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1129 Words
Grego Narrando Saio da loja da Lena ao lado do Cairo e seguro a risada enquanto olho para cara de poucos amigos que ela faz antes de baixar novamente a porta de vidro. Aquela mulher tem o dom de me colocar no meu lugar sem fazer esforço nenhum. Conheço ela há anos e, mesmo assim, continuo entrando naquela loja como se um dia fosse sair de lá com um encontro marcado. Não saio. Saio sempre com uma resposta atravessada e uma esperança i****a de que, na próxima vez, ela resolva facilitar minha vida. O pior é que eu gosto disso. Se ela fosse igual às outras, provavelmente eu já teria perdido o interesse fazia tempo. — Tu ri de quê? Olho para o Cairo. — Da tua cara. Ele franze a testa. — Minha cara? — Tu fica quieto a visita inteira e depois pergunta da minha cara. Ele apenas balança a cabeça enquanto continua andando. A gente desce a viela cumprimentando praticamente todo mundo. Uma senhora para o Cairo para perguntar sobre um problema na rua de cima. Ele escuta tudo com paciência, promete mandar alguém verificar e continua andando como se aquilo fosse a coisa mais normal do mundo. E é. Tem dia que parece mais síndico da Rocinha do que qualquer outra coisa. Continuo falando sobre uma entrega que chega durante a madrugada, sobre um dos vapores que está querendo trocar de horário e sobre o Menor, que vive inventando moda para provar que já cresceu. Falo durante quase cinco minutos seguidos. Quando olho para o lado, percebo que o Cairo responde apenas com um "hum", um "tá" ou um "depois a gente vê". Paro de andar. Ele dá mais dois passos antes de perceber. — Que foi? Cruzo os braços. — Tá me ouvindo? — Tô. Dou um sorriso. — Mentira. Ele revira os olhos. — Tá maluco? — Então me fala o que eu acabei de dizer. Silêncio. O desgraçado ainda tenta pensar. Começo a rir. — Eu sabia. Ele passa a mão na nuca. — Vai tomar no cu. Rio mais ainda. — Tá viajando bonito. — Não enche. Volto a caminhar ao lado dele. — É a mulher do w******p, né? Ele continua olhando para frente. — Que mulher? — A mesma que tu passou dois anos ignorando e agora responde em menos de um minuto. Ele me encara. — Tu tá me vigiando? — Não preciso. Tua cara entrega tudo. Ele solta um riso pelo nariz. — Tá falando merda. — Tô? Dou uma cotovelada de leve no braço dele. — Desde quando tu anda distraído desse jeito? Ele demora alguns segundos para responder. — Ela sabe coisa demais. Dessa vez eu paro de brincar. Olho sério para ele. — Tipo? Ele enfia as mãos no bolso. — Ela sabe o que eu faço quando ninguém tá olhando. Franzo a testa. — Como assim? — Ela sabe que eu deixo gente ir embora quando todo mundo acha que eu vou mandar matar. Continuamos andando em silêncio por alguns metros. — Ela falou do moleque do botijão? Ele apenas confirma com a cabeça. Aquilo me faz pensar. Porque essa informação não sai da boca de qualquer um. Ou ela está muito perto. Ou alguém muito próximo está falando demais. — Eu ainda acho que tu faz certo em responder. Ele olha para mim. — Tu não tá preocupado? — Eu tô. — E mesmo assim acha que eu devo continuar? Respiro fundo antes de responder. — Justamente porque eu tô preocupado. Se ela sabe tanto assim sobre tua vida, tu precisa descobrir quem ela é antes que outra pessoa descubra por ti. Ele fica em silêncio outra vez. Conheço o Cairo há tempo suficiente para saber quando alguma coisa realmente entra na cabeça dele. E entrou. Chegamos à boca. O movimento continua intenso. Uns conferem carga, outros fazem contagem de dinheiro, rádio chiando sem parar e gente entrando e saindo o tempo inteiro. O Menor aparece correndo com um caderno na mão. — Grego! Olho para ele. — Fala, cria. — O caminhão chega mais tarde. O motorista ligou avisando. Pego o rádio da mão dele. — Avisa o pessoal da contenção pra mudar o horário. Ele faz que sim e sai praticamente correndo outra vez. Dou risada. — Esse moleque vai infartar antes dos vinte e cinco. Cairo apenas sorri de canto e entra na sala dele. Eu fico do lado de fora resolvendo algumas coisas. Confiro dinheiro, converso com os vapores, dou bronca em dois que estão fazendo corpo mole e mando outro ir almoçar porque já está trabalhando desde cedo demais. O tempo passa rápido quando a cabeça está ocupada. Quase uma hora depois, resolvo entrar na sala do Cairo para ver uma planilha de movimentação. Empurro a porta sem bater. Ele nem percebe. Está sentado na cadeira, com o celular na mão. Parado, olhando para a tela. Fico alguns segundos observando. Dou uma risada baixa. — Ela mandou mensagem de novo, né? Ele levanta os olhos devagar. — Como tu sabe? Puxo a cadeira da frente e sento. — Porque tu tá olhando pra esse celular igual adolescente esperando resposta da namorada. Ele joga o aparelho em cima da mesa. — Não viaja. — Tô viajando nada. Aponto para o celular. — Tu nunca ligou pra esse negócio. Ele passa a mão no rosto. — Ela sabe coisa demais sobre mim. Fico sério. — Ela falou mais alguma coisa? Ele demora alguns segundos antes de responder. — Falou que eu não tô me alimentando direito. Dou uma risada de incredulidade. — Até nisso ela reparou? — Reparou. — E... ela tá mentindo? Ele não responde, só me encara. Abro um sorriso. — Então ela acertou. Ele balança a cabeça, irritado. — Que inferno. — Faz quanto tempo que tu não toma café da manhã? Ele continua em silêncio. — E almoço? Mais silêncio. Dou uma gargalhada. — p***a, Cairo... a mulher tá te conhecendo melhor que nós. Ele pega um isqueiro da mesa e começa a girar entre os dedos. — Isso que tá me incomodando. Meu sorriso desaparece. Inclino o corpo para frente. — Escuta o que eu vou te falar agora, sem brincadeira. Ele levanta os olhos. — Continua respondendo. — Grego... Levanto a mão. — Não interrompe. Ele se cala. — Tu não tá conversando com ela porque tá apaixonado. Tu tá conversando porque precisa entender quem é essa pessoa. Se ela sabe tua rotina, teus hábitos e até o que tu come, ela tá perto. Muito perto. Ele permanece em silêncio. Levanto da cadeira e bato duas vezes na mesa antes de sair. — E outra... Ele me olha. Dou um sorriso de canto. — Come direito, p***a. Vai que a mulher tá certa.
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