Alina
O silêncio que se seguiu, minutos depois, à minha volta foi preenchido apenas pelo som rítmico das ondas quebrando contra as falésias. Vladlen havia saído e ausentou-se da mansão para tratar coisas, que ninguém poderia resolver e só apenas ele.
Kraus, mantendo sua postura de guarda pretoriano, limitou-se a informar que ele estava em uma reunião de negócios inadiável, algo que exigia a frieza que só o seu mestre possuía.
Senti um alívio momentâneo, mas era uma sensação falsa, como a calmaria que precede um desastre natural. Sem o peso da presença física dele, a casa parecia ainda mais opressora, como se as paredes de mármore estivessem impregnadas com sua essência predatória. Caminhei até o terraço, buscando no ar salgado uma forma de limpar a confusão que habitava meu peito.
Eu observava a imensidão azul do Mediterrâneo, deixando que o vento bagunçasse meus cabelos e resfriasse a pele ainda aquecida pelo sol. Minha mente era um campo de batalha entre o pavor que Vladlen me inspirava e a gratidão avassaladora pelo milagre que ele operara na vida de minha mãe.
Senti a presença imponente de Kraus antes mesmo de ouvi-lo. Ele se posicionou ao meu lado sutilmente, uma sombra silenciosa que nunca baixava a guarda. Diferente de Vladlen, Kraus não exalava crueldade gratuita, mas sim uma lealdade cega e perigosa ao homem que o comandava.
— Por que ele é assim, Kraus? — A pergunta escapou dos meus lábios antes que eu pudesse contê-la, minha voz saindo rouca e carregada de uma exaustão emocional profunda. — Por que precisa ser tão bruto, tão e******o em cada interação? Por que ele sente essa necessidade de esmagar qualquer traço de humanidade ao seu redor?
Kraus soltou uma risada abafada, um som sombrio que pareceu vibrar contra o parapeito de mármore. Ele não desviou os olhos do horizonte, mantendo o perfil rígido e impenetrável.
— Você tem sorte que ele está se segurando, Alina — ele respondeu, e o tom de sua voz fez meu estômago dar um nó. — Se fosse em outros tempos, ou com qualquer outra mulher, você estaria marcada dos pés à cabeça pela vontade dele.
Meu sangue gelou instantaneamente. A imagem de Vladlen perdendo o pouco controle que exibia e reivindicando meu corpo com a mesma ferocidade com que lidava com seus inimigos passou pela minha mente como um flash de horror puro.
— O que quer dizer com isso? — perguntei, minha respiração tornando-se curta e errática. — O que Vladlen realmente faria comigo? Por que ele se daria ao trabalho de me manter intacta se ele é o monstro que todos dizem?
Kraus finalmente girou o rosto para me encarar, e a seriedade em seus olhos era o suficiente para silenciar qualquer esperança de uma resposta reconfortante.
— Ele é um homem de guerra, Alina. Ele já viu e fez coisas que fariam sua alma se estilhaçar só de ouvir. Existe uma mulher que você provavelmente verá circulando pelos corredores ou saindo de seus aposentos... Natasha. É ela quem acalma a fera dentro dele quando o sangue ferve demais.
— Então por que ele me trouxe? Por que simplesmente não fica com ela e me deixa em paz em Roma? — A pergunta saiu ácida, tingida por uma revolta que eu m*l conseguia esconder. A ideia de que ele tinha uma "válvula de escape" enquanto eu era mantida em uma redoma de vidro me deixava confusa.
Kraus me olhou com algo que beirava a pena, uma expressão rara naquele rosto de pedra. Ele deu um passo em minha direção, diminuindo a distância de forma que eu pudesse sentir a gravidade de suas próximas palavras.
— Você não entende nada, garota. Natasha é apenas uma utilidade, uma prostituta barata que serve para drenar a agressividade física de Vladlen. Ela é carne disponível, nada mais que um recipiente para o seu descontrole.
Ele fez uma pausa dramática, deixando que o som do mar enfatizasse o que viria a seguir.
— Mas com você... com você, Alina, o plano é muito mais complexo. Você é pura, é bela, carrega uma luz que ele nunca viu nesse mundo de sombras. Vladlen não quer apenas o seu corpo para uma noite de fúria.
— O que ele quer, então? — sussurrei, temendo a resposta que eu já começava a sentir em meus ossos.
— Ele planeja algo maior. Ele quer a sua alma, quer que você se torne o pilar central do seu domínio pessoal. Ele não está apenas esperando para te quebrar; ele está esperando pelo momento em que você se entregará por vontade própria, reconhecendo-o como o seu único mestre.
— Isso é doentio — retruquei, sentindo as lágrimas de frustração arderem em meus olhos. — Eu nunca me entregarei a um homem que usa o medo como linguagem.
— Aceite seu destino, Alina — Kraus disse, ignorando meu protesto com uma frieza profissional. — Quanto mais você luta contra a maré, mais rápido se afoga. Vladlen já decidiu que você é dele, e ele nunca perdeu um território que decidiu conquistar.
Ele se afastou com passos rítmicos, retornando para junto da equipe de seguranças que montava guarda no jardim abaixo, deixando-me mergulhada em um silêncio perturbador.
Fiquei sozinha no terraço, o coração disparado contra as costelas. O pensamento de ser "algo maior" para Vladlen me aterrorizava mais do que a ideia de sua violência física. Era uma perseguição psicológica, um cerco lento que visava desmantelar quem eu era.
Eu era a arquiteta de meus próprios sonhos, mas ali, naquela jaula dourada, eu percebia que Vladlen estava redesenhando as fundações da minha existência. A gratidão pela vida de minha mãe agora parecia a primeira pedra desse novo edifício que ele estava construindo.
Ao olhar para o horizonte escuro, percebi que Kraus tinha razão sobre uma coisa: a corda estava apertando. E o mais assustador era sentir que, em algum lugar profundo e sombrio da minha consciência, eu estava começando a esperar pelo toque do lobo.
Mais tarde, na brisa noturna tornou-se subitamente mais fria, mas era o peso das palavras de Kraus que realmente me congelava por dentro. Eu o encarei, buscando qualquer sinal de mentira naquela face de granito, mas só encontrei a convicção inabalável de quem servia ao d***o e conhecia todos os seus hábitos.
— Você fala dele como se fosse uma divindade sombria, e não um homem que sangra e sente dor — rebati, tentando desesperadamente recuperar um pouco da dignidade que suas revelações haviam estraçalhado. — Natasha pode ser o que você diz, mas ao menos ela tem a liberdade de sair quando o serviço acaba.
Eu estou presa em um contrato de sangue, esperando por um momento que você descreve como se fosse uma honra, quando, na verdade, é o meu maior pesadelo.
Kraus não se moveu, mas seus olhos brilharam sob a luz da lua com uma intensidade analítica, como se estivesse medindo a espessura das minhas defesas antes do colapso inevitável.
— Liberdade é um conceito relativo na Sardenha, Alina, e Natasha sabe que estar sob a proteção de Vladlen é melhor do que estar morta em uma vala russa — ele respondeu, a voz mantendo aquela cadência hipnótica e desprovida de remorso. — Você o vê como um monstro porque ele não finge ser nada além disso. Mas tente entender a mente de um homem que possui tudo, menos algo que seja genuinamente puro. Ele não quer te destruir; ele quer ser o único motivo pelo qual você continua inteira. Se ele quisesse apenas carne, ele teria te tomado no jato, no primeiro momento em que você se sentiu minúscula diante dele.
Senti uma náusea subir pela garganta, uma mistura de indignação e uma percepção aterrorizante de que as peças do quebra-cabeça de Vladlen estavam finalmente se encaixando de uma forma sinistra.
— Então é isso? Eu sou o troféu de pureza dele? Um experimento de laboratório para ver quanto tempo uma pessoa comum aguenta antes de se corromper? — minha voz subiu uma oitava, cortando o silêncio do terraço como uma lâmina. — Ele salva a minha mãe com uma mão e com a outra ele aperta o meu pescoço, esperando que eu o agradeça por não me matar de uma vez. É doentio, Kraus! É a forma mais perversa de controle que eu já vi!
— Chame do que quiser, mas não confunda o método com a intenção — Kraus disparou, dando as costas para o mar e caminhando lentamente em direção à porta de vidro, parando apenas por um segundo para me lançar um último olhar carregado de um aviso sombrio.
— Vladlen não joga para perder, e ele já investiu demais em você para permitir que você continue sendo apenas uma arquiteta assustada de Roma. Natasha é o passado, o instinto animal que ele sacia nas sombras. Você é o futuro que ele quer construir, o único território que ele ainda não mapeou por completo. Durma com esse pensamento, Alina, pois quando ele voltar daquela reunião, ele não estará procurando por uma funcionária grata, mas pela mulher que ele decidiu que será a única a ocupar o vazio que nem todo o ouro do mundo conseguiu preencher.