Capítulo 8
Arthur Narrando
Depois que a Estela viajou, levando os nossos três filhos para a segurança da casa dos meus pais nos Estados Unidos, eu até tentei ficar mais calmo, sentindo o alívio de saber que a parte mais preciosa da minha vida estava longe do perigo. O meu maior desejo, na verdade, era que ela tivesse ficado lá também, ao lado das crianças. A nossa caçula, a Damares, é ainda tão pequenininha, tem apenas três aninhos, e precisa tanto da presença da mãe, do seu carinho e cuidado... Mas a Estela é teimosa, decidida, e não teve jeito: ela cumpriu o que prometeu, deixou os meninos e voltou direto para o Brasil, para ficar ao meu lado. Por um lado, meu coração se encheu de alegria e gratidão por ter ela aqui, comigo, dividindo tudo o que vem acontecendo. Por outro, uma pulga não saiu de trás da minha orelha, um mau pressentimento que não passa, uma sensação r**m que me aperta o peito o tempo todo.
Passei esses últimos dois dias sem dormir direito, gastando toda a minha energia preparando o morro, organizando tudo para o pior. Chamei os moradores, reuni todos na praça principal e falei com a verdade nua e crua: avisei que a guerra estava chegando, que os botas iriam subir derrubando tudo e todos que estivessem pela frente, sem dó nem piedade. Pedi às famílias que fossem para a casa de parentes que morassem em locais mais afastados ou até fora da área, e para quem não tivesse para onde ir, ordenei que se escondessem bem, dentro de casa, nos fundos, atrás de paredes grossas, porque o confronto ia ser feio e ninguém estaria livre dos tiros.
Nós mesmos nos preparamos como nunca. Montamos barreiras sólidas na entrada principal do morro, deixamos armas posicionadas em pontos estratégicos, tudo calculado para dar a melhor cobertura possível. O Jonas é um homem inteligente, desses que sabem tudo de armamento, e ele caprichou: limpou e deixou todos os fuzis prontos para o uso, revisou cada munição, guardou as granadas em locais de fácil acesso, mas bem escondidos de olhares curiosos. Os lança-foguetes foram a nossa maior aposta: um ficou bem na entrada, pronto para ser usado contra o Caveirão na hora que ele tentasse subir, e o outro foi escondido atrás de um muro alto no meio do caminho, reservado para o Rato usar na hora certa, caso outra viatura conseguisse passar da primeira barreira. Estávamos bem armados, sim, dispostos a lutar até o fim, mas a tensão era visível no rosto de cada um dos meus homens.
Eu tinha dado ordens claras para a minha esposa: não abrir a loja no dia do ataque, manter tudo fechado e ficar segura em casa. Mas até agora, uma coisa me incomoda profundamente: o tal do Olho, o nosso contato de informações, não deu as caras, não apareceu para nos dar nenhum aviso, nem mandou recado para o meu cunhado JT. Eu já tinha pago bem caro por cada palavra dele: vinte mil reais pela primeira informação, quinze mil pela metade da segunda, e combinamos mais quinze para receber a terceira parte, que era justamente a data e a hora que eles iriam atacar. E até agora, nada. Nenhuma notícia. Mesmo assim, estávamos de prontidão, preparados para qualquer hora, para não sermos pegos de surpresa, mas essa falta de notícia só aumentava a minha inquietação.
Hoje é sexta-feira, o dia que a Estela mais vende, o dia que ela mais ganha dinheiro na loja, e como ainda não tínhamos notícias do ataque, ela acabou abrindo as portas como de costume, trabalhando meio período e dispensando as funcionárias mais cedo, mas resolvendo ficar até mais tarde para aproveitar o movimento. Eu fui contra, fiquei o tempo todo com o coração na mão, pedindo a Deus que nada acontecesse, que ela pudesse fechar e chegar em segurança em casa.
Quando bateu oito horas da noite, não aguentei mais de preocupação, liguei imediatamente e ordenei que ela fechasse tudo naquele instante e viesse para casa. Ela me respondeu com aquela voz calma que só ela tem, dizendo que já estava apagando as luzes e trancando as portas