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Cairo Narrando
A madrugada é a única hora em que o morro parece respirar. Lá embaixo o baile continua estourando, as motos sobem e descem a ladeira sem parar, e os rádios dos meus homens estalam de tempos em tempos, confirmando que está tudo sob controle. E está. Sempre está!
Apoio os braços no parapeito da laje e observo as luzes da cidade ao longe. Engraçado como ela parece bonita daqui de cima. De longe, ninguém imagina a guerra que existe entre essas vielas. Levo o baseado aos lábios e puxo a fumaça devagar, quando meu celular vibra. Nem olho, já sei quem é.
Há dois anos a mesma pessoa inferniza a minha vida. Sempre de um número diferente. Bloqueio um, ela aparece com outro. Bloqueio de novo e ela volta. Já troquei de número algumas vezes e nada adianta, por isso já nem perco mais meu tempo, deixo falando só. Nunca manda foto de verdade, nunca diz o nome, nunca pede dinheiro e nunca ameaça, só fala comigo. No começo achei que fosse alguma adolescente s*******o. Depois pensei que pudesse ser armação de algum rival. Mandei rastrear alguns números, mas nunca chegaram a lugar nenhum. Com o tempo, simplesmente parei de me importar.
O celular vibra outra vez. Depois outra. E mais uma. Solto a fumaça pelo nariz e reviro os olhos. Essa mulher não cansa… Pego o aparelho apenas para silenciar as notificações.
WhatsApp. Número desconhecido. Como sempre.
A primeira mensagem é de dez minutos atrás:
Desconhecida:
Boa noite.
A segunda chega logo abaixo:
Desconhecida:
Você continua olhando para a cidade como faz quando quer esquecer alguma coisa.
Meu peito trava! Levanto a cabeça imediatamente, olho para a direita. Depois para a esquerda. Não há ninguém na laje. Me aproximo da mureta e observo as casas ao redor. Algumas luzes estão apagadas, outras continuam acesas. Ninguém parece me encarar. Volto para a conversa e a terceira mensagem acaba de chegar:
Desconhecida:
Hoje você está fumando mais do que o normal.
O baseado entre os meus dedos parece pesar de repente. Quem diabos está me vendo? Pela primeira vez em dois anos, meus dedos não passam direto pelo botão de bloquear. Eles tocam o teclado:
Eu:
Quem é você?
Os três pontinhos aparecem quase no mesmo instante. Meu coração continua estranhamente calmo, mas a minha curiosidade nunca esteve tão desperta. Depois de dois anos ignorando aquela mulher… é a primeira vez que eu respondo.