Capítulo 19
Arthur Narrando
Eu acordei no susto.
Na verdade…
Nem sei se tava dormindo direito.
Na cadeia a gente nunca dorme de verdade.
Só fecha o olho esperando o pior não acontecer.
Mas daquela vez…
O pior entrou na cela antes do amanhecer.
A porta abriu num estrondo tão forte que fez até o ferro vibrar.
— LEVANTA!
A voz veio seca.
Violenta.
Abri os olhos rápido já ficando de pé automaticamente.
Eram vários agentes.
Todos armados.
Cara fechada.
Colete pesado.
Um deles já entrou chutando a cadeira da cela.
Outro arrancou a televisão da parede e jogou no chão.
O barulho explodiu dentro da cela.
— Que p***a é essa?!
Perguntei sem entender nada.
Ninguém respondeu.
Só continuaram destruindo tudo.
Frigobar.
Ventilador.
Colchão.
Pegaram o colchão da minha cama e jogaram pra cela ao lado como se fosse lixo.
Aquilo não era procedimento normal.
Era intimidação.
Recado.
Meu coração começou a bater pesado.
Porque naquele instante eu entendi.
Tinha dedo de alguém grande ali.
Muito grande.
Olhei rapidamente pro canto da cela ao lado.
E vi um dos meus soldados fingindo dormir.
Mas eu sabia que ele tava acordado.
O moleque tava apavorado.
Mesmo tentando disfarçar.
Um dos policiais jogou um macacão laranja no meu peito.
— Veste.
Olhei a roupa.
Número 0088A estampado enorme.
Aquilo me deu um arrepio estranho.
Porque quando mudam teu uniforme assim…
É porque tua vida mudou junto.
— O que tá acontecendo?
Perguntei outra vez.
— Já avisaram minha família?
Silêncio.
Os filhos da p**a nem me olhavam.
Continuei encarando eles.
— Tão me levando pra onde?
Foi aí que um deles respondeu.
Frio.
— Presídio federal de Porto Velho Rondônia.
Meu sangue gelou.
Na hora.
Porque eu sabia exatamente o que aquilo significava.
Isolamento.
Cela sozinho.
Sem contato.
Sem controle de nada.
Sem meus homens.
Sem minha estrutura.
Sem meu território.
Aquilo ali era pra quebrar homem.
Olhei discretamente pro meu soldado.
Ele tava me encarando pelo canto do olho.
E eu sabia exatamente o que precisava fazer.
Passei a mão na nuca fingindo ajeitar o cabelo.
Depois bati dois dedos devagar perto da parede.
Nosso código.
Telefone.
Advogado.
Avisar todo mundo.
Ele entendeu na hora.
Baixou a cabeça imediatamente fingindo virar pro lado.
Mas eu sabia.
Ele ia fazer.
Os agentes mandaram eu virar de costas.
Algemaram minhas mãos.
E me tiraram da cela.
O corredor tava silencioso.
Só o barulho das botas ecoando.
Naquele momento…
Pela primeira vez em muito tempo…
Eu senti medo de verdade.
Não de morrer.
Mas do desconhecido.
Porque cadeia comum eu conhecia.
Sabia jogar.
Sabia negociar.
Sabia sobreviver.
Mas federal?
Federal era outro mundo.
Entramos numa viatura blindada.
Eu e mais quatro presos.
Todos escoltados por policiais fortemente armados.
Ninguém falava nada.
Só dava pra ouvir o motor e o som das correntes.
Ainda tava escuro quando chegamos no aeroporto.
A pista vazia.
O avião da Polícia Federal esperando.
Subimos algemados.
Cabeça baixa.
E foi ali…
Sentado naquele banco duro do avião…
Que a ficha realmente caiu.
Eu tava sendo arrancado da minha vida.
Do meu nome.
Do meu controle.
Olhei pela pequena janela enquanto o avião subia.
O céu ainda escuro.
E pensei no meu pai.
Jimi Bravo.
O homem que construiu um império no crime.
O homem que botava medo até em político.
E agora…
O filho dele tava sendo transportado como um animal perigoso.
Fechei os olhos respirando fundo.
Tentando manter a cabeça no lugar.
Porque eu sabia.
Ali dentro…
Qualquer vacilo custava caro.
A viagem pareceu eterna.
Ninguém conversava.
Os agentes só observavam.
Armas apontadas o tempo inteiro.
Quando finalmente pousamos…
O calor bateu primeiro.
Pesado.
Úmido.
Sufocante.
Porto Velho.
Descemos do avião cercados.
Levados direto pra uma sala fechada.
Fria.
Cinza.
Sem janela.
Mandaram a gente sentar separados.
Foi aí que percebi os olhares.
Os agentes me encarando diferente.
Analisando.
Como se eu fosse um bicho raro.
Um dos presos finalmente falou.
— Então quer dizer que tu é filho do Jimi Bravo.
Levantei os olhos devagar.
Mas não respondi.
Porque meu pai me ensinou cedo.
Na cadeia…
Quanto menos fala, melhor.
O homem deu um sorriso torto.
Como se minha ausência de resposta tivesse confirmado tudo.
Foi então que outro homem...
Mais velho.
Cabeça raspada.
Cheio de cicatriz.
Olhar pesado.
Mas diferente dos outros.
Ele olhou sem pressa.
Me analisando inteiro.
Depois puxou uma cadeira e veio pra minha frente.
— Relaxa.
A voz dele saiu calma.
Rouca.
— Aqui ninguém vai te tocar.
Continuei quieto.
Na defensiva.
Porque naquele ambiente confiar era sentença de morte.
O homem percebeu.
Deu um meio sorriso.
— Pode ficar susa.
Ele apoiou os braços nas pernas.
— Meu nome é Caveira.
O apelido combinava perfeitamente.
Porque o homem parecia saído de guerra às tatuagens dele era de muitas caveiras.
— Vou cuidar da tua proteção aqui dentro.
Franzi a testa.
— Por quê?
Ele me encarou firme.
E respondeu sem hesitar.
— Porque eu devo muito ao teu pai.
Aquilo me pegou de surpresa.
Muito.
Porque meu pai tinha influência em vários lugares.
Mas até ali?
No presídio federal?
Caveira continuou.
— Anos atrás…
Se não fosse teu pai…
Eu tava morto.
Silêncio.
— Então considera tua dívida paga comigo agora.
Eu continuei olhando ele.
Tentando entender até onde aquilo era verdade.
Até onde era armadilha.
Mas uma coisa era certa.
O respeito na voz dele era real.
Respirei fundo.
— Valeu.
Foi a primeira palavra sincera que falei desde que saí da cela.
Ele assentiu.
Depois levantou devagar.
— Aqui dentro tu vai aprender uma coisa rápido.
Ele apontou discretamente pro chão.
— Federal não é lugar de homem fraco.
— Aqui tu enlouquece… ou endurece.
A frase ficou ecoando na minha cabeça.
Porque olhando aquele lugar…
Aquelas paredes frias…
Aqueles corredores silenciosos…
Eu percebi.
Aquilo ali não era prisão.
Era um cemitério de homens vivos.
Pouco depois me levaram pra cela.
Sozinho.
Sem televisão.
Sem luxo.
Sem nada.
Só uma cama de concreto.
Um vaso sanitário.
Uma pia.
E silêncio.
Muito silêncio.
A porta fechou atrás de mim com um estrondo metálico.
CLANG.
E naquele instante…
Eu senti.
A solidão.
Pesada.
Brutal.
Sentei na cama encarando a parede.
Tentando manter a mente firme.
Mas a verdade?
Era que eu não fazia ideia do que vinha pela frente.
E isso…
Assustava mais que qualquer guerra.