Eu ainda sentia o gosto metálico do medo quando a porta do meu apartamento se fechou atrás de nós. O clique da fechadura soou mais alto do que o normal, como se anunciasse que, finalmente, estávamos seguros. Romana estava ao meu lado, envolta no meu casaco, os olhos grandes demais para o rosto pálido. Ela tremia — não de frio, mas do que quase tinha acontecido.
Eu a conduzi para dentro com cuidado, como se qualquer movimento brusco pudesse quebrá-la. Meu coração ainda batia descompassado. Nunca tinha sentido aquilo antes. Já enfrentei homens perigosos, já fiz coisas das quais não me orgulho, mas nada se comparava à sensação de imaginar Romana nas mãos daqueles sujeitos imundos que acharam que podiam usá-la como prêmio de aposta.
— Está tudo bem agora — murmurei, mesmo sem saber se eu próprio acreditava totalmente naquilo.
Ela apenas assentiu, os olhos marejados.
Levei-a até o banheiro. Abri o chuveiro e deixei a água esquentar. Não havia nada de apressado nos meus gestos; cada movimento era calculado para transmitir calma. Peguei uma toalha macia, coloquei roupas limpas sobre a pia.
— Vou ficar aqui — eu disse, a voz mais baixa do que o normal. — Você não está sozinha.
Romana me olhou como se precisasse confirmar que eu era real. Então começou a tirar o casaco, as mãos ainda trêmulas. Não havia malícia naquele momento, apenas cuidado. Eu a ajudei como pude, com respeito, como se ela fosse feita de vidro. Quando a água finalmente caiu sobre seus ombros, vi seus músculos relaxarem um pouco.
Entrei no box apenas para ajudá-la a lavar o cabelo, passando os dedos com delicadeza pelos fios embaraçados. Ela fechou os olhos, e por um instante pareceu apenas uma garota cansada, não alguém que tinha acabado de escapar de algo horrível.
— Eles… — comecei, mas parei. Não queria forçá-la.
Depois que saímos do banho, envolvi-a na toalha e a levei para o quarto. Ela vestiu uma das minhas camisetas, que ficou larga em seu corpo pequeno. Sentou-se na cama e, sem dizer nada, apoiou a cabeça no meu ombro.
E então chorou.
Não foi um choro silencioso. Foi profundo, dolorido, como se estivesse expulsando o medo acumulado. Eu a abracei, apertando-a contra mim, sentindo cada soluço atravessar meu peito.
— Está tudo bem — repeti, dessa vez com mais firmeza. — Eu estou aqui.
Ela demorou alguns minutos para conseguir respirar normalmente. Passei a mão em seus cabelos, beijei o topo da sua cabeça.
— Eles fizeram algum m*l a você? — perguntei, a voz quase falhando apesar do esforço para parecer forte.
Romana levantou o rosto. Seus olhos ainda brilhavam de lágrimas.
— Não deu tempo — respondeu, num sussurro. — Você chegou antes… Você me salvou, Dorian.
Fechei os olhos por um segundo. O peso daquela frase quase me derrubou. Eu me inclinei até que nossas testas se encostassem.
— Eu nunca senti tanto medo na minha vida — confessei. — Quando eu percebi que você tinha sido levada… eu achei que fosse enlouquecer. Eu não posso mais ficar sem você, Romana. Eu pensei que podia manter distância, fingir que isso era só… um acordo. Mas não é.
Ela me encarou, surpresa, como se esperasse qualquer coisa menos aquilo.
— Eu também não consigo mais fingir — ela disse. — Eu tive tanto medo de nunca mais te ver. Eu preciso de você.
Não houve mais palavras depois disso. O silêncio que se seguiu não era vazio; era cheio de tudo o que não precisávamos dizer. Eu a beijei com cuidado, como se pedisse permissão. Ela respondeu com a mesma intensidade contida. Não havia pressa, apenas a necessidade de confirmar que estávamos ali, vivos, juntos.
Naquela noite, nos entregamos um ao outro não por impulso, mas por alívio. Foi um momento de conexão e promessa silenciosa. Não era sobre desejo apenas; era sobre pertencimento, sobre a certeza de que quase perdemos algo precioso demais.
Horas depois, quando a madrugada já se aproximava, eu a levei para casa.
O trajeto foi silencioso. Ela segurava minha mão com força, como se temesse que eu desaparecesse ao menor descuido. Quando estacionamos em frente à casa dela, as luzes ainda estavam acesas.
A porta se abriu antes mesmo que tocássemos a campainha.
A mãe de Romana saiu correndo e a abraçou com tanta força que eu tive medo de que a machucasse. Mas Romana retribuiu com a mesma intensidade.
— Minha filha… minha filha… — ela repetia, a voz embargada.
Bia apareceu logo atrás, os olhos vermelhos. Assim que viu a melhor amiga, praticamente se jogou sobre ela.
— Eu achei que tinha te perdido — Bia disse, chorando.
Eu permaneci alguns passos atrás. Meu papel ali não era o de amante. Era outro.
Quando Romana finalmente se afastou da mãe, nossos olhos se encontraram por um segundo. E, naquele instante, erguemos o muro invisível que o mundo exigia.
— Eu a encontrei e trouxe de volta — falei, com a voz controlada. — Foi só isso.
A mãe dela se aproximou de mim, segurando minhas mãos.
— Eu não tenho palavras para agradecer — disse. — Você salvou minha filha.
Eu sustentei o olhar dela.
— Eu fiz apenas o meu trabalho.
As palavras soaram frias, calculadas. Como se eu fosse apenas um profissional cumprindo uma obrigação. Talvez fosse melhor assim.
Antes de me virar para sair, acrescentei, em tom mais baixo:
— A senhora deveria reconsiderar certas pessoas na sua vida. Seu marido… ele colocou Romana em risco. Isso não pode continuar.
O rosto dela endureceu, como se a verdade fosse um golpe.
— Eu sei — respondeu, quase num sussurro.
Romana me observava em silêncio. Eu queria abraçá-la de novo, dizer que voltaria em algumas horas, que nada daquilo era um adeus de verdade. Mas não podia.
— Cuide-se — eu disse apenas, como quem fala com alguém que m*l conhece.
Ela assentiu, entendendo o jogo.
Virei-me e caminhei até o carro. Só quando entrei e fechei a porta permiti que a máscara caísse. Apoiei a testa no volante e respirei fundo.
Eu tinha salvado Romana naquela noite.
Mas, pela primeira vez na vida, percebi que não queria apenas protegê-la.
Eu queria um futuro onde não precisássemos fingir.