A mensagem fica brilhando na tela.
"Desconhecida: Bem mais perto do que você imagina..."
Meu olhar percorre as casas ao redor mais uma vez e não vejo nada. Nenhum movimento estranho, nenhuma sombra. Só o morro vivendo a sua própria madrugada. Aperto a mandíbula e volto para a conversa.
Eu:
Você sabe qual é o seu problema?
Ela demora alguns segundos para visualizar, mas não responde. Continuo digitando.
Eu:
Você acha que isso é bonito.
Eu:
Ficar escondida, observando a vida dos outros, criando números diferentes... isso não é normal.
Dessa vez ela responde.
Desconhecida:
Eu nunca quis te assustar.
Dou uma risada seca.
Eu:
E conseguiu exatamente o contrário.
Ela começa a digitar. Antes que envie qualquer coisa, mando outra mensagem.
Eu:
Você fala que me ama, mas nem me conhece.
Eu:
Você conhece momentos meus.
Eu:
Conhece a imagem que construiu na sua cabeça.
Eu:
Amor não nasce de mensagens.
Os três pontinhos aparecem. Ela escreve. Apaga. Escreve de novo. Por fim, responde.
Desconhecida:
Você tem o direito de pensar assim.
Respiro fundo. Pela primeira vez desde que respondi aquela conversa, sinto que já passou da hora de acabar com aquilo.
Eu:
Escuta bem.
Eu:
Eu respondi porque você descreveu exatamente onde eu estava.
Eu:
Minha curiosidade falou mais alto.
Eu:
Só isso.
Ela visualiza imediatamente. Espero que responda, mas sou eu quem continua.
Eu:
Agora essa curiosidade acabou.
Eu:
Eu tenho mais o que fazer do que perder tempo conversando com uma desconhecida.
Passam alguns segundos. Ela continua online. Digitando. Não deixo ela completar.
Eu:
E outra coisa...
Eu:
Para com essa mania de ficar me observando.
Eu:
Isso não é amor.
Eu:
É coisa de gente maluca.
Escrevo mais uma linha, dessa vez sem pensar muito.
Eu:
Ou de psicopata.
Os três pontinhos desaparecem de vez. Ela não responde. Não sei se ficou magoada. Não sei se ficou com raiva. E, sinceramente... não me importo.
Seguro o dedo sobre a tela por alguns segundos, abro as opções da conversa e escolho: Silenciar notificações. Dessa vez não bloqueio. Também não apago. Só silencio. Se ela quiser continuar falando sozinha... que fale.
Guardo o celular no bolso e caminho pela laje, tendo a impressão de que aquela história termina aqui. m*l sei eu... que esse é apenas o primeiro capítulo dela.