O sorriso de Francine era como uma lâmina de vidro - bonito, mas cortante. Ver aquela calma diante do abismo que ela acabara de revelar fez o estômago de Vicent revirar.
- Não está tudo bem- ele disse, a voz saindo rouca, quase áspera. Ele não retirou a mão dos dedos dela, mas seus nós dos dedos estavam brancos de tanto apertar o lençol ao lado. -Você está sorrindo como se não tivesse acabado de nos mostrar o inferno.
Kael apertou o abraço, o rosto ainda enterrado no pescoço dela. O aroma de café e couro dele tentava desesperadamente mascarar o cheiro de angústia que ainda emanava da pele de Francine.
- Você não entende- Kael murmurou contra a pele dela, os lábios roçando a pulsação acelerada no pescoço.
Elijah, que permanecera em silêncio absoluto, finalmente levantou o olhar. Seus olhos estavam vermelhos, não de choro, mas da exaustão de ter sentido cada fragmento daquela escuridão.
- Ela sorri porque é a única forma que ela encontrou de sobreviver- Elijah disse, a voz tão baixa que parecia vir do fundo de uma caverna,
- Se ela não sorrisse, ela quebraria bem diante de nossos olhos e não poderíamos fazer nada a respeito.
Ele inclinou-se para frente, encostando a testa na de Francine. O calor que emanava era avassalador, uma mistura de febre biológica e o resquício de uma dor que nenhum deles conseguia processar completamente.
- Nós vamos consertar isso,- Kael afirmou, as palavras saindo com uma determinação feroz enquanto ele se afastava minimamente do pescoço dela para olhá-la nos olhos.
Vicent soltou um riso amargo, sem humor algum. - Consertar? Kael, não existem palavras para o que ela passou. Não existe forma de desfazer o que foi feito- Ele apertou a mão de Francine com mais força, como se pudesse transferir sua própria força para ela. Os olhos dele oscilaram entre a culpa e uma raiva silenciosa contra o mundo que a ferira.
- Mas nós podemos garantir que ninguém nunca mais chegue perto dela- Vicent continuou, a voz ganhando um tom perigosamente frio. "Ninguém."
Kael não respondeu. Ele apenas voltou a apertar Francine contra o peito, os dedos enterrados no cabelo dela com uma possessividade que beirava o desespero. O silêncio na mansão era pesado, carregado com a promessa implícita de que o mundo deles acabara de mudar para sempre.
Elijah permaneceu em silêncio, observando a cena com uma expressão que era difícil de ler. Sua mente trabalhava rápido, processando cada detalhe, cada palavra dita. Ele sabia que o que acabara de acontecer mudaria tudo. A conexão entre eles - entre Francine e os três - tinha se tornado algo muito mais profundo e perigoso.
- Nós não vamos apenas protegê-la- Elijah disse finalmente, sua voz cortando o ar como uma lâmina. - Nós vamos reivindicar o que é nosso por direito.- A ômega deles, que por alguém tão imundo sofria todos os dias ao seu acordar, perdendo-se cada vez mais nesse escuridão que a matava por dentro.
Kael levantou o olhar, seus olhos amarelados brilhando com uma intensidade selvagem. - Ela já é nossa, Elijah. Só não sabíamos disso, talvez só fomos egoístas demais com ela ou com a própria vida dela.
Vicent assentiu lentamente, seu rosto endurecido pela determinação. - O plano mudou. Não temos mais tempo para sutilezas- Os olhos de Francine se estreitou e se afastou lentamente de kael, ela estava confusa com o que acabou de ouvir, que plano era esse. - Plano? Que plano você está falando?
Kael sentiu o corpo de Francine tensionar sob o seu abraço e, por um breve segundo, a culpa o atingiu. Ele apertou os olhos, mas não a soltou.
- Nada, pequena- ele murmurou, a voz suave e reconfortante, enquanto beijava o topo da cabeça dela. - Não se preocupe com isso agora. Só descanse.- Vicent desviou o olhar para a janela, a mandíbula travada. Ele sabia que não podia mentir para ela - não mais - mas também sabia que a verdade a destruiria antes mesmo de ela entender o que estava acontecendo.
- Nós só queremos que você fique segura.- Vicent disse, voltando o olhar para ela com uma doçura ensaiada. - A mansão é o lugar mais seguro que existe. Vamos ficar aqui com você, tudo bem?- Os olhos de Francine pousaram sobre o de Vicent, ela queria entender o que realmente eles estavam falando, mas parecia tudo confuso, então apenas se virou para Elijah procurando uma resposta, ela sabia que ele não dava rodeio em suas palavras.
Elijah se aproximou da cama, sua presença imponente projetando uma sombra sobre Francine. Ele não usava a doçura falsa de Vicent nem o conforto desesperado de Kael; sua voz era direta, carregada de uma autoridade que não admitia contestação, justamente para aquele momento.
- O que quer dizer com plano, Francine?- Elijah repetiu a pergunta dela, mas não para responder, e sim para reforçar a gravidade do que estava por vir. - O plano é você nunca mais sentir medo. Nunca mais será tocada por mãos que não sejam as nossas.- Kael puxou novamente para seu abraço, os dedos se fechando no tecido da camisa dela.- Alias gente vai acelerar sua mudança. O seu corpo está tentando voltar para o que ele deveria ser e nós vamos garantir que ele consiga..
Kael soltou um suspiro pesado, sentindo o coração dela batendo contra o seu peito. Ele apertou o abraço por mais um segundo antes de se afastar o suficiente para olhar nos olhos dela, a expressão suavizando.
- Desculpa, pequena- ele disse, a voz baixa e quase carinhosa. - A gente só está sendo protetor demais. Você passou por muita coisa hoje- Vicent levantou-se da borda da cama e caminhou até ela, sentando-se do outro lado. Ele pegou uma mecha do cabelo dela e a enrolou no dedo, um gesto que parecia casual, mas que carregava uma tensão oculta.
- Não é nada complicado- Vicent mentiu com uma perfeição irritante, o sorriso nos lábios não alcançando os olhos.- Só que a gente decidiu que não vai mais deixar você sozinha. Nunca mais. Entendeu?
Francine apenas acenou calmamente com a cabeça sem questionar mais, ela se sentia cansada demais para continuar ali.
A simples afirmação de Francine, foi como um interruptor para os três alfas. A tensão em seus ombros se dissipou, substituída por uma onda de alívio tão palpável que quase se podia tocar.
Kael soltou um suspiro que não sabia que estava segurando, e seus braços ao redor dela se tornaram mais relaxados, quase protetores. "Boa menina," ele sussurrou contra o cabelo dela, o cheiro de couro e café agora misturado com algo mais suave, quase aliviado.
Vicent sorriu pela primeira vez desde que ela acordou, um sorriso genuíno que chegou aos seus olhos. Ele se inclinou e beijou a testa dela com uma reverência que contradizia sua personalidade usualmente controlada.
- Fico feliz por isso- ele disse, a voz mais calma do que estivera.
A mão de Vicent permaneceu na testa dela por um momento a mais do que o necessário, o polegar traçando círculos lentos e reconfortantes. O silêncio no local era diferente agora - não mais carregado de culpa e dor, mas sim de uma trégua frágil, por um momento.
- Você está cansada- Elijah observou, sua voz ainda mantendo um tom de comando, mas sem a dureza anterior. Ele se pôs a caminhar até o armário, voltando com um pouco de água na qual eles sempre deixavam ali para que a garota não precisasse se levantar para ir na cozinha caso sentisse sede.
Kael soltou Francine relutantemente e a ajudou a beber, mantendo uma mão firme em suas costas, uma preocupação exagerada do alfa- Ele tem razão. Seu corpo está lutando contra o estresse, então apenas descanse.
- Eu acabei de acordar, eu posso ficar apenas sem fazer nada o dia todo - reclamou a menina, A risada de Vicent foi suave, quase um ronronar. Ele se inclinou, o rosto perto do dela, o aroma de dama da noite e pinho envolvendo-a como um cobertor. - Sim, você acordou, mas não estava descansando e sim em um transe.- Kael moveu a mão das costas dela para o ombro, os dedos firmes mas gentis.
- Seu corpo pode estar acordando, pequena, mas sua mente ainda está em choque. Você precisa descansar, mesmo que seja apenas por algumas horas.- Elijah estava observando tudo em silêncio até dizer - Não vamos te deixar sozinha de novo, Um de nós vai ficar aqui em cima com você. - Ele olhou para os outros alfas com uma expressão que não admitia discussão.
Francine apenas concordou, kael era o mais tranquilo entre os outros dois, então ele ficou ali com a garota enquanto seus irmãos saíram para pensar no que faria, já que as coisas mudaram de rumo de uma hora para outra, eles não queria machucar a garota mas agora ela estava em um momento frágil no qual ambos não sabiam.
- Lijah e se ela.. - Vicent não terminou, pois os olhos esverdeados do mais velho lhe alcançou sabendo o que provavelmente ele iria dizer.
- Eu não vi, não tem marca.. - O moreno engoliu em seco passando as mãos sobre os fios negros emaranhados. - Se ela está assim, pode ser que sim, más ela precisa contar a verdade pra nós, precisamos tirar a marca se ela tiver.
- Vicent!! - O loiro sabia o porquê o moreno estava hesitando. - Eu sei que ela era sofrer quando começarmos a retirada mais estaremos lá.
- Vamos conversar com ela quando acordar mais tarde.