Os três pontinhos aparecem na tela.
Desaparecem.
Voltam.
Somem outra vez.
Eu continuo encarando o celular sem desviar os olhos e solto uma risada baixa.
— Não é possível...
Durante dois anos essa mulher nunca me deixou em paz. Mandava mensagem quase todos os dias, arrumava um número novo sempre que eu bloqueava o antigo e nunca desistia. Agora, justamente agora que resolvi responder... ela trava. Guardo o celular no bolso e me viro para entrar em casa, mas antes que eu alcance a porta da laje, a notificação toca. Volto imediatamente.
Desconhecida:
Eu...
Espero. Nada. Alguns segundos depois outra mensagem chega.
Desconhecida:
Desculpa.
Franzo a testa antes de responder.
Eu:
Desculpa pelo quê?
Ela demora quase um minuto.
Desconhecida:
Porque eu nunca imaginei que você fosse responder.
Dou um sorriso de canto.
Eu:
Então por que manda mensagem há dois anos?
Dessa vez ela responde mais rápido.
Desconhecida:
Porque conversar com você fazia parte do meu dia... mesmo sem resposta.
Leio aquela frase duas vezes.
Eu:
Isso não é conversar.
Desconhecida:
Para mim era.
Balanço a cabeça. Essa mulher definitivamente não bate bem, isso se for mulher, né.
Eu:
Você me conhece?
Ela demora alguns segundos.
Desconhecida:
Conheço.
Eu:
De onde?
Desconhecida:
Da sua vida.
Reviro os olhos.
Eu:
Resposta r**m.
Ela envia um emoji rindo e chego a rir pelo nariz.
Eu:
Tá achando graça?
Desconhecida:
Um pouquinho.
Eu:
Você sabe quem eu sou?
Desconhecida:
Melhor do que você imagina.
Aquela resposta faz meu sorriso desaparecer.
Eu:
Então também sabe que eu descubro quem você é quando eu quiser.
A mensagem é visualizada e o silêncio dura quase dois minutos. Quando penso que ela desistiu, a resposta aparece.
Desconhecida:
Se você pudesse... já teria descoberto.
Meu maxilar trava. Ela acabou de tocar no único assunto que me incomoda. Eu tentei descobrir, mais de uma vez. No começo achei que fosse brincadeira, depois desconfiei de algum policial tentando se aproximar, também pensei em rivais, rastreei números, paguei gente especializada e nunca encontrei absolutamente nada. Ela simplesmente desaparecia e reaparecia com outro número, como se nunca tivesse existido. Volto para a conversa.
Eu:
O que você quer comigo?
Ela responde quase imediatamente.
Desconhecida:
Cinco minutos.
Eu:
Você teve dois anos.
Desconhecida:
E esperaria mais vinte, se fosse preciso.
Passo a língua pelos dentes. Ela fala sério, pela primeira vez desde que tudo começou... eu sinto isso.
Eu:
Por quê?
A resposta demora. Muito. Quase cinco minutos. Quando a tela finalmente acende, leio a mensagem uma única vez.
Desconhecida:
Porque eu amo você.
Permaneço olhando para aquelas quatro palavras. Já ouvi declarações parecidas, antes. Mulheres interessadas, curiosas, atraídas pelo poder. Mas nenhuma delas passou dois anos falando sozinha. Nunca pediu dinheiro, nunca pediu um encontro, nunca pediu um favor. Ela apenas... ficou. Esperando. E, pela primeira vez em muito tempo, sou eu quem espera pela próxima mensagem.
Continuo encarando a tela. Porque eu amo você. Quatro palavras simples, curtas, mas suficientes para fazer minha cabeça trabalhar mais do que deveria. Passo a mão pela nuca e volto a digitar.
Eu:
Você tá confundindo as coisas.
Ela visualiza na mesma hora e não demora para responder.
Desconhecida:
Não estou.
Rio sozinho. Não de felicidade, de incredulidade.
Eu:
Tá, então me explica uma coisa.
Ela permanece online. Esperando.
Eu:
Como você ama uma pessoa que nunca viu de verdade?
Eu:
Você nunca conversou comigo pessoalmente.
Eu:
Nunca ouviu minha voz.
Eu:
Eu nunca respondi uma mensagem sua até hoje.
Eu:
Eu nem faço parte da sua vida.
Os três pontinhos aparecem, somem e voltam.
Desconhecida:
Você tem certeza?
Franzo a testa.
Eu:
Tenho.
Desconhecida:
Você faz parte da minha vida há muito mais tempo do que imagina.
Sinto um incômodo estranho no peito, não gosto daquela resposta. Ela parece saber coisas demais.
Eu:
Então me conhece pessoalmente?
Desconhecida:
Sim.
Leio a mensagem outra vez.
Eu:
E eu conheço você?
Desconhecida:
Não.
Eu:
Então isso não faz sentido.
Desconhecida:
Faz para mim.
Bato o polegar na lateral do celular. Ela sempre responde sem revelar nada. É como conversar com alguém que abre uma porta e fecha antes que eu consiga olhar lá dentro.
Eu:
Você criou uma imagem minha na sua cabeça.
Eu:
Você acha que me ama.
Eu:
Mas não ama.
Eu:
Ama a ideia que fez de mim.
Dessa vez ela demora mais, quase três minutos. Começo a imaginar que finalmente a fiz desistir, até que a resposta chega.
Desconhecida:
Posso te fazer uma pergunta?
Fico alguns segundos olhando para a tela.
Eu:
Faz.
Desconhecida:
Quantas pessoas olham para você sem enxergar quem você realmente é?
Leio, depois releio. Não respondo e ela continua.
Desconhecida:
Todo mundo vê o dono do morro.
Desconhecida:
O homem que manda.
Desconhecida:
O homem que assusta.
Desconhecida:
Mas eu vejo outra pessoa.
Meu dedo para sobre o teclado. Ela não faz ideia de quem eu sou, não pode fazer.
Eu:
E quem seria essa outra pessoa?
A resposta demora, mas quando chega, sinto meu coração desacelerar por um instante.
Desconhecida:
O homem que sobe na laje quando a cabeça está cheia.
Desconhecida:
Que fuma um cigarro olhando para a cidade como se quisesse fugir dela.
Desconhecida:
Que passa a mão na barba sempre que está irritado.
Automaticamente levo a mão ao rosto. Ela tem razão, acabei de fazer exatamente isso. Olho ao redor mais uma vez. A rua, as casas, os telhados, as janelas escuras. Ninguém, absolutamente ninguém. Volto para o celular.
Eu:
Onde você está?
Ela visualiza. Não responde. Espero. Um minuto. Dois. Cinco. Até que uma nova mensagem aparece.
Desconhecida:
Bem mais perto do que você imagina...
Meu estômago se contrai. Pela primeira vez em muitos anos... eu sinto que não sou o único observando.