CAPITULO 7

873 Words
Capítulo 7 Estela Narrando Comprei as passagens com o coração pesado, mas com a certeza de que era a única coisa certa a fazer. Escolhi a classe económica de propósito, para não chamar atenção, para não levantar nenhuma suspeita, passando despercebida no meio de tantas outras pessoas. O meu único objetivo era um só: levar os meus três filhos para bem longe, deixá-los com os avós, em segurança, até que toda essa confusão e essa invasão que está ameaçando o nosso morro tivesse um fim. Não podia arriscar a vida deles, não quando o perigo rondava cada canto das ruas que conhecemos. Peguei o avião às dez horas da noite, uma viagem que pareceu durar uma eternidade, cada minuto cheio de pensamentos, de medo, mas também de esperança de que, ao chegar ao outro lado, eles estariam fora de perigo. Ainda no caminho, mandei uma mensagem para a Melina, minha sogra, contando que já estávamos chegando e pedindo para que ela e o meu sogro fossem ao aeroporto nos buscar. Antes de sairmos, a despedida do Arthur foi a coisa mais dolorosa de todas. Ele se ajoelhou no chão para ficar da altura das crianças, abraçou um por um com os olhos completamente marejados, cheios de uma tristeza que doía só de olhar. Ele sabia o quanto era importante eles irem, mas também sabia o quanto ia ser difícil ficar longe deles. O Jimmy, meu filho mais velho, olhou bem nos olhos do pai, percebeu toda aquela tristeza e começou a chorar também, apertando o pescoço dele com toda a força, dizendo com a voz embargada: — Chora não, papai... chora não, por favor. Nós vamos voltar logo, tá bom? Não fica triste, não. O meu coração apertou tanto naquele momento que pareceu que ia parar de bater. Eu tinha que ser forte, tinha que segurar o choro por eles, mas por dentro eu estava toda despedaçada. Mesmo com toda a dor, eu sabia que precisava levá-los para longe, era a minha missão de mãe, protegê-los a qualquer custo. Cheguei ao aeroporto bem em cima da hora, quase atrasada, mas graças a Deus conseguimos embarcar a tempo, com todas as malas e as crianças bem agarradas a mim, seguras ao meu lado. Quando finalmente pisamos em solo americano, lá estavam eles: minha sogra Melina já nos esperando na saída, com aquele sorriso acolhedor de sempre, e meu sogro já dentro do carro, esperando para nos receber. Assim que os olhos das crianças avistaram a avó, eles largaram tudo o que tinham na mão e correram na direção dela, gritando e chamando por ela, sentindo logo o carinho e o aconchego de quem eles amam. Guardamos rapidamente as malas no porta-malas e seguimos direto para o apartamento deles. Chegando lá, dei logo um banho demorado nas crianças, tirei toda a poeira da viagem, limpei o cansaço daquela noite toda, e eu também aproveitei para tomar um banho e tentar acalmar um pouco os meus próprios sentimentos. Almoçamos todos juntos, um momento de paz e aconchego, e depois de comer, coloquei eles sentados na frente da televisão para ver um pouco de desenho, enquanto eu chamava os meus sogros para conversar. Sentei-me com eles, olhei bem nos olhos dos dois e contei tudo o que estava acontecendo lá no morro, cada detalhe, cada perigo que estávamos correndo. Expliquei que os botas, estavam prestes a invadir a nossa área, e que por isso eu tinha tirado as crianças de lá às pressas, para deixá-las num lugar seguro. Falei com toda a clareza do mundo, deixando bem claro: — Eu vou ficar só esse dia de hoje com vocês. Amanhã bem cedo, assim que amanhecer, eu já estou voltando para o Brasil. Eu não posso ficar aqui, não agora. O meu lugar é ao lado do meu marido, do Arthur. Ele ficou lá, e eu preciso estar com ele, seja para o que for. Melina me olhou com compreensão, entendeu o meu coração, entendeu que, assim como eu protegia os filhos, eu também precisava estar ao lado do homem que eu amo, na hora que ele mais precisava. Ela concordou, me deu todo o apoio e garantiu que os meninos estariam em segurança, muito bem cuidados com eles. Quando acordei no dia seguinte, o meu coração parecia que ia se partir em mil pedaços. Abracei cada um dos meus filhos demoradamente, beijei seus rostos, seus cabelos, sentindo um aperto tão forte no peito, uma sensação estranha, como se eu nunca mais fosse vê-los novamente. Foi uma dor que cortou a minha alma, mas mesmo assim, eu segui em frente, me despedi e voltei para o Brasil, deixando o meu coração com eles. Cheguei em casa às três da madrugada, de dentro do carro eu via a rua estava silenciosa, escura, mas eu senti uma paz enorme só de saber que os meus filhos estavam bem, que estavam são e salvos longe do perigo. A saudade já apertava forte, mas a certeza de que fiz o que era certo me deu forças para seguir. Agora, eu estava de volta, e o meu lugar era aqui, ao lado do meu marido, esperando e lutando para que tudo isso acabasse logo, e que a nossa família pudesse estar reunida novamente.
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