CAPITULO 18

863 Words
Capítulo 18 – Jonas Narrando Estou aqui, segurando as pontas, tentando organizar tudo no morro, manter a ordem, fazer o que deve ser feito... mas sem o Arthur, nada é a mesma coisa. O comando está comigo agora, mas o peso é enorme, e eu não me acostumo com essa responsabilidade. Desde que ele foi levado e preso, eu não tenho um minuto de paz, ando sempre nervoso, com medo de errar um passo, com medo de não estar à altura do que ele faria, com medo de decepcionar ele ou ao meu tio Jimi. Lembro-me como se fosse hoje o dia em que tudo aconteceu, o dia que eu perdi o chão de vez. Ver a covardia que fizeram com ele... mataram a mulher que ele amava, a Estela, da forma mais c***l possível, destruíram o coração do meu amigo de um jeito que nunca mais vai ter conserto. E como se não bastasse, ainda arrastaram ele morro abaixo, igual a um bicho, jogado, humilhado, sendo que ele já estava ferido, sangrando, quase morto. Eu nunca, em toda a minha vida, chorei tanto como naquele dia, vendo o meu irmão, o meu líder, sendo tratado daquele jeito. Depois disso, sumiram com ele por dez dias. Dez dias sem notícia, sem saber se ele estava vivo ou morto, sem poder fazer nada. Para mim, nesses dez dias, ele já tinha morrido. Eu voltei para cá com sangue nos olhos, com ódio de tudo e de todos, disposto a acabar com o mundo se precisasse. Se o meu tio Jimi não tivesse me segurado, se ele não tivesse conversado comigo, me acalmado e me dado juízo, eu tinha morrido, mas tinha invadido o fórum no dia da audiência de custódia e tirado ele de lá na marra, nem que fosse para morrer ao lado dele. Mas veio o julgamento, e com ele, a pancada final, a sentença que pareceu um soco no estômago: 15 anos. Caralho... quinze anos! Fiquei desorientado, sem rumo, não sabia o que fazer, não conseguia acreditar. Mas aí eu lembrei: o morro não pode parar, a família não pode parar, os negócios não podem parar. Eu tinha que seguir, tinha que ser forte por ele, já que ele não podia ser agora. Assumi tudo de vez, botei o Enzo — filho do meu tio Gino, um cara de confiança, esperto e leal — para ser o meu braço direito, para me ajudar em tudo, e passamos a tocar tudo como se ele ainda estivesse aqui, olhando por nós. Arranjei uma tia no morro que precisava de dinheiro,ela é de idade, uma senhora respeitada, para fazer visita, dizendo ser avó dele, para ter acesso e poder levar as coisas. Ela levava o que ele precisava: dinheiro escondido, roupas, e principalmente o "jumbo" e os arrego dos cana, tudo arrumado para garantir que ele tivesse tranquilidade lá dentro, que ninguém encostasse um dedo nele. Sempre mandei ela perguntar se ele queria mulher, se precisava de alguma companhia para se distrair, para aliviar a cabeça. Mas ele sempre negou, com o rosto fechado, o olhar distante. Ele não quer aproximação com nenhuma mulher, não quer saber de ninguém, porque para ele, a única mulher que existia, a única que ele amou, já se foi, e ninguém vai ocupar esse lugar. Deixei ordens claras para ele: ficar todo dia perto do aparelho, esperando a ligação da família dos estados unidos. Eles fazem sempre, chamadas de vídeo, para ele ver as crianças, ver a dona Melina tio Jimi, E também saber que não está sozinho. Eu mesmo ligo também, sempre que posso, mas cada vez que eu vejo ele na tela, com aquele olhar vazio, aquele olhar de quem já morreu por dentro, tão triste, tão calado, eu sinto uma dor no peito que não passa. Dói ver o meu amigo, que era cheio de vida, de risada, de força, daquele jeito, acabado pela dor e pela saudade. Tentei mandar uma mina para visita íntima, uma mulher bonita, carinhosa, que poderia fazer ele se sentir um pouco melhor, mas ele dispensou na mesma hora. Mandou dizer para mim que preferia que eu mandasse a tia de novo, porque ele só queria conversar, só queria falar de família, de coisas sérias. Ele não quer mais nada que não seja ligado ao que ele deixou aqui fora. Mas eu tenho fé, eu tenho certeza absoluta: Arthur, meu amigo, meu irmão... em breve você vai estar de volta, ocupando o seu lugar de direito, comandando tudo o que é seu. Esses 15 anos são só números no papel, nós sabemos como funciona as coisas, nós temos poder e dinheiro. Você não vai ficar preso por muito tempo não, pode esperar. Nós estamos aqui, segurando a barra, preparando tudo para o dia em que você pisar aqui de novo, e aí sim, a gente vai acertar todas as contas que ainda estão precisando ser acertadas. Falei para ele que meu tio Jimi matou o olho junto com meu tio Jimi. Vi os olhos dele ganhar vida outra vêz, mandei pra ele o vídeo do meu tio matando ele. Arthur sorria alto. Fiquei até mais alegre em ver ele feliz.
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