O gelo de São Petersburgo ainda corre em minhas veias, não importa o quão quente esteja o sol de Roma. Olho pela janela da cobertura do hotel, observando a cidade eterna como se fosse um tabuleiro de xadrez esperando para ser derrubado.
Meus dedos tamborilam no vidro à prova de balas, um ritmo impaciente que reflete o motor barulhento da minha própria mente. Eu não vim aqui para apreciar as ruínas; vim para construir as minhas próprias sobre os corpos dos que ousarem cruzar o meu caminho. A máfia russa não pede licença, ela toma o que é seu por direito de sangue.
Ajusto o punho da minha camisa feita sob medida, sentindo o tecido esticar contra meus ombros. Com meus acentuados 1,98m, o mundo sempre parece pequeno demais, as portas baixas demais, as pessoas insignificantes demais. Eu domino o espaço físico antes mesmo de abrir a boca.
No espelho, vejo o reflexo de um homem de trinta e dois anos cujas feições foram esculpidas pela violência e pela falta de sono. Meus olhos são duas fendas cinzentas, desprovidas de qualquer calor humano. Eu não sinto; eu executo.
O relatório sobre a mesa detalha as rotas de tráfico que estão sendo interceptadas por famílias locais. Um erro e******o. Eles acham que, por estarem em solo italiano, estão protegidos pelas tradições da Cosa Nostra. Eles não entendem que eu sou uma força da natureza, um inverno siberiano que não respeita fronteiras.
Sinto a adrenalina subir, uma queimação familiar que só se acalma com o som de ossos quebrando ou o silêncio absoluto após um tiro certeiro. A agressividade é minha linguagem nativa, e eu sou um mestre em dialetos de dor.
Ouço o som de passos hesitantes atrás de mim. É uma das mulheres que meus subordinados trouxeram ontem à noite. Ela está enrolada em um lençol de seda, os olhos arregalados de medo, as marcas roxas em seus pulsos servindo como um lembrete do que aconteceu nas últimas horas. Para mim, ela não tem nome. É apenas um objeto, um receptáculo para a fúria s****l que me consome quando a pressão dos negócios se torna insuportável.
O sexo, para mim, nunca foi sobre i********e. É sobre posse. É sobre ver até onde posso levar um corpo antes que ele se quebre sob o meu peso e minha brutalidade.
— Por favor... eu quero ir para casa — ela sussurra, a voz trêmula.
Viro-me lentamente, deixando que minha estatura a envolva como uma mortalha. Não digo uma palavra. Apenas aponto para a porta com um gesto seco. O medo que emana dela é quase palpável, um cheiro adocicado que me enoja. Desprezo a fragilidade. Desprezo o choro. Assim que ela sai correndo, sinto o vazio habitual retornar. Nada me satisfaz por muito tempo. As mulheres são fáceis demais, quebradiças demais, submissas demais. Elas tremem antes mesmo de eu tocá-las, e isso tira metade do prazer da caçada.
Caminho até o bar e viro uma dose de vodka pura. O líquido desce queimando, mas não apaga a irritação constante que lateja sob minha pele. Meus homens entram na sala, mantendo uma distância segura. Eles conhecem meu gênio. Sabem que um movimento errado pode resultar em um funeral de caixão fechado.
Sou o "Açougueiro", o monstro que a Bratva envia quando a diplomacia falha. E a diplomacia sempre falha quando eu estou no comando.
— O encontro com os italianos está marcado para as onze, Brat — diz Boris, meu segundo em comando, sem desviar os olhos do chão.
— Ótimo — respondo, minha voz soando como o rolar de pedras em um túmulo. — Quero que eles entendam que Roma agora tem um novo dono. E se eles não entenderem pelas palavras, entenderão pelo aço.
Visto meu paletó escuro, sentindo o peso da arma velada sob a axila. Saímos da cobertura, e o eco dos meus passos no mármore soa como sentenças de morte. Eu preciso de algo novo. Algo que não se curve ao meu primeiro olhar. A monotonia da obediência está me matando mais rápido do que qualquer bala inimiga. Eu saio para as ruas de Roma como um lobo faminto, procurando por uma resistência que eu ainda não encontrei.
As ruas estão cheias de gente pequena com vidas medíocres. Eu as observo através do vidro fumê do carro blindado, sentindo o tédio se transformar em uma raiva silenciosa. Eu quero algo que eu possa destruir com minhas próprias mãos, algo que lute de volta antes de se apagar. Meu corpo está tenso, uma mola comprimida esperando pelo impacto. O dia está apenas começando, e eu sinto que o sangue vai correr antes que o sol se ponha. Roma não sabe o que a atingiu, e eu não pretendo deixá-la esquecer.
O silêncio no banco de trás do Mercedes blindado é interrompido apenas pelo bipe intermitente do tablet de Kraus, que despeja coordenadas e perfis de alvos que eu deveria estar estudando. Minha mente, no entanto, divaga para o vazio deixado pela mulher da noite anterior; a facilidade com que ela se quebrou sob meu peso me deixou com um gosto amargo de tédio na boca.
Eu não suporto a fragilidade que se entrega sem luta, o choro que implora por misericórdia antes mesmo do primeiro golpe de autoridade. "Diga ao contato em Moscou que as rotas do Mediterrâneo estão sob controle, Kraus, e se ele questionar meus métodos novamente, enviarei a língua dele de volta em um pote de conserva", rosno, vendo meu segundo em comando engolir em seco enquanto digita freneticamente. Meu corpo faz com que o teto do carro pareça me sufocar, uma jaula de luxo que não consegue conter a fera que ruge sob meu esterno pedindo por algo real, algo que sangre com vontade.
— Vladlen, os italianos sugeriram um encontro neutro para a entrega dos termos originais. Uma cafeteria discreta perto do Panteão. Eles acham que o público vai nos manter civilizados, Kraus comenta, um meio sorriso tenso brincando em seus lábios enquanto ele ajusta a gravata.
Eu solto uma risada curta e seca, um som que mais parece um tiro de advertência, e recosto a cabeça no couro artesanal do banco.
— Civilização é um conceito para homens que têm medo do que veem no espelho, Kraus. Se eles acham que um balcão de café vai me impedir de arrancar a cabeça de quem me trair, eles são mais idiotas do que eu imaginei. Estacione o carro a dois quarteirões; quero caminhar e sentir o cheiro dessa cidade antes de decidi se vou queimá-la ou apenas comprá-la peça por peça, ordeno, sentindo meus músculos retesarem com a expectativa de um confronto iminente.
Saio do carro e a brisa de Roma atinge meu rosto, mas não refresca o fogo que arde em meu sangue. Caminho com passos pesados, forçando os pedestres a se lançarem para as laterais das calçadas estreitas como se vissem a própria morte vestindo um terno de três mil euros. Cada passo meu é uma declaração de posse sobre o asfalto antigo, e eu sinto os olhares de medo e cobiça me seguindo, mas não retribuo nenhum deles; para mim, eles são apenas ruído de fundo.
— Mantenham-se do lado de fora, digo aos meus seguranças quando paramos diante de uma fachada de madeira escura com letras douradas descascadas.— Se eu ouvir um suspiro vindo de dentro que não seja do meu agrado, vocês entram e limpam o lugar. Entendido?.
Eles assentem com uma submissão robótica que eu tanto desprezo, e eu empurro a porta de vidro, fazendo o sino tilintar como um aviso de que o d***o acabou de chegar para o desjejum.
O interior da cafeteria cheira a grãos torrados e exaustão, um contraste bizarro com o mundo de pólvora de onde acabo de sair.
Meus olhos varrem o ambiente em segundos, identificando as saídas e a posição dos clientes, mas minha visão trava em uma figura pequena atrás do balcão, cujas mãos se movem com uma agilidade frenética.
Ela parece não ter notado minha entrada, ou se notou, não deu a mínima importância, o que já é uma afronta ao meu ego inflado pela violência.
Aproximo-me do balcão, minha sombra cobrindo a pequena área de trabalho dela, e espero pelo choque de terror que sempre vem quando as mulheres percebem o predador diante delas.
— Onde está o gerente desta espelunca? Tenho negócios a tratar e não pretendo perder meu tempo entre sacos de açúcar... — Demando, minha voz saindo em um barítono que costuma fazer joelhos vacilarem, mas ela sequer levanta a cabeça de imediato.
— O gerente está nos fundos contando o estoque que os seus amigos de terno provavelmente vão tentar roubar com impostos, e você está bloqueando a passagem para os clientes que realmente consomem algo. — Ela responde sem olhar para mim, a voz firme apesar do cansaço evidente, enquanto termina de vaporizar o leite.
Eu sinto uma pontada de descrença; ninguém fala comigo nesse tom, muito menos uma garota que parece que seria levada por um golpe de vento mais forte. Bato a palma da mão no mármore do balcão, um estalo que faz as xícaras próximas tremerem, e me inclino para frente, deixando minha presença oprimi-la completamente.
— Olhe para mim quando eu falar com você, pequena rata. Você tem alguma ideia de quem eu sou ou do que eu posso fazer com este lugar com apenas um estalar de dedos?, questiono, a agressividade pulsando em cada sílaba, esperando ver as lágrimas ou o tremor nas mãos dela.
Finalmente, ela levanta o rosto, e o impacto é como um soco no estômago que eu não estava preparado para levar. Seus olhos castanhos não brilham com medo; eles ardem com uma irritação pura e uma exaustão que espelha a minha de uma forma distorcida.
— Eu sei que você é um homem muito alto, muito m*l-educado e que está atrasando meu fechamento de caixa em cinco minutos, ela retruca, sustentando meu olhar gélido com uma audácia que beira o suicídio. — Se quiser fazer ameaças, entre na fila atrás da minha conta de luz e do aluguel atrasado. Agora, vai querer um café duplo para ver se melhora esse gênio ou vai continuar testando a minha paciência?.
Eu fico em silêncio por um batimento cardíaco longo demais, processando a insolência. A diferença de tamanho entre nós é cômica, meu tamanho faz com que ela pareça uma boneca de porcelana, mas a espinha dorsal dela parece ser feita de aço temperado.
Sinto um sorriso sombrio começar a curvar meus lábios, algo que raramente acontece fora de um contexto de dor.
— Você tem uma língua muito afiada para alguém tão insignificante, murmuro, baixando o tom para algo perigosamente íntimo, enquanto observo as manchas de grafite em seus dedos pequenos. — Eu poderia apagar você desta cidade antes que o sol se pusesse, e ninguém encontraria sequer um fio desse seu cabelo castanho.
Ela solta um suspiro pesado, apoia as mãos no balcão e se inclina para frente, ficando a poucos centímetros do meu peito, uma afronta que me faz querer agarrar seu pescoço e beijá-la com a mesma violência que uso para destruir meus inimigos.
— Então faça um favor a nós dois e comece logo, porque se eu tiver que ouvir mais um discurso de mafioso entediado antes de ver o rosto da minha mãe, eu mesma me jogo no Tibre, ela desafia, o olhar inabalável.
Kraus entra na cafeteria, parecendo nervoso com a demora, e começa a falar:
— Vladlen, os italianos chegaram, eles estão na mesa dos fundos esperando por...
Eu levanto a mão, calando-o sem desviar os olhos da garota, que agora me encara com uma sobrancelha erguida, claramente impaciente com a interrupção.
— Diga a eles para esperarem. Estou ocupado tentando entender por que essa criatura ainda não começou a tremer.
Ordeno, sentindo uma obsessão súbita e violenta se enraizar em meu peito. Eu vim buscar controle sobre Roma, mas de repente, o controle sobre essa insolente parece muito mais urgente. Ela volta a limpar o balcão como se eu fosse apenas mais uma mancha de café difícil de remover, ignorando meu poder e o perigo mortal que eu represento.
— O café duplo sai por quatro euros. Vai pagar ou vai continuar fazendo pose de vilão de cinema?, ela pergunta, estendendo a mão pequena para o pagamento sem sequer me dar o benefício de um sorriso falso.
Eu retiro uma nota de cem euros e a jogo sobre o balcão, vendo-a pegar o dinheiro com indiferença e começar a procurar o troco.
— Fique com o troco e compre um pouco de juízo, Alina , digo, lendo o crachá em seu peito pela primeira vez.
Ela me entrega uma moeda de um euro com um olhar de desdém.
— Eu não aceito gorjetas de quem não sabe pedir 'por favor'. Guarde seu dinheiro, você vai precisar dele para pagar os advogados quando encontrar alguém que realmente se importe com quem você é...
Saio em direção à mesa dos italianos, mas minha mente já não está nos negócios; eu a quero. Eu quero quebrar esse orgulho, quero ver essa audácia se transformar em gemidos de submissão sob o meu corpo. A caçada começou.