Capítulo 20
Jonas Narrando
O telefone começou a vibrar do nada.
Olhei a tela ainda meio dormindo.
04:37 da manhã.
Meu coração apertou na hora quando vi o nome.
Arthur.
Sentei na cama rapidamente atendendo.
— Fala.
Mas imediatamente percebi.
Não era ele.
A voz do outro lado tava baixa.
Apavorada.
Quase sussurrando.
— Levaram o patrão.
Aquilo me arrancou o resto do sono na mesma hora.
— Como assim?!
Levantei da cama rápido.
— Pra onde?!
O cara respirou pesado.
Claramente nervoso.
— Porto Velho… Rondônia…
Meu sangue gelou.
— Que p***a é essa?
— Acabaram de sair daqui.
Passei a mão no rosto tentando raciocinar.
— Tu ouviu mais alguma coisa?
— Viu alguém?
— Falaram o quê?
O moleque parecia desesperado.
— Só vi que trocaram a roupa dele…
— Macacão laranja.
— Número 0088A.
Aquilo bateu estranho na minha cabeça.
Muito estranho.
Porque transferência daquele tipo…
Na madrugada…
Sem aviso…
Não era coisa pequena.
Era operação grande.
Silenciosa.
Perigosa.
Respirei fundo tentando manter a calma.
— Fez certo em ligar.
Desliguei imediatamente.
E na mesma hora liguei pro advogado.
O filho da p**a atendeu sonolento.
— Alô…
— Você sabe o que aconteceu com Arthur?!
O homem ficou quieto alguns segundos.
— Como assim?
— Não se faz de i****a comigo.
Minha voz saiu pesada.
— Acabaram de transferir ele pra penitenciária federal em Rondônia.
Silêncio.
Então ouvi a respiração dele mudar.
— O quê?!
— Eu não tava sabendo disso.
Aquilo me irritou mais ainda.
— Então pra que c*****o a gente paga uma fortuna pra você?!
Levantei da cama andando de um lado pro outro.
Nervoso.
— Quero notícia dele hoje ainda.
— Tá me ouvindo?
— Hoje.
Desliguei sem esperar resposta.
Meu coração tava acelerado.
Porque aquilo não fazia sentido.
Arthur não era qualquer preso.
Mover ele daquele jeito significava que tinha merda grande acontecendo.
Liguei imediatamente pro Jimi.
Ele atendeu rápido.
A voz já acordada.
— Fala.
— Levaram o Arthur pra Porto Velho.
Silêncio.
Pesado.
Depois ouvi ele respirar fundo.
— Quem te falou?
— Um dos soldados dele.
Contei tudo rapidamente.
O macacão.
A transferência.
O horário.
O silêncio da direção.
Tudo.
Jimi ficou quieto alguns segundos.
E aquilo era raro.
Muito raro.
Porque Jimi Bravo nunca ficava sem resposta.
— Vou mexer os pauzinhos aqui.
A voz dele saiu fria.
Perigosa.
— Mais tarde te ligo.
A ligação caiu.
Fiquei olhando o celular na mão.
Sentindo uma coisa r**m crescer dentro do peito.
Porque quando mexiam com Arthur…
Mexiam com todos nós.
Fui pro banheiro.
Tomei banho tentando esfriar a cabeça.
Mas não adiantava.
A mente rodava sem parar.
Quando desci…
A mesa do café já tava posta.
Mas eu m*l sentia gosto da comida.
Comi automático.
Pensando em mil possibilidades.
Tentando entender quem teria força suficiente pra mover Arthur daquele jeito.
Pouco depois fui direto pra boca.
O clima já tava estranho.
Os soldados cochichando.
Todo mundo nervoso.
Todo mundo querendo notícia.
Mas ninguém sabia de nada.
Passei o dia inteiro no telefone.
Tentando puxar informação.
Tentando abrir caminho.
Mas parecia que Arthur tinha simplesmente desaparecido do mapa.
E isso me assustava.
Porque cadeia federal era assim.
O cara sumia do mundo.
À noite…
O telefone tocou.
Era Jimi.
Atendi na hora.
— E aí?
A voz dele veio pesada.
— Foi gente nossa.
Franzi a testa imediatamente.
— Como assim?
— Tiraram ele do Gericinó porque descobriram uma rebelião.
Meu corpo travou.
— Rebelião?
— Tavam planejando fuga.
Silêncio.
Então veio a pior parte.
— E iam matar o Arthur no meio.
Fechei os olhos imediatamente.
Sentindo a raiva subir queimando.
— Filhos da p**a…
Jimi continuou.
— Um aliado puxou ele pra federal antes que acontecesse.
Passei a mão na nuca respirando fundo.
Pela primeira vez desde madrugada senti um alívio verdadeiro.
Pequeno.
Mas forte.
Porque se tinham tirado Arthur dali…
Era porque o bagulho tava sério.
Muito sério.
— E agora?
Perguntei.
Jimi respondeu seco.
— Dois meses.
— Talvez três.
— Depois da rebelião mandam ele de volta.
Assenti sozinho.
— Pelo menos tá vivo.
— Tá.
Pausa.
— Mas vai ficar incomunicável por enquanto.
Aquilo me incomodou.
Muito.
Porque Arthur preso já era perigoso.
Arthur isolado era pior ainda.
Desliguei a ligação tentando acreditar que aquilo era temporário.
Mas os dias começaram a passar.
E nada.
A rebelião aconteceu exatamente como tinham previsto.
Morreu gente.
Muito preso.
Muito agente.
O Gericinó virou guerra.
E naquele momento eu agradeci por Arthur não estar mais lá.
Porque provavelmente ele teria morrido mesmo.
Só que os meses começaram a passar.
Um.
Dois.
Três.
E nada de devolverem ele.
Nada.
Nem notícia.
Nem recado.
Nem confirmação.
O silêncio começou a ficar pesado.
Até pro Jimi.
E isso era o mais preocupante.
Porque Jimi Bravo sempre sabia das coisas.
Sempre.
Mas dessa vez…
Nem ele tava conseguindo.
Uma noite ele me ligou irritado.
— Perdi contato com Caveira.
Aquilo me gelou.
— Como assim perdeu contato?
— Sumiu.
— Não responde mais ninguém.
Meu coração começou a bater forte outra vez.
Porque Caveira era o homem que tava protegendo Arthur lá dentro.
E sem ele…
Arthur tava sozinho.
Totalmente sozinho.
No dia seguinte o advogado pegou avião pra Rondônia.
Foi pessoalmente.
Porque ninguém mais tava conseguindo informação concreta.
Passei o dia inteiro nervoso esperando retorno.
Andando pela boca.
Fumando sem parar.
Todo barulho de telefone fazia meu coração disparar.
Até que de noite…
Finalmente o advogado ligou.
Atendi rápido.
— Fala.
Do outro lado ouvi ele respirar fundo.
— Eu consegui ver o Arthur.
Fechei os olhos imediatamente sentindo o peso sair um pouco do peito.
— E aí?
Silêncio curto.
— Ele tá diferente.
Aquilo me travou.
— Diferente como?
A voz do advogado ficou mais baixa.
— Frio.
— Muito frio.
— Parece que envelheceu anos.
Meu peito apertou.
Porque eu conhecia Arthur.
Conhecia o jeito dele.
E sabia…
Federal mudava homem.
Destruía alguns.
Transformava outros.
— Mas ele tá vivo.
O advogado continuou.
— E mandou avisar uma coisa.
— O quê?
Silêncio.
Pesado.
Então veio a frase.
— “Diz pro Jonas que quando eu voltar… nada vai ser como antes.””
E naquele instante…
Eu soube.
O Arthur que saiu do Gericinó…
Não era o mesmo que um dia pisaria de volta no Rio.
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