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662 Words
Cairo Narrando Depois de deixar tudo organizado, finalmente consigo parar por alguns minutos. As ordens foram dadas. Os pontos estão cobertos. O morro inteiro em alerta. Agora resta esperar. E esperar sempre foi a parte mais difícil. Olho ao redor antes de sair. — Fica por aqui. — Digo ao Grego. Ele me encara direto nos olhos. — E tu? — Vou em casa. Ele entende. Não pergunta. Não insiste. Porque me conhece. Sabe quando preciso de alguns minutos sozinho. Entro no carro com a cabeça girando. Normalmente, nessas horas, minha mente só pensa em estratégia. No que pode dar errado. No que precisa ser evitado. Mas hoje é diferente. Hoje existe uma voz gravada na minha cabeça. A voz dela. Eu ainda consigo ouvi-la. "Cairo..." Uma palavra tão simples. Mas dita de um jeito que ficou marcada em mim. Nunca imaginei que ouvir alguém pela primeira vez pudesse me desestabilizar tanto. Eu já sabia que ela existia. Já conhecia suas palavras, suas mensagens, suas provocações. Mas era tudo distante. Agora não. Agora é real. Tem uma pessoa do outro lado. E isso me incomoda. Porque eu não sei quase nada sobre ela. Não sei seu rosto. Não sei onde mora. Não sei como descobriu o que descobriu. Mas sei uma coisa, ela arriscou tudo pra me avisar. E essa é a pergunta que não sai, por quê? Ela podia ter ficado calada. Continuado escondida. Deixado acontecer. E não fez. Por quê? Será que tudo que ela diz sentir é verdade? Ou existe alguma coisa que eu ainda não enxerguei? Uma parte de mim desconfia. Foi assim que sobrevivi até hoje. Mas outra parte... lembro dela dizendo, com a voz tremida, que só não queria que nada acontecesse comigo. Chego em casa. Entro sem barulho. Pela primeira vez em muito tempo, eu não quero ter que ser forte. Só quero alguns minutos sem precisar ser o homem que todos esperam. Vou direto pro banho. A água quente cai sobre o corpo, relaxa os músculos, alivia a tensão. Mas aqui dentro continua o mesmo movimento. Ela não sai. Não importa o quanto eu tente. Saio do banho e pego o celular. Fico parado, olhando a conversa. Meu dedo passa sobre a tela. Eu nunca hesito. Com ela... hesito. Escrevo. Envio. Eu: Você está bem? Espero. Um minuto. Dois. Nada. Escrevo de novo. Eu: Me responde quando puder. Mais minutos. Nada. Meu primeiro impulso é ligar. O dedo vai até o nome dela. E paro. Se ela está escondida. Se está correndo risco. Uma ligação minha pode denunciá-la. Apago a tela. E essa sensação me irrita. Odeio não saber. Odeio estar no escuro. Sempre tive todas as respostas. Sempre soube exatamente onde piso. E agora... existe uma pessoa lá fora, correndo perigo por minha causa, e eu não consigo fazer nada. Me arrumo. Estou pronto. Mas sinto um vazio que não deveria estar ali. Saio pra varanda. A noite segue. O mundo não parou. Acendo um baseado, fico ali, olhando a tela de tempos em tempos. Esperando. Uma mensagem. Qualquer coisa. Um sinal de que está bem. Nada. E pela primeira vez na vida, eu reconheço um sentimento que me deixa desconfortável, estou com medo. Não da operação. Não do que pode acontecer comigo. Mas do que pode ter acontecido com ela. A mulher que eu nunca vi. Que eu nunca toquei. Que eu nem sei o nome de verdade. E que mesmo assim... conseguiu algo que ninguém conseguiu antes. Me fazer esperar uma mensagem com o coração na mão. Me importar com alguém que eu nem conheço. Fecho os olhos por um instante. E tudo que me vem à mente é aquela voz. Baixa. Suave. Dizendo meu nome como se ele tivesse algum significado. E talvez esse seja o verdadeiro perigo. Eu não quero mais saber quem ela é por desconfiança. Agora... eu quero saber por mim. Porque quero conhecê-la. Porque quero protegê-la. E isso... isso é mais perigoso do que qualquer operação.
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