Capítulo 17 – Arthur Narrando
Peguei quinze anos de prisão. Quinze anos... Parece uma eternidade, um tempo que eu não tenho a menor intenção de cumprir por inteiro. Claro que eu não vou ficar tudo isso aqui dentro. Daqui um tempo, com a ajuda do meu pai, com o dinheiro e a inteligência que a nossa família tem, eu vou dar o meu jeito, vou arrumar um caminho para sair, custe o que custar. Mas, por enquanto, estou aqui, trancado, e o que mais pesa não são as grades, mas a dor que carrego no peito.
Estou profundamente revoltado, um ódio que queima por dentro, e ao mesmo tempo uma tristeza que não tem fim, tudo causado pela perda do meu amor, da minha Estela. Ela se foi, levada de mim da forma mais c***l que existe, e eu não pude fazer nada para salvá-la. Não sei mais o que vai ser da minha vida daqui para frente, não vejo sentido em muita coisa, mas uma coisa eu tenho certeza: eu vou resistir. Vou aguentar cada dia, cada segundo, porque eu tenho os meus filhos lá fora, esperando por mim, precisando de mim. É por eles que eu respiro, é por eles que eu não me entrego.
Na verdade, eu já estou morto por dentro. A covardia que fizeram comigo, armarem tudo para me pegar, matarem a minha mulher, me ferirem e me jogarem aqui, isso tudo matou qualquer coisa boa que restava em mim. E o tal do Olho... ah, ele vai me pagar. Ele é o culpado de tudo, ele traiu, ele entregou, ele matou, e eu juro por tudo o que é sagrado: um dia eu saio daqui, e ele vai conhecer a fúria de um homem que já não tem nada a perder.
Na primeira noite que passei aqui, já comecei a sentir o peso de como as coisas funcionam nesse mundo escuro. Tarde da noite, recebi uma visitinha inesperada. Três homens, todos encapuzados, chegaram, abriram a porta da cela sem explicação, me agarraram e me arrastaram para um lugar escondido, nos fundos do presídio, onde ninguém vê, ninguém ouve. E lá começou a sessão de pancada. Bateram em mim como se eu fosse um animal, chutes, socos, pauladas, sem dó, sem motivo aparente, só para mostrar quem mandava, só para fazer sofrer. Apanhei tanto que apaguei, perdi os sentidos no meio daquela dor toda.
Acordei só no outro dia, de volta à minha cela, jogado no chão frio e sujo. Alguns presos que passavam olhavam para mim com pena, outros com curiosidade, ninguém falava nada. Tentei me levantar, mas não consegui. Cada movimento era uma dor insuportável, parecia que todos os ossos do meu corpo estavam quebrados, a pele toda ardia, e eu só podia ficar ali, imóvel, gemendo baixinho.
De repente, um dos caras que estava na cela ao lado esticou o braço pela grade, me estendeu um copo d'água e dois comprimidos brancos. Fiquei desconfiado, na defensiva, pensando que podia ser veneno, mais uma maldade, mas a dor era tanta, a sede era tanta, que acabei aceitando e engolindo tudo. Ele olhou firme nos meus olhos e sussurrou:
— Eu sei quem é você, Arthur. Eu sou um dos seus soldados, eu lutei com você no dia da invasão, também fui pego. Eu vi quando eles te tiraram do morro, vi que te levaram para fazer maldade, achei que iam te matar logo, que não iam deixar você aparecer vivo. Mas alguém, não sei quem, deu ordem para que não te matassem, para te entregarem às autoridades. Ainda bem, senão você já era. Agora presta atenção no que eu te digo: não reclama de nada, não fala com ninguém a mais. Aqui dentro, quem ganha é quem está calado, quem observa. Quem fala muito, quem faz perguntas, não sobrevive.
Entendi o recado na hora. Agradeci com o olhar, e a partir daquele dia, fiquei na minha, calado, observando tudo, aprendendo como funciona essa vida de grades.
Dois meses se passaram assim, devagar, cada dia parecendo um ano. Até que um dia, tudo mudou. Recebi um telefone celular, escondido, entregue por um policial que estava comprado pelo meu pai. Ele também me tirou da cela coletiva, apertada e suja, onde eu estava com mais vinte homens, e me levou para uma cela individual, só minha, isolada dos outros.
Era um quarto comparado ao que eu tinha antes. Tinha uma televisão, tinha um frigobar para guardar comida e bebida, e um colchão bem melhor, limpo e macio, onde eu podia descansar sem sentir dor no corpo todo. Deitado ali, olhando para o teto, eu percebi que, apesar de tudo, eu ia sobreviver. Que eu tinha forças ainda, e que agora era só esperar, esperar o momento certo, esperar o plano do meu pai dar certo. Mas eu não fazia ideia de como seria a minha vida depois daqui, nem sabia dizer se um dia eu iria ser feliz de novo.
Mas o destino gosta de brincar com a gente, e nada dura para sempre. Um ano depois de eu estar ali, já me acostumando com a tranquilidade, com as regalias, com o silêncio, chegaram ordens novas, mudanças repentinas. Eles me arrancaram daquela cela confortável, me algemaram e me levaram transferido para um presídio de segurança máxima, um lugar muito mais rigoroso, duro, onde o tratamento é outro, onde ninguém tem privilégios.
Foi ali que acabou toda a minha tranquilidade, acabaram as regalias, e começou o meu verdadeiro sofrimento. O inferno, que eu pensava já ter conhecido, só estava começando de verdade.