CAPITULO 16

1264 Words
Capítulo 16 Jimi Narrando Chegamos ao fórum bem cedo, e logo comecei a avaliar o advogado que eu tinha contratado. Paguei caro pelo serviço, mas pude ver na hora que tinha valido a pena: ele é bom, muito bom. Mas a situação do meu Arthur é complicada, muito delicada. Ele foi pego em meio ao tiroteio, trocando tiro com a polícia, e não havia muito o que fazer para negar os fatos. Eu só fui até lá para ver o meu filho, para ver como ele estava com os meus próprios olhos, e também porque, de repente, poderia até ser que ele fosse condenado, mas eu tinha esperança de que não pegasse muitos anos de prisão. Os jurados entraram primeiro na sala, depois o povo todo, e finalmente chegou a hora: o meu filho entrou. Eu tinha me posicionado num lugar estratégico, bem onde ele teria que passar pertinho de mim. Aproveitei o momento e coloquei nas mãos dele um bilhete escrito pela mãe dele, a Melina, junto com uma fotografia de toda a família, com uma dedicatória escrita atrás, tudo para dar força e esperança para ele. A audiência começou. Eu olhava para o meu filho e não conseguia acreditar no que eu via. Ele estava tão magro, tão abatido, o rosto fundo, os olhos sem brilho, e ainda entrou numa cadeira de rodas por causa dos ferimentos que levou na invasão. O meu coração foi cortado em pedaços, doeu profundamente ver o meu menino naquela situação, tão vulnerável. Os meus olhos se encheram de água. Eu ouvia tudo atentamente: as acusações pesadas contra ele, os argumentos da defesa tentando amenizar os fatos. Mas o meu foco todo estava no juiz. Eu tinha pago uma boa quantia para ele, um dinheiro por fora, e ele tinha me garantido que não ia dar uma sentença muito longa para o meu filho. Mas ele também foi sincero: disse que não podia absolvê-lo de jeito nenhum, porque os jurados estavam convictos, não iriam deixar. E realmente foi o que aconteceu: a decisão foi unânime, todos votaram que ele era culpado. O juiz olhou na minha direção, eu senti o olhar dele, e ele proferiu a sentença: quinze anos de prisão. Mas quando o Arthur ouviu, ele levantou a cabeça, olhou firme para mim, com aquela força que vem da família, e disse apenas, bem baixinho, só para mim ouvir: — Cuida dos meus filhos, pai... cuida deles até eu sair. Eu não me assustei com os anos, não mesmo. Eu conheço como funciona esse mundo, e eu sei, tenho certeza absoluta, que o meu filho não vai ficar lá dentro nem a metade desse tempo. Depois que acabou, conversei bastante com o advogado, acertei tudo e paguei o restante dos seus honorários. O juiz foi bonzinho, mandou que eu pudesse abraçar o meu filho antes de o levarem. Apertei ele nos meus braços com toda a minha força, sentindo a fragilidade do seu corpo, e falei bem pertinho do ouvido dele: — Está tudo bem, meu filho, fica tranquilo. Você vai tirar isso de letra, isso aí é nada para nós. Eu vou mandar garantir todas as regalias possíveis para você dentro da cadeia, vou arrumar telefone para você falar com a gente, e todo mês vou mandar uma boa quantia de dinheiro, o suficiente para você ter tudo o que precisar. Vou deixar tudo com o Jonas, ele vai tomar conta de tudo e vai te passar o que eu mandar. O Jonas agora é quem manda no morro. Eu já tinha estado com o Jonas antes, conversado bastante. Ele está muito triste, abatido, carrega a culpa e a dor de tudo o que aconteceu, mas ele é leal, é família. Saí do fórum e fui direto para o morro, encontrei com ele novamente e dei todas as orientações necessárias, expliquei cada detalhe do que eu quero que seja feito. — Eu vou ficar aqui quinze dias com você, Jonas. Nesse tempo eu te ensino tudo, te ajudo a organizar, e depois você segura a barra sozinho, com a minha ajuda de longe. O Arthur levou quinze anos, mas ele não vai ficar lá muito tempo, não. Quando chegar o momento certo, quando tudo estiver calmo e seguro, você me manda uma mensagem, e eu venho, pago o que for preciso, abro um caminho, e o meu filho passa direto, livre dessa prisão. Depois de tudo resolvido com ele, fui até a varanda da boca, lugar onde sabia que ninguém ia me atrapalhar, e liguei para a minha esposa, a Melina. Contei tudo direitinho, falei qual foi a sentença, e descrevi como ele estava, a magreza, o sofrimento. Mostrei a ela as duas fotos que eu tinha conseguido tirar dele às escondidas, mandei pelo telefone. Ela chorou muito, desesperada, dizendo que não acreditava que ele estava daquele jeito, tão acabado. — Mas é assim mesmo, meu amor... essa é a vida da gente, dura, difícil, mas a gente resiste — falei para ela, tentando acalmá-la. — Daqui a quinze dias eu estou de volta nos Estados Unidos, com vocês. Por enquanto, vou ficar aqui no Brasil para resolver algumas coisas que ficaram pendentes. Uma dessas coisas é a minha nora, a Estela. O meu coração ainda dói muito, dói fundo, só de lembrar como ela morreu, da forma c***l que foi assassinada. Mandei fazer um mausoléu para a família, lindo, imponente, e já dei ordens para que os restos mortais dela sejam colocados lá, com toda a dignidade que ela merece. Também resolvi tudo sobre as lojas: encaixotei todas as roupas lindas que dela restaram, o que sobrou, pedi para as pessoas que trabalhavam com ela virem buscar o que quisessem, fechei a loja do Rio de Janeiro de vez. A de São Paulo continua aberta, pois tem um gerente de confiança que cuida de tudo lá. E todo o resto, todas as caixas e mais caixas de roupas que estavam no depósito, mandei embarcar tudo para os Estados Unidos, para guardarmos como lembrança, como parte da história dela. Depois de resolver tudo isso, olhei firme para o meu amigo Gino, que estava ao meu lado todo esse tempo, e falei com voz pesada, cheia de determinação: — Eu descobri onde ele está, Gino. O traidor. O tal do Olho. Ele está morando agora na divisa da Bahia com Minas Gerais, foi para lá achando que ia escapar. Mas ele sabe, ele sempre soube que a gente ia atrás. E agora nós vamos pegar ele. Na mesma noite, entramos num carro blindado, eu, Gino, o Jonas, mais quatro homens de confiança, corajosos e leais, e partimos estrada afora rumo a Minas. Chegamos lá no dia seguinte, paramos num hotel de beira de estrada, tomamos café forte para acordar, tomamos banho para renovar as forças e dormimos um pouco para esperar cair a noite, pois era de noite que íamos agir. Quando escureceu completamente, fomos direto para a casa dele. Entramos lá dentro sem fazer barulho, e tivemos sorte: ele estava sozinho. Se estivesse com a esposa, ou com qualquer outra pessoa, eu tinha decidido que ia matar ela também, ninguém ia testemunhar nada. Pegamos ele, antes mesmo que ele pudesse gritar ou entender o que estava acontecendo. Cortamos ele aos pedaços, devagar, do jeito que traidor merece, deixamos o que restou dele espalhado bem no meio do quintal da sua própria casa, para que todos vissem o que acontece com quem nos trai. E saímos calmos, com a consciência limpa e a dívida paga. É assim que nós fazemos, é assim que nós tratamos traidor.
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