossa família poderia, finalmente, se reunir novamente.
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