CAPITULO 12

1273 Words
Capítulo 12 Estela Narrando Naquela hora, meu coração disparou de um jeito que pareceu que ia sair pela boca, batendo desesperado contra as minhas costelas. Eu sentia as mãos fortes e brutas daqueles homens me segurando pelos cabelos, me arrastando, me fazendo sentir toda a dor do mundo só com o aperto. Olhei para as minhas funcionárias, duas meninas tão jovens, que só estavam ali trabalhando, e elas me olhavam com os olhos cheios de lágrimas, de medo, implorando em silêncio, como se eu pudesse salvá-las de tudo aquilo. Não tive dúvidas, não hesitei um segundo. Confirmei, com a voz saindo fraca, mas firme: — Sim... Sim, eu sou a esposa do Arthur. Mas por favor, ouçam: eu não tenho nada a ver com a vida que ele leva, com o que ele faz. Eu só tenho a ver com ele como marido, como pai dos meus filhos, o resto eu não mexo, não sei, não participo... Um daqueles homens, o que parecia ser o chefe, veio depressa para o meu lado, chegou bem perto do meu rosto, com um olhar cheio de maldade e desprezo, e disse com voz dura, cortante: — Se você dorme com ele, se tem filhos com ele, se vive na casa dele... então você tem tudo a ver, sim. Você faz parte do pacote, mulher. E sem mais nem menos, ele começou a nos bater. Socos, empurrões, tapas, nos jogando de um lado para o outro como se nós não fôssemos nada, como se fôssemos lixo. Eu tentava me defender, tentava proteger as meninas, mas era inútil, éramos três mulheres contra monstros armados e cruéis. De repente, ele parou, olhou para os seus comparsas e deu a ordem com frieza, como quem manda desligar uma luz: — Pode matar essas duas. Dois dos homens levantaram as armas, apontaram direto para a cabeça das minhas funcionárias, e antes que eu pudesse gritar, pedir, implorar, ou até mesmo entender, ouvi dois tiros secos, altos, que cortaram o ar. Elas caíram no chão na mesma hora, sem um gemido sequer. Fiquei desesperada, senti uma dor tão grande no peito, uma culpa, um desespero que me rasgou a alma. Comecei a gritar, a berrar, chorando tanto que parecia que eu ia me afogar nas minhas próprias lágrimas, e eles continuaram me batendo, me chutando, me fazendo sofrer ainda mais. Foi aí que um deles falou, virando-se para o outro, como se estivessem só conversando: — Olha... você não disse que o Arthur, a essa hora, já estaria aqui chegando, buscando as suas "coisinhas"? Meu coração gelou na mesma hora, pareceu parar de bater. O meu estômago revirou, uma ânsia de vômito subiu forte. Eu conhecia essa voz, eu reconheci aquele homem que estava ali, parado um pouco mais atrás, observando tudo com um sorriso nojento no rosto. Era ele! O tal do Olho! O contato, o informante que o meu esposo esperava ansiosamente para saber o horário certo da invasão, o homem que ele pagou caro para avisar, para ajudar a proteger todo mundo. Olhei firme nos olhos dele, com todo o ódio que ainda restava em mim, e disse, cuspindo as palavras: — Você... Você pensa que vai se dar bem com isso? Não vai, não mesmo! Você pegou o dinheiro do meu esposo, recebeu cada centavo que ele te deu, dizendo que ia falar para ele o horário da invasão, que ia ajudar... mas você preferiu trair ele, né? Traiu ele, traiu todos nós! Ele veio andando devagar na minha direção, parou bem na minha frente, e sem dizer uma palavra, me deu um soco tão forte no rosto que tudo girou ao meu redor, senti o gosto de sangue na boca. Ele sorriu, um sorriso de pura maldade, e respondeu com calma: — Eu ganhei muito mais entregando ele para vocês do que se tivesse ficado do lado dos meus parceiros. Dinheiro é tudo, mulher, e o Arthur já era um alvo há muito tempo. Ele se afastou um pouco, virou as costas e deu a ordem final, sem dó: — Pode matar ela também. Tentei correr, tentei me jogar para fora dali, para a rua, qualquer lugar, mas não adiantou nada. Senti um calor insuportável queimar a minha barriga, uma dor que eu nem sei explicar, e logo em seguida uma pontada forte no peito, como se o fogo me invadisse por dentro. Olhei para a minha mão que eu tinha levado até o ferimento, e ela estava toda ensanguentada, vermelha, escorregadia. E foi então que eu vi, com um desespero que me matou um pouco mais ali mesmo: algo macio, algo meu, começando a sair pelo buraco aberto da bala. Eram os meus órgãos, saindo para fora, escorrendo junto com o sangue. Caí deitada no chão, fraca, perdendo as forças a cada segundo. A dor era tanta que eu não mexia mais, não falava mais. Fiquei ali, imóvel, me fingindo de morta, esperando que eles fossem embora. Eles chutaram mais algumas coisas, bagunçaram tudo o que ainda estava inteiro na loja, riram alto, comentando sobre como tinha sido fácil, e finalmente saíram, deixando-me ali sozinha, entre roupas e sangue. Fiquei ali, de olhos abertos mas já vendo pouco, chorando silenciosamente, sentindo a vida escapar de mim junto com todo aquele sangue. Eu sabia... sabia que era o fim. E o que mais doía, o que mais cortava o meu coração, era saber que eu não ia ver mais os meus filhos, não ia poder abraçá-los, beijá-los, nem ver eles crescerem. E também não ia mais ver o meu amor, o meu Arthur, o homem da minha vida, o meu porto seguro. De repente, escutei o barulho de uma moto chegando, parando depressa na porta quebrada. Tentei olhar, mas a minha visão já estava embaçada, o rosto todo estava muito machucado e tinha muito sangue escorrendo para dentro dos meus olhos, me impedindo de enxergar direito. Mas eu senti... senti quando uma mão grande, quente e trêmula passou devagar pelo meu rosto, limpando o sangue dos meus olhos, do meu nariz, da minha boca. Era ele. Era o meu Arthur. Ele estava ali, eu ouvia a sua voz, ouvia ele me chamando, pedindo, implorando: — Fica comigo, amor, por favor! Não me deixa, eu estou aqui, eu cheguei! Mas eu sabia que ali já era o meu fim, não tinha mais jeito, a dor já estava diminuindo, tudo ficando devagar e escuro. A única coisa que eu pude fazer, com o resto de força que ainda existia em mim, foi olhar na direção da voz dele, tentar sorrir, e sussurrar, bem baixinho, para que ele ouvisse bem: — Eu te amo... Cuida dos nossos filhos, por favor... Cuida deles... E depois disso, não ouvi mais nada com clareza. A minha visão já não estava 100%, tudo ficou escuro, as formas desaparecendo. Senti ele apertando a minha mão, me abraçando forte, chorando muito, gritando, gritando o nome de Deus, pedindo ajuda, gritando de dor. Mas aqueles sons começaram a ficar muito longe, cada vez mais distantes, como se eu estivesse mergulhando em água funda e me afastando da superfície. E foi assim, ouvindo a voz dele ficar cada vez mais fraca, que eu comecei a morrer, sentindo tudo acabar. Senti quando mãos brutas e fortes puxaram ele de mim, o arrancaram do meu lado. Eu ainda olhei na direção onde eu achava que ele estava, sem conseguir enxergar nada mais, estendi a minha mão fraca para onde eu ainda ouvia a voz dele, querendo só tocar ele mais uma vez, só mais uma vez... e então, tudo parou. Não escutei mais nada, não senti mais nada. Acabou ali.
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