CAPITULO 10

1260 Words
Capítulo 10 Jimi Narrando Fiquei andando de um lado para o outro pela sala, o coração apertado, uma inquietação que não passava de jeito nenhum. Tinha ouvido a notícia que todo mundo já comentava: o Morro do Fubá tinha entrado em guerra, uma confusão grande, tiroteio pesado, e até agora, nada do meu Arthur me dar um sinal de vida, nenhuma notícia, nem uma palavra sequer. Tudo o que eu sabia vinha dos grupos da comunidade, só áudios, vozes aflitas contando o caos, porque ninguém podia mostrar nada, as imagens estavam proibidas, tudo muito escondido. — Meu Deus... o que está acontecendo lá? — falei alto, com a voz carregada de raiva e preocupação, sentindo o desespero começar a tomar conta de mim. Virei-me para a Melina, que também andava pela casa, de celular na mão, tentando contato a todo instante, eu disse com a voz embargada: — Amor, dependendo do que estiver acontecendo lá, eu vou ter que voltar para o Brasil imediatamente. Não estou gostando nada disso, estou sentindo um aperto tão grande aqui no peito, parece que o meu coração vai sair pela boca, é um pressentimento muito ruim... Enquanto eu falava, percebi que as crianças estavam muito agitadas, inquietas, correndo de um lado para o outro, sentindo que algo estava errado, mesmo sem saber o quê. O meu neto, o Jimi, de apenas sete anos, tentava distrair o Heitor, brincando, para ele não ficar assustado, mas dava para ver no olhar dele que ele também sentia que tinha alguma coisa muito errada no ar. Já a minha neta, a Damares, coitada, não parava de chorar um minuto se quer. Era um choro sentido, de saudade, de quem sentia falta do colo da mãe, de estar nos braços da Estela. Ela chamava por ela o tempo todo, e aquilo me cortava o coração cada vez mais. Melina também não conseguia falar com a nossa filha Ariel, as chamadas não completavam, dava fora de área, e com o Arthur então, nem se fala, o celular só chamava, ninguém atendia. Resolvi então chamar o meu parceiro Gino, que estava comigo aqui nos Estados Unidos, e contei tudo o que sabia, ou melhor, tudo o que eu não sabia. Estávamos completamente no escuro, sem nenhuma informação do que se passava do outro lado do oceano. Foi nesse momento que o telefone da Melina tocou alto pela sala. Ela olhou para a tela e disparou na direção da porta: — É a Ariel! Ela saiu depressa de perto das crianças, foi atender lá fora, na varanda, para que os meninos não ouvissem. Eu fiquei olhando pela janela, esperando, até que vi quando ela arregalou os olhos, paralisada, levou a mão à boca e começou a chorar desesperada, perguntando entre soluços: Vocês sabem para onde levaram ele? Ele estava ferido? Meu Deus ! Dei um salto da cadeira, o Gino veio logo atrás de mim, eu já gritava, sentindo o sangue gelar nas veias: — O que foi que aconteceu com o meu filho? Fala comigo! Mas a Melina não conseguia responder nada, só chorava,se debulhando em lágrimas, um choro que doía só de ouvir. Eu saí correndo e fui até ela, ouvi apenas o que ela dizia ao telefone para a nossa filha: Nós estamos indo, minha filha, nós estamos indo para aí agora... Se acalma. Segurei forte no braço dela, puxei ela para dentro, levei até o nosso quarto, longe de tudo e de todos, e perguntei de novo, já tremendo todo: O que aconteceu com o meu filho? Foi quando ela me contou, entre lágrimas, a notícia que fez o chão sumir debaixo dos meus pés, o mundo desabar sobre a minha cabeça: — Mataram a Estela, Jimi... Mataram a nossa nora, ela se foi... E levaram o Arthur, nosso menino, ele foi baleado, ninguém sabe para onde o levaram, ele está sumido, ninguém encontra ele em lugar nenhum... A Ariel está desesperada, não sabe mais o que fazer, já procurou em todos os cantos, hospitais, delegacias, e nada... E enquanto isso, o corpo da Estela está lá, no IML, sozinho, esperando alguém para ir reconhecer... Eu vou voltar para o Brasil agora, já, mas não sei se levo as crianças comigo ou se deixo elas aqui com a Keila... Não pensei duas vezes. Na mesma hora, chamei o Gino, pedi para ele arrumar suas malas com urgência, porque iríamos viajar imediatamente. As crianças vão sim, elas vão com a gente, eu disse, com a voz firme, cheia de uma dor que se misturava com uma fúria absurda. Quero que elas se despessam da mãe delas como deve ser. Sei que vai ser a coisa mais triste que elas vão passar na vida, mas elas precisam crescer com sangue nos olhos, lembrando sempre, todos os dias, quem foi que matou a mãe delas, quem fez essa maldade por pura covardia. Peguei o telefone e liguei imediatamente para o piloto do nosso jatinho, ordenei que se preparasse tudo na mesma hora: — Abastece, verifica tudo, deixa tudo pronto, porque nós vamos voar ainda hoje, precisamos chegar aí à noite, não temos um minuto a perder. Em seguida, liguei para o Jonathan, meu genro, explicando tudo o que ele precisava fazer para nos receber: — Nós vamos pousar na pista clandestina, lá em Jacarepaguá. Você vai lá nos esperar, e escuta bem: arruma um carro blindado, o mais seguro que tiver, porque nós vamos descer direto para o meio do perigo, e não vou arriscar ninguém da minha família. Ele chorava muito ao telefone, soluçava, e a Ariel também, doía ouvir a dor deles, a saudade, o desespero. Eu tentava acalmar os dois, mas por dentro eu estava destruído. Tentei ligar para o Jonas, o sub-chefe do morro, o único que poderia saber de alguma coisa, mas não consegui contato de jeito nenhum. — Tenta achar o Jonas, por favor — pedi ao Jonathan. — Não sei se ele está vivo ou morto no meio dessa confusão toda... O Jonathan, me mandou mensagem, dizendo que o cenário lá era de guerra mesmo, muitos mortos espalhados pelo morro, trabalhadores, moradores, bandidos, todo mundo misturado. O Jonathan m*l conseguia falar direito, tamanho era o m*l-estar, a dor de ter perdido a Estela, que era como família para ele, que todos nós amávamos como uma filha. Eu pensava nas crianças, no Heitor, no Jimi, na Damares... como é que eu ia ter coragem de dizer para eles que a mãe deles não estava mais entre nós? Que eles nunca mais iriam ouvir a voz dela, receber um abraço ou um beijo? Era uma dor que parecia que ia me matar também. Saímos de lá às oito horas da noite, horário de Brasília, embarcando com o coração pesado, deixando para trás a segurança, indo direto para o meio do caos. A viagem foi longa, cada minuto parecia uma eternidade, eu olhava para as crianças dormindo, e sentia um ódio que queimava no peito, uma vontade de fazer justiça com as próprias mãos. Chegamos no dia seguinte, por volta das onze horas da manhã. Assim que o jatinho parou na pista, olhei pela janela e já vi o Jonathan e a nossa Ariel, parados perto de uma van blindada, esperando por nós, com os olhos vermelhos de tanto chorar, com o corpo curvado pela dor. Descemos todos: eu, a Melina, o Gino, e os meus três netos, que desciam devagar, olhando tudo ao redor, sem saber ainda o que os esperava, sem saber que a vida deles tinha mudado para sempre, da noite para o dia.
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