Capítulo 1: O Eco do Abismo
O palácio de vidro e quartzo da realeza vampírica parecia flutuar sobre as névoas perpétuas de Elysia. Para Amira, aquele lugar sempre fora uma gaiola adornada com ouro e silêncio. Sendo uma das poucas sobreviventes de uma linhagem de sangue puro, sua existência não lhe pertencia; era um patrimônio da corte, uma promessa de continuidade dinástica guardada sob sete chaves. Ela passava os dias entre lições de etiqueta ancestral e o som melancólico das harpas, cultivando uma inocência que muitos ali consideravam um luxo perigoso.
Naquela noite, contudo, o ar estava diferente. Uma pressão invisível esmagava os jardins de rosas brancas, e o aroma adocicado das flores parecia carregar o cheiro metálico de tempestade. Amira apoiava as mãos pálidas no parapeito de mármore de seus aposentos, observando os limites da floresta onde os lobos governavam. Havia uma calmaria errada no horizonte.
De repente, o silêncio foi partido. Não por um som físico, mas por uma violenta reverberação na alma.
Uma queimação súbita e excruciante irrompeu no peito de Amira. Ela arquejou, os joelhos cedendo contra o piso frio. Não era uma dor carnal; era como se um anzol invisível tivesse perfurado sua própria essência e começasse a puxá-la em direção ao chão. Em direção ao Submundo. A marca da Destinação, uma lenda que os anciãos sussurravam com pavor, estava despertando em suas veias.
Longe dali, rasgando o próprio tecido da realidade, a f***a para Netherum se abriu no coração da floresta. O céu de Elysia sangrou em tons de roxo e cinzas quando a presença dos demônios cruzou a fronteira. Eles não vieram para negociar. Vieram buscar o que pertencia ao Abismo por direito de sangue e magia.
Amira m*l conseguiu gritar quando as sombras invadiram o palácio. Guardas de elite tombaram sem que uma única lâmina fosse forjada; a mera aura opressora das criaturas abissais sufocava a vida ao redor. Antes que pudesse compreender a gravidade do que acontecia, a jovem princesa se viu cercada por figuras de mantos escuros e olhos que brilhavam como brasas moribundas.
O laço biológico e místico a puxava com tanta força que resistir causava a sensação de que seu coração seria arrancado do peito. Amparada pela própria fragilidade e pelo terror do desconhecido, Amira foi erguida e arrastada para além dos limites do mundo que conhecia.
A travessia pela f***a foi um borrão de escuridão, frio extremo e o som de sussurros antigos. Quando seus pés finalmente tocaram o solo firme novamente, o cenário havia mudado drasticamente. O vidro e a névoa de Elysia deram lugar a paredes de rocha n***a, veios de magma que pulsavam como artérias e uma arquitetura colossal e intimidadora. Ela estava em Netherum, o reino dos demônios.
E no topo do trono de ossos e ferro fundido, esperando por ela com a frieza de um inverno eterno, estava Malakor. O Rei do Abismo olhou para a jovem vampira trêmula a seus pés não com o deslumbramento de quem encontra sua alma gêmea predestinada, mas com o mais profundo e cortante desprezo. Para ele, aquela união forçada pelo destino não passava de uma fraqueza que ele estava determinado a esmagar.