Capítulo 5
Narrativa do Autor
A noite ainda não havia terminado, mas Arthur já estava de pé.
Ele não dormiu depois da ligação de Ariel. Impossível. O sangue ferveu nas veias como gasolina pura. Cada palavra da irmã ecoava dentro da sua cabeça como um tiro:
O capitão vai invadir o Morro do Fubá.
Arthur levantou-se sem fazer barulho. Estela dormia profundamente ao seu lado, com Damares aninhada entre os dois — a menina tivera pesadelos e correu para a cama dos pais mais cedo. Ele olhou para as duas por um longo minuto. O peito apertou. Mas ele não podia fraquejar.
Não agora.
Vestiu uma calça escura, uma jaqueta preta e desceu as escadas em silêncio. No bolso, um maço de dinheiro que separara na madrugada. Mais de vinte mil reais. Talvez mais, dependendo do que o X9 trouxesse.
Jonas já o esperava na porta da concessionária, no asfalto que cortava o morro.
— Cê tem certeza que esse cara é confiável, chefe? — perguntou Jonas, acendendo um cigarro. A fumaça dançou no ar frio da madrugada.
— Não — respondeu Arthur, seco. — Mas não tenho escolha.
O carro preto com vidros fumês surgiu lá embaixo, subindo a ladeira devagar, sem faróis. Arthur reconheceu o modelo. Blindado. Placa fria. Profissional.
O veículo parou a dez metros de distância.
O motorista não desligou o motor.
Somente um homem desceu. Magro. Cabelo ralo. Óculos de grau fundo. Jeito de contador, não de policial. Mas os olhos — os olhos denunciavam. Eram olhos de quem já viu coisa demais. Olhos de quem negocia com bandidos e dorme ao lado de policiais.
Olhos de quem vive no fio da navalha.
— Arthur Bravo — o homem estendeu a mão. Arthur não a apertou de imediato.
— Você é?
— Meu nome é silva mas Pode me chamar de Olho. Todo mundo me chama assim.
— Por quê?
— Porque enxergo o que os outros não veem.
Arthur finalmente apertou a mão. Fria. Suada.
— Senta ali. Arthur apontou para um banco de concreto, embaixo de uma árvore. Vamos conversar.
Olho, sentou-se. Abriu uma pasta preta. Tirou papéis, fotos.
Vou ser direto, porque não gosto de perder tempo. O capitão chama-se Lima. Quarenta e dois anos. Formado em guerra urbana. Fez curso nos Estados Unidos. Não tem família, não tem filhos, não tem nada. Só tem ódio no coração.
— Bonito currículo. Arthur cruzou os braços. E o que ele quer comigo?
— Quer sua cabeça numa bandeja. Literalmente. Ele disse numa reunião fechada, semana passada, ele cito: "O Morro do Fubá vai virar cinza. E Arthur Bravo vai ser preso ou morto. Não faz diferença."
— Quantos homens ele tem?
Sessenta. Mais o Bope o choque. Mais apoio aéreo. Dois helicópteros. Granadas. Fuzis de precisão. Eles vão subir com tudo. Não vai ser uma operação normal. Vai ser uma guerra.
Arthur respirou fundo.
— Quando?
— Ainda não sei a data exata. Eles marcam e desmarcam toda hora. Mas tenho um homem dentro do gabinete do capitão. Quando souber, te aviso.
— E o que você quer em troca?
Olho sorriu. Um sorriso, amarelado, sem graça.
— Vinte mil.
— Vinte mil por uma data?
— Vinte mil pelo que eu já te entreguei agora. Nomes. Estratégias. Número de homens. Armas. Isso tudo vale. A data eu vendo depois. Outros vinte.
Arthur ficou em silêncio por um longo momento. Avaliou o homem. Avaliou o risco. Avaliou o preço.
— Você não vai ganhar quarenta — disse Arthur, finalmente. — Vai ganhar trinta. Quinze agora. Quinze quando me der a data.
— Trinta é pouco.
— Trinta é o que tem. Aceita ou sai do meu morro agora.
Olho olhou para os pés. Mordeu o lábio. Pensou. Pensou mais um pouco.
— Fechado.
Arthur fez um sinal para Jonas, que se aproximou com um envelope grosso. Entregou.
Olho contou o dinheiro ali mesmo, debaixo da luz fraca do poste. Satisfeito, guardou no bolso interno do paletó.
— Uma última coisa disse Olho, antes de se levantar. Seu nome está na lista prioritária. Eles não vão te dar chance de se render. Vão atirar pra matar.
— Eu sei, respondeu Arthur, sem piscar.
Olho entrou no carro e sumiu na escuridão da ladeira