Augusto Narrando
As pessoas gostam de acreditar em personagens. O pai de família, o político honesto. O homem que aperta mãos, beija crianças e promete um futuro melhor.
É impressionante como uma boa imagem vale mais do que a verdade.
Desço do carro oficial com um sorriso perfeitamente calculado. Dois fotógrafos me esperam do lado de fora do portão. Aceno, cumprimento algumas pessoas e escuto elogios sobre meu trabalho. Faço questão de olhar nos olhos de cada uma delas. Elas precisam acreditar que me importo.
— Deus abençoe o senhor, deputado.
Sorrio.
— Deus abençoe todos nós.
As câmeras registram exatamente o que precisam registrar.
Quando o portão fecha atrás de mim, o sorriso desaparece.
— Alfredo.
O mordomo surge quase correndo.
— Senhor.
Olho para um pequeno arranhão na mesa da entrada.
— Quem fez isso?
Ele engole em seco.
— Não sabemos, senhor.
Aproximo meu rosto do dele.
— Eu perguntei quem fez.
— Vamos descobrir.
— Não.
Dou um passo para trás.
— Você vai descobrir antes de eu terminar meu banho.
Ele assente imediatamente, medo é um excelente incentivo.
Entrego o paletó para outra funcionária. Ela demora dois segundos para pegá-lo.
Dois segundos.
Olho para ela.
— Seu braço está quebrado?
Ela empalidece.
— Não, senhor.
— Então da próxima vez seja mais rápida.
Ela abaixa a cabeça. Ninguém responde, ninguém discute. Nesta casa todos aprenderam que questionar só piora as coisas.
Entro no escritório e meu assessor já me espera.
— Boa noite, deputado.
— Economize meu tempo.
Ele abre uma pasta.
— Tivemos novas informações sobre a Rocinha.
Levanto os olhos.
— Continue.
— O nome do Cairo voltou a aparecer em alguns relatórios.
Dou uma risada sem humor.
— Bandido continua sendo bandido.
Meu assessor permanece calado.
— O Estado perde tempo demais tentando negociar com esse tipo de gente.
Fecho a pasta com força.
— Lugar de criminoso é embaixo da terra.
O silêncio domina o escritório, meu assessor sabe que não é uma opinião. É uma convicção.
Ele muda rapidamente de assunto, fala sobre agendas e reuniões.
Dispenso-o poucos minutos depois.
Antes de sair, ele pergunta:
— Precisa de mais alguma coisa?
Olho para ele.
— Preciso.
Ele espera.
— Que as pessoas ao meu redor parem de cometer erros tão simples.
Ele abaixa a cabeça e sai.
Vou até a estante. Existe uma fotografia antiga ali, não gosto daquela foto. Viro o porta-retrato com violência. O passado serve apenas para atrapalhar quem pretende continuar no poder.
Sigo para a sala de jantar. Os empregados já estão posicionados, todos em pé, todos em silêncio. Exatamente como deve ser.
Uma funcionária se aproxima.
— O jantar está servido, senhor.
Olho para a mesa.
Depois para ela.
— Quem autorizou servir antes da minha chegada?
Ela empalidece.
— Eu... eu achei que...
Interrompo.
— Você não é paga para achar.
Ela baixa os olhos imediatamente.
Aproximo-me devagar.
— Pessoas incompetentes costumam tomar decisões que não lhes pertencem.
Ela começa a tremer.
Faço um gesto de desprezo.
— Saia da minha frente antes que eu perca a paciência.
Ela praticamente corre para fora da sala.
Os demais permanecem imóveis, ninguém ousa respirar mais alto.
Puxo a cadeira da cabeceira.
Antes de me sentar, pergunto sem alterar o tom de voz:
— Onde ela está?
Uma das funcionárias responde rapidamente:
— No quarto, senhor.
Olho para o relógio.
— Mande descer.
Ela assente.
Enquanto espero, observo a mesa enorme. Uma casa cheia de funcionários, uma mesa farta. Um silêncio absoluto, é exatamente assim que eu gosto. Porque onde existe medo...Existe controle.