Diogo Vitório Terça-feira. O ar condicionado da delegacia parecia insuficiente para filtrar o cheiro de suor, sangue seco e o cinismo que impregna as paredes de um distrito que lida com o lixo da sociedade. Passei a manhã assinando liberações de presos de custódia, lidando com a burocracia infindável de roubos de carga e homicídios que, para o Estado, são apenas números, mas para mim, eram peças de um tabuleiro que eu estava cansado de jogar. Eu ainda sentia o desgosto de ver a minha filha olhando para aquele moleque como se esperasse ele falar com ela, não entendia aquele jogo, e não gostava nada do que Cássia me dissera, uma paixão, aquilo não saia da minha cabeça. — Doutor? — Gustavo, o recepcionista, bateu na porta com uma urgência que me fez largar a caneta. — Uma denúncia anônim

