Capitulo 6
Narrativa do Autor
Jonas apagou o cigarro no chão.
Esse cara é um cobra, chefe. Não confio.
Nem eu. Arthur levantou-se, o olhar perdido no horizonte que ainda não clareava. Mas por enquanto, é a única cobra que tem o veneno que a gente precisa. Convoca todos os vapores para uma reunião. Nove horas. Na loja de automóveis.
— Todos?
— Todos. Vai ser guerra, Jonas. E ninguém vai ficar de fora.
Nove horas em ponto. A loja de automóveis estava lotada.
Homens de todos os becos, vielas e quebradas do Morro do Fubá se reuniram. Alguns encostados nas paredes, outros sentados nos capôs dos carros importados que Arthur vendia e que também serviam para lavar dinheiro. O cheiro de café forte misturava-se com o de cigarro, pólvora e suor.
Arthur estava no centro. Em pé. Com os braços cruzados. A voz grave ecoou pelo galpão:
Vocês sabem por que estão aqui?
Ninguém respondeu. Todos sabiam. A informação corria rápido no morro mais rápido que bala perdida.
O Bope vai subir. Não sei quando. Mas vão. E quando subirem, vão querer derrubar tudo que a gente construiu. O comércio. As lojas. As casas. As famílias. As crianças. Eles não tão vindo atrás de mim. Tão vindo atrás de todos nós.
Um murmurou correu entre os presentes.
O que a gente faz, chefe? perguntou um dos vapores, jovem, olhos vermelhos, mãos calejadas.
— A gente se prepara, respondeu Arthur. Vamos montar barricadas nos acessos. Vamos colocar vigias vinte e quatro horas em cada entrada. Vamos esconder as armas pesadas em pontos estratégicos. Presta atenção no que eu vou dizer, ninguém atira primeiro.
— Como assim, chefe? questionou outro. Deixa os home chegar?
— Deixa. Porque se a gente atirar primeiro, a opinião pública vai cair em cima da gente. A mídia vai pintar a gente como monstro. A polícia vai ter desculpa pra usar força máxima. Então a gente espera. Eles atiram, a gente revida. Mas a gente não dá o primeiro tiro. Isso é ordem.
Os homens trocaram olhares, mas ninguém contestou.
Foi nesse momento que o celular de Arthur vibrou. Mensagem de Jonathan:
"Estou enviando 15 vapores do Salgueiro. Homens de confiança. Chegam hoje à noite. Fica com Deus, irmão."
Arthur leu a mensagem em voz alta.
O silêncio que se instalou foi de respeito.
Jonathan, o cunhado. O chefe do Morro do Salgueiro. Mandando seus próprios homens para lutar ao lado dos Bravos. Isso não era apenas ajuda. Isso era aliança de sangue. Era família de verdade.
— Manda mensagem de volta — Arthur disse a Jonas. "Diga ao Jonathan que o Morro do Fubá nunca vai esquecer isso."
Jonas digitou e enviou.
A reunião continuou por mais uma hora. Cada vapor recebeu uma função. Pontos de observação. Rotas de fuga. Esconderijos de munição. Códigos de rádio. Tudo foi planejado nos mínimos detalhes.
Arthur saiu do galpão com o sol alto.
O corpo pesava. A mente, mais ainda.
Mas ele ainda não sabia que a guerra mais difícil não seria lá fora. Seria dentro de casa.
Estela sentiu primeiro como um arrepio.
Depois, como um aperto no peito.
Depois, como uma voz baixinha dentro da cabeça dizendo: foge enquanto é tempo.
Ela estava na cozinha, preparando o almoço dos filhos. O feijão já cheirava na panela de barro. O arroz estava quase no ponto. Mas a mão dela tremia ao cortar a cebola.
— Mãe, você tá chorando? perguntou Jimmy Neto, sentado à mesa, fazendo lição de casa.
— Não, filho Estela limpou os olhos com o dorso da mão. — É a cebola.
Mas não era a cebola.
Ela sabia.
Ela sabia que alguma coisa horrível estava prestes a acontecer. Uma sensação que não conseguia explicar. Não era medo. Não era ansiedade. Era certeza. Uma certeza fria, escura, que se alojava nos ossos e não saía.
Quando Arthur chegou, ela largou a panela no fogão e foi ao encontro dele na sala. Os olhos dela estavam vermelhos.
— Amor... ela começou, assustada. O que foi?
— Senta aqui, ela puxou sua mão e o arrastou para o sofá. Preciso falar com você.
Arthur sentou. Segurou as mãos dela. Estavam geladas.
— Estela, você tá me assustando.
— Eu estou com medo, Arthur — as palavras saíram como um sussurro, mas carregavam o peso de uma sentença. — Algo vai acontecer. Eu não sei o que é. Não sei como. Não sei quando. Mas eu sinto. Sinto nos ossos. Sinto no peito. Sinto quando olho pros nossos filhos.
Arthur engoliu em seco.
Já tive essa sensação uma vez na vida... continuou Estela, os olhos marejados. Foi quando minha avó morreu. Eu acordei no meio da noite sabendo que ela tinha partido. E ninguém tinha me contado ainda. Isso é real, Arthur. Isso é verdade.
— Eu acredito em você ele disse, com a voz embargada.
— Eu quero tirar as crianças daqui. Estela apertou as mãos dele com força. Antes dessa invasão. Antes do que quer que esteja por vir.
Pra onde?
Pra casa da sua mãe. Melina. Nos Estados Unidos. Pelo menos até isso passar. As crianças não podem ficar aqui, Arthur. O Bope quando sobe o morro não tem pena de ninguém. Eles atiram em criança. Eles matam mãe. Eles destroem tudo. Eles vão subir pra derrubar. E eles vão conseguir derrubar. Vai acontecer algo terrível. Não sei o que é. Mas amanhã... amanhã vamos pegar as crianças e vamos levar para a casa de Melina.
Arthur ficou em silêncio.
O peito dele doía.
Porque ele sabia que Estela estava certa.
Ele já vira o Bope em ação. Já viu mãe correndo com filho no colo. Já viu velho sendo arrastado pela escada abaixo. Já viu sangue no asfalto que não era de bandido.
Amanhã ele repetiu, como quem confirma uma sentença. — Amanhã vocês vão.
Estela suspirou. Aliviada? Não. O alívio não existia. Mas pelo menos os filhos estariam a salvo.
Arthur a puxou para um abraço. Forte. Longo.
— Eu vou proteger vocês ele sussurrou no cabelo dela. Eu vou proteger essa família. Mesmo que me custe a vida.
— Não fala isso ela gemeu contra o peito dele. Não fala isso, Arthur.
Lá fora, o sol brilhava no Morro do Fubá.
Mas dentro de casa, a sombra da guerra já havia entrado.
E não sairia tão cedo.